PORTO VELHO – O ex-deputado federal por 12 anos, do Território, prefeito eleito de Porto Velho em 1985, o goiano Jerônimo Garcia de Santana, assumiu em janeiro de 1986 prometendo acabar com a buraqueira nas ruas da Capital, desafiando a população para fotografar os buracos e guardar como lembrança. Cinco meses após tomar posse renunciou ao mandato para se candidatar ao governo do recém-criado Estado.
Jerônimo parecia predestinado a escrever um novo capítulo nas páginas da história política regional ao sagrar-se o primeiro governador eleito de Rondônia (1987/91), sucedendo ao governador nomeado, o ex-deputado constituinte Ângelo Angelim (PFL).
Egresso da ala histórica do antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e alinhado à frente partidária liderada por Ulisses Guimarães, Tancredo Neves e o deputado federal Dante de Oliveira, na luta das campanhas das Diretas-já e pela nova Constituinte de 1988, (Jerônimo) amealhou vários desafetos na oposição e até dentro do núcleo histórico regional “emedebista” que o ajudara na eleição para governador.

Poucos, no entanto, com a envergadura do empresário mineiro e proprietário do jornal O Estadão do Norte, Mário Calixto Filho que antes de morrer em 2023 notabilizara-se no meio do jornalismo impresso da Região pelo estilo de atingir seus desafetos com intrigas e reportagens de conotação denuncista.
Foi assim, já perto do fim do governo, que o empresário decidiu cobrar uma fatura superfaturada de mídia impressa diretamente ao governador que surgiu o impasse. Pela primeira vez, eu, um simples repórter do então Departamento de Comunicação Social (Decom) que, por uma dessas coincidências da vida, vi-me diante de uma teia de intrigas entre o dono do jornal e o governador.
Foi no fim do expediente vespertino do setor e, involuntariamente, atendi ao telefonema do empresário, que me obrigou a superar todos os limites da introspecção que carrego desde a tenra infância, para transmitir ao governador, sob a pressão do empresário, um recado que afrontava o limite da autoridade constituída de fato e de direito.
A voz do dono do jornal soou em tom de ameaça feita via telefone fixo. Ainda não havia celular: “Preste bem atenção! Cadê o Mário Lúcio ou o Carlos Henrique ?”, diretor e subdiretor do Decom, ambos viajando.
– Então vai ser você mesmo o porta-voz do meu recado a esse governador de m…. Diga a ele que se arrependerá do que fez comigo. Ele rasgou minha fatura, mas hoje eu (empresário) vou encontrá-lo nem que seja debaixo da cama da Palmira (primeira-dama)-.
Ponderei: Mas Mário, como vou transmitir ao governador um recado deste? “não interessa e nem estou de brincadeira! Você vai dar o recado agora e eu tenho como saber se você falou com ele”, disse.

Tive de refazer-me, emocionalmente da inusitada incumbência. Meia hora depois fui ao gabinete, que funcionava num prédio na esquina das avenidas Jorge Teixeira com a Costa e Silva. Pedi para falar reservadamente com ele e fui logo recebido.
Provavelmente desconfiado do assunto, pediu para (eu) sentar próximo à mesa de despacho e, com ar tranquilo, perguntou pela novidade. Eu disse: trago um recado malcriado do Mário Calixto, do que eu não gostaria de ser o portador. ”Fale-me logo, porque hoje pela manhã ele mandou cobrar uma conta superfaturada de serviços de mídia e eu rasguei a fatura, negando-me a pagar”.
Respirei fundo, enchi-me de ânimo e “passei” o recado, concluindo: “Ele disse, em tom ameaçador, que vai lhe encontrar hoje, nem que seja debaixo da cama da dona Palmira”.
Jerônimo riu e respondeu: “Se o Mário ligar novamente, diga a esse desaforado que eu (o governador) mandei dizer que: “o risco que corre o pau corre o machado”.
Bidu concluiu: O Mário não ligou e eu continuei como repórter do Decom, atual Secretaria de Comunicação onde atuo até hoje à espera da aposentadoria.
Lúcio Albuquerque – 69 99910 8325






