
PORTO VELHO – Foi uma aventura e tanto. Quarenta anos fora da cidade onde nasci para conhecer a Rocinha. Não posso dizer que foi mágico, afinal a vida da maioria das pessoas que moram lá não é das mais fáceis, todavia foi impressionante observar do alto do morro a beleza exuberante de um pedacinho daquela cidade, que vista por cima merece o título de Cidade Maravilhosa.
Nas redes sociais, de vez em quando, aparece uma ou outra publicação mostrando as entranhas da Rocinha. Suas ruas e becos apertados. Fiações elétricas expostas, tubos de água limpa e servida para quem quiser ver. Portas de moradias que se confundem com os becos. Para moradores nada disso é novidade, mas para turistas aventureiros que topam o desafio de conhecer a favela por dentro é outra coisa. Tudo é novidade e adrenalina. E nem tudo é permitido.

O turismo na Rocinha funciona mais ou menos assim. Os pacotes são vendidos nas portarias de hotéis ou agências. Deve ter na internet também. Os valores variam. A gente não pode pensar muito. Se decidir subir o morro tem que assumir os riscos. Na porta do hotel o turista embarca em uma van ou outro modelo equivalente. Como é comum nos passeios coletivos, o veículo percorre alguns pontos do bairro para completar a lotação. Os motoristas, que também são guias, sempre identificados por crachás, repassam as orientações, tipo: permanecer sempre em grupo e ter cuidado com os registros fotográficos, ou seja: o turista faz a sua parte e não será incomodado por ninguém.

O desembarque acontece próximo a estação do Metrô de São Conrado – um bairro de elite. Alguns passos atrás do guia, cada um sobe na garupa de uma moto. Capacete? Pra quê? Nem o piloto e nem o passageiro. Meu piloto, por exemplo, tinha então 20 anos. Chegara do Nordeste há cerca de seis meses e se instalara na Rocinha. De lá praticamente não saia. Aprendeu a pilotar, arrumou trabalho e por dez reais conduzia o passageiro até o ponto de desembarque dos turistas.
Na única avenida Lucas, o meu condutor, ia ziguezagueando entre carros, ônibus e outras motos. Pensei que ia morrer de acidente ou do coração, ou no mínimo perder uma perna, tamanho eram os finos que ele tirava dos outros veículos. Mas deu tudo certo. Lá do alto dá para ver que valeu a pena o risco.

No alto da Rocinha tem restaurantes e lojas de souvenir. Se a subida é de moto, o retorno é pelas vielas. Filas indianas. E cada turista de olho no seu guia, que são inspecionados de tempo em tempo por pessoas, eu creio, da comunidade. No caminho tem projeto cultural com telas e artesanatos para venda, quadra esportiva com apresentação de craques locais e com direito a participação de turistas voluntários e até a visita a uma paróquia. Por fim, uma feirinha de importados, daquelas que tem um pouquinho de cada coisa. O dia estava bem calmo, mas a recomendação de vez em quando era revisada: não encare as pessoas, não abandone o grupo e se acontecer alguma cena estranha, não fotografe. “Aqui vocês estão mais seguros que no asfalto”, dizia o guia.

A vida na favela tem seus segredos. Reformar ou construir exige muita estratégia. Transportar areia, tijolos, madeiras e telhas exige muito esforço e mão de obra. Como o motocondutor Lucas, muita gente ganha a vida sem sair de lá, prestando serviços na própria comunidade. De acordo com o Censo de 2022, a Rocinha tem pouco mais de 72 mil moradores. Mas quem vive a realidade do dia a dia estima que tem muito mais. Algo em torno de 100 a 150 mil pessoas, isso porque tem sempre gente nova chegando, ampliação e construção de novas moradias, estas, cada vez em áreas cada vez mais altas. Na verdade, a Rocinha é uma cidade encravada nas encostas do Morro Dois Irmãos na Zona Sul do Rio de Janeiro.

*Alice Thomaz é jornalista






