
Não vou usar palavras bonitas. Não vou usar meias-verdades com verniz de educação. Este artigo é para quem quer saber como o sistema funciona de verdade – e como tentaram empurrar para o Supremo e para o governo atual a culpa por um ovo que foi chocado dentro do próprio ninho regulador.
O caso Banco Master não é um acidente de percurso. Não é fruto de uma “consulta jurídica” de um ministro ou de um fim de semana em resort. Isso é cortina de fumaça. A verdade – nua e crua – é que o problema foi gestado, alimentado e protegido dentro do Banco Central, sob os olhos (e com a permissão) de quem tinha o dever legal de impedir.
Vamos aos fatos sem floreio.
1. A Autorização que Não Deveria Ter Existido
Antes de ser o “banco gigante” que explodiu no noticiário, o Banco Master era o Banco Máxima. E o Banco Máxima estava proibido de operar pelo próprio Banco Central. Até que, em outubro de 2019, Roberto Campos Neto, então presidente da autarquia, deu a autorização para que Daniel Vorcaro pudesse atuar no mercado .
Pergunto: como um banco que estava na lista negra do sistema financeiro ressuscita e se transforma num conglomerado bilionário em menos de dois anos? Não foi mágica. Foi permissão. Foi leniência. Se hoje estamos falando de um rombo bilionário, a gênese está aí: na caneta que reabilitou quem não deveria ser reabilitado.
2. A Fábula de “Não Sabia”
A defesa de Roberto Campos Neto é uma peça de ficção digna de roteiro de novela das oito: alegar que “não sabia” o que acontecia dentro do Master ou que “não podia ser responsabilizado por falhas de terceiros” . Isso é insultar a inteligência do brasileiro.
Quando o senhor estava na presidência do Banco Central, o Master cresceu de forma exponencial. Saltou de uma instituição de nicho para um colosso com dezenas de bilhões em ativos . As regras que permitiram essa escalada – ou a falta delas – foram editadas sob sua gestão.
Mais do que isso: relatórios de mercado, como o da Warren Investimentos em agosto de 2023, já desaconselhavam a compra dos CDBs do Master, apontando riscos elevados e sustentabilidade duvidosa . O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) também enviaram alertas formais sobre a escalada de risco . O sistema inteiro via o fogo, mas o bombeiro-chefe diz que estava olhando para o outro lado.
E não para por aí. O jornal O Estado de S. Paulo revelou que Campos Neto foi informado com antecedência sobre as fragilidades na estrutura de ativos e liquidez do banco, mas optou por não intervir . Pior: em outubro de 2023, o BC editou uma norma sobre contabilização de precatórios que continha uma “brecha” que beneficiou o Master, permitindo que ele operasse com bilhões em ativos de risco sem necessidade de aporte de capital . Coincidência? Ou engenharia regulatória para salvar um amigo?
3. CDBs a 150% e a Farra do FGC
Enquanto o presidente dizia que “não dormiu no ponto” , o Banco Master usava o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) como avalista de uma pirâmide. Eles ofereciam títulos de CDB a taxas estratosféricas – em alguns casos beirando os 150% do CDI – sabendo que o FGC, alimentado por todos os bancos, estaria ali para segurar a barra quando o rojão estourasse.
Esse é o ponto central: o dinheiro que está sendo usado para tapar o buraco não veio de decisão judicial ou de um “resort”. Veio da autorização do BC para que o Master operasse com alavancagem excessiva, lastro podre e captação agressiva . A fraude já estava sendo praticada debaixo do nariz dos diretores de fiscalização – os mesmos que hoje estão usando tornozeleira eletrônica e sendo investigados por propina .
4. A “Teia” e a Vassalagem
Não adianta tentar desviar o assunto para o governo atual ou para o Supremo Tribunal Federal. O ministro Rui Costa foi cirúrgico: “A raiz do problema é Campos Neto” .
O que temos é uma estrutura que foi montada durante o governo Bolsonaro. Daniel Vorcaro não era apenas um banqueiro; era um operador político. Ele doou R$ 5 milhões para a campanha bolsonarista . Tinha assessores do BC pagos para burlar a fiscalização. Frequentava a cúpula do poder . Em resumo: o Banco Central virou um cabide de empregos para quem não queria fiscalizar.
Campos Neto foi o vassalo que protegeu a barra enquanto o sistema era saqueado. Agora, querem pintar como vítima ou como mero espectador. Não é verdade. Ele não só sabia como ativamente – através de normas, autorizações e silêncio – permitiu que o crime acontecesse.
5. O TCU: Apêndice do Legislativo ou Escudo Protetor?
Agora entramos em um capítulo que poucos estão dispostos a encarar: o papel do Tribunal de Contas da União (TCU) nessa história. Em dezembro de 2025, o ministro Jhonatan de Jesus, do TCU, determinou que o Banco Central “se abstivesse” de alienar ou transferir ativos do Master, exigindo explicações detalhadas sobre a decisão de liquidação . Em janeiro de 2026, o BC foi obrigado a concordar com uma inspeção do TCU .
A pergunta que não quer calar: por quê? Por que o TCU – um órgão auxiliar do Congresso Nacional – decidiu, neste caso específico, agir como uma muralha em volta do banco falido?
A alegação oficial é que o TCU exerce controle externo sobre a administração pública, e que o Banco Central, mesmo autônomo, está sujeito a esse controle . Bonito no papel. Mas na prática, o que se viu foi uma tentativa de engessar a atuação de Gabriel Galípolo, que pegou o bastão em 2025 e finalmente fez o que Campos Neto se recusou a fazer: cortou o mal pela raiz.
Houve quem argumentasse – e o próprio BC se defendeu assim – que o TCU não tem competência para revisar o mérito técnico de uma decisão de liquidação extrajudicial . Inspeção para verificar legalidade e conformidade administrativa é uma coisa. Impedir a alienação de ativos e questionar o timing da intervenção é outra. É interferência. É criar embaraço justamente quando a autoridade monetária finalmente resolveu agir.
Não custa lembrar: o TCU responde politicamente ao Congresso Nacional. E o Congresso, como se viu durante todo o escândalo, teve setores que se movimentaram para proteger Vorcaro. Houve projeto de lei de urgência para permitir a demissão de diretores do BC quando a autarquia barrou a venda do Master para o BRB . A tentativa de usar o TCU para travar a liquidação ou criar constrangimento para a nova gestão do BC é um capítulo que precisa ser investigado.
6. Gabriel Galípolo: A Cirurgia que Cortou o Tumor
Se há um herói nessa história – e olha que herói é palavra forte – esse herói se chama Gabriel Galípolo. Ele assumiu a presidência do Banco Central em 2025 e, diferentemente de seu antecessor, não esperou o castelo desabar. Em novembro de 2025, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master .
Galípolo agiu cirurgicamente. Cortou a festa. Parou o roubo.
Os críticos dizem que ele poderia ter agido antes. Mas a verdade é que ele pegou um banco que já estava podre, inflado artificialmente por quase uma década de leniência, e aplicou a lei. Ele fez o que Campos Neto deveria ter feito em 2022 ou 2023, quando os primeiros alertas vermelhos sobre os CDBs a 150% do CDI e a exposição a precatórios já estavam acesos .
A diferença é brutal: Campos Neto assistiu o banco crescer de R$ 36 bilhões para R$ 63 bilhões em ativos em um único ano . Galípolo liquidou. O primeiro foi o guarda que virou as costas para o assalto. O segundo foi o xerife que chegou atirando.
7. O Roubo no FGC e o Prejuízo Socializado
E não adianta agora o entorno de Campos Neto tentar justificar o crescimento do banco com “decisões judiciais” ou “estratégias de mercado”. O que houve foi um esquema orquestrado para sugar o Fundo Garantidor de Crédito.
O Master captava dinheiro prometendo retornos de 120%, 140% e até 160% do CDI . Isso não é gestão bancária, é pirâmide. Para pagar esses juros, o banco precisava aplicar o dinheiro em ativos podres, como empresas em dificuldades e precatórios, que não geram liquidez . Quando o caixa secou, o FGC teve que socorrer com R$ 4 bilhões ainda em maio de 2025 .
Agora, o prejuízo é de todos. O FGC terá que ser recapitalizado pelos bancos grandes – Itaú, Bradesco, BB, Caixa, Santander – e esse custo será repassado para toda a sociedade . Como disse o economista Roberto Troster: “Todos nós vamos pagar um pouco disso” . Privatizaram os lucros, socializaram os prejuízos.
8. A Questão dos 250 Mil: Quem Perdeu, Perdeu
E tem um ponto que ninguém quer falar: a responsabilidade individual. O FGC garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ . Quem colocou mais que isso no Banco Master sabia – ou deveria saber – do risco.
A regra é clara. Está na lei. Se você aplicou R$ 1 milhão em CDB de um banco médio que pagava 150% do CDI, você não é vítima apenas da fraude; você é também vítima da própria ganância. O sistema estava desenhado para proteger o pequeno poupador, não o especulador institucional ou o fundo de pensão que apostou alto.
O caso do Rioprevidência, que aplicou R$ 960 milhões em letras financeiras do Master – produtos sem cobertura do FGC – é um exemplo de irresponsabilidade institucional . Gestores públicos que arriscam o dinheiro do aposentado em troca de rentabilidade extra precisam ser responsabilizados. Não adianta chorar agora.
Conclusão
A teia está aí. O ovo da serpente foi chocado no ninho do Banco Central, sob a gestão complacente de Roberto Campos Neto. Diretores de fiscalização foram comprados. O TCU serviu de escudo quando tentaram proteger o banqueiro. E Gabriel Galípolo teve que fazer a cirurgia que ninguém queria fazer.
Portanto, não se deixe enganar. Não é o STF. Não é o governo Lula. Não é o “resort” nem a consultoria jurídica da esposa de ministro. Isso é distração. O problema está na diretoria que permitiu o crime, no presidente que virou as costas e no sistema de controle que só acordou quando o caldo entornou.
A verdade é dura. Mas alguém precisa dizer.










