Navegar no Madeira vira armadilha, com bancos de areia, pedrais e ataques de piratas; BR-319 seria a alternativa, mas…

O mais assombroso é que o problema deve se agravar, já que a previsão climática é de mais seca para o ano de 2025 e não se vê as autoridades públicas indo além da ação reativa para o problema já instalado

PORTO VELHO – A navegação entre Porto Velho e Manaus (AM) está praticamente interrompida, com o prolongamento da estiagem e a queda brusca do nível do rio, informam os operadores e diretores de empresas de navegação. O tempo de viagem entre as duas capitais aumentou de 7, 8 dias para 18, 20 dias e a capacidade de carga reduzida pela metade em alguns casos, informam os operadores. 

Na tarde desta segunda-feira, a reportagem deste www.expressaorondonia.com.br manteve contato com a Capitania dos Portos de Porto Velho para saber se quais as condições de navegação entre Porto Velho e Manaus, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

A hidrovia do Madeira é imprescindível para a integração da região Norte e essencial ao escoamento de grãos.

Foto – R. Machado

O mais assombroso é que o problema deve se agravar, já que a previsão climática é de mais seca para o ano de 2025 e não se vê as autoridades públicas indo além da ação reativa para o problema já instalado. A reabertura completa da BR-319 é a alternativa mais racional para evitar o desabastecimento da população do amazonas e Roraima, mas o tema se perde em inacabadas discussões sobre sues impactos.

Vidas humanas nem sempre importam…

O rio Madeira é um importante canal de integração e comércio da região Norte, pois permite a movimentação de pessoas e cargas entre Rondônia, Mato Grosso e Amazonas, e, no interior desses Estados, entre localidades ainda não atendidas por rodovias. Os efeitos da seca deste ano no rio, no entanto, têm afetado o transporte de cargas entre Porto Velho-Manaus-Itacoatiara. Para transpor o percurso, as balsas empurradas por potentes rebocadores aumentaram o tempo de viagem de 7 a 8 dias para 18 a 20 dias.

Com a queda abrupta no volume de água no leito do rio, surgem bancos de areia no leito  antes navegável, mesmo nos períodos mais críticos das estiagens dos anos anteriores. A navegação entre Porto Velho e Humaitá está praticamente interrompida. Há registro de vários casos de balsas encalhadas no trecho entre Porto Velho e o distrito de Calama, próximo a divisa com o Amazonas.

Barcaça com vários caminhões-baú encalhada semana passada, na região do distrito de São Carlos

A crise hídrica tem prejudicado seriamente o tráfego de embarcações, resultando em diversas barcas encalhadas ao longo do rio Madeira devido à formação de bancos de areia surgimento de pedrais – exposição de pedras antes submersas. Diante desse cenário, armadores e operadores portuários interromperam temporariamente as operações, no Porto de Porto Velho.

Essa paralisação afeta, principalmente, a movimentação de granéis sólidos, como milho, soja e fertilizantes, além de granéis líquidos, como massa asfáltica e biocombustíveis, e cargas gerais, incluindo alimentos, bebidas e veículos.

Para se ter uma ideia, 60% do que Manaus consome é levado pelo rio, que movimenta anualmente 12 milhões de toneladas de produtos: seis milhões de toneladas de grãos destinados à exportação; cerca de três milhões de metros cúbicos de combustíveis com destino ao Acre, parte do Mato Grosso e Rondônia; e três milhões de toneladas são de carga geral.

Além dos percalços do rio sem água, a empresas também enfrentam problemas com a segurança das cargas

Gilberto Maciel, diretor comercial da Companhia Norte de Navegação (CNN), relata que, no encontro do Madeira com o rio Jamari, em frente a vila de São Carlos, os piratas do Madeira estão atacando e saqueando cargas. “Só aqui perto, três balsas encalhadas foram saqueadas. Aqui só não foi saqueada porque tá tendo segurança. São 60 a 80 quilômetros de estrada até a boca do Jamari, uma hora de carro ou menos que isso a gente está lá. Já de balsa, são oito horas. Você já pensou o que é isso? 8 horas de balsa descendo o rio, olha que loucura”, pontuou.

Maciel disse ainda que “existem pelo menos 20 balsas no rio Madeira com problemas, além dessa balsa, que é do meu amigo Raimundo Holanda. Ele já mandou uma balsa lá para socorrer, porque ela está adernada na praia, mas é pouca coisa. Dá para aliviar o peso; aí ela sobe e desencalha. Resolve o assunto. Agora tem muita balsa que encalhou e que foi saqueada, carga saqueada, é muita, muita coisa, pelo menos 20″, informa.

A Companhia Norte de Navegação (CNN), segundo ainda o diretor Gilberto Maciel, normalmente opera com balsas semanais partindo de Porto Velho, mas suspendeu as operações há duas semanas.

Para preservar os empregos, a empresa optou por férias coletivas, enquanto teme os impactos financeiros da paralisação. Maciel acrescenta que não tem condições seguras de navegação e que algumas das balsas estão encalhadas. Para evitar a perda de pedidos, alguns clientes estão optando por transportes rodoviários para Santos, o que encarece significativamente a logística.

Apesar do nível do Madeira ter chegado a uma marca crítica em algumas regiões, como em São Carlos e Humaitá, em outros locais ainda há navegabilidade e um número reduzido de portos em operações, segundo Wescley Ferreira, chefe regional da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), em Porto Velho. De acordo com Ferreira, isso acontece porque, no calado do rio o nível da água está em cerca de 1,70 metros e as embarcações conseguem operar com até 1,50 metros. Apenas seis dos quatorze portos da cidade estão em operação, e a previsão é que, sem chuvas, até 15 de outubro todas as atividades hidroviárias possam ser suspensas. Atualmente, as poucas embarcações que ainda conseguem navegar, estão operando com 40% da capacidade.

Ponte sobre o rio Madeira, na BR-319 em direção a Humaitá e Manaus. A estrada poderia ser a alternativa, mas muito se fala e pouco se faz em relação à sua reabertura total

A Antaq está monitorando a situação e busca auxiliar os navegadores para minimizar interrupções. A hidrovia do Rio Madeira é considerada uma das mais importantes da Região Norte e é fundamental para o escoamento de grãos.

A Sociedade dos Portos e Hidrovias do Estado de Rondônia (Soph-RO), responsável pela administração do Porto de Porto Velho, informa que tem atuado para minimizar os impactos da crise, oferecendo suporte técnico às embarcações em dificuldade, com o envio de bombas para remoção de água em casos de encalhe. A redução do nível das águas leva à redução na capacidade das embarcações. Com isso, o custo operacional do transporte pelo rio já aumentou em 30%.

Segundo o presidente da Soph, Fernando Parente, “estamos enfrentando um dos períodos mais críticos para a navegação no Madeira, com um nível de água historicamente baixo. Assim que as condições do rio melhorarem, o Porto retomará suas operações com agilidade. As operações no Porto de Porto Velho só serão retomadas quando o nível do rio subir e as condições de navegação se tornarem seguras”.

Tradicionalmente, a movimentação de cargas no Porto já sofre redução durante o período de estiagem. Em meses normais, o Porto de Porto Velho movimenta cerca de 200 mil toneladas de mercadorias, mas esse volume costuma cair para 40% durante a seca. Em setembro, esperava-se movimentar 100 mil toneladas, mas a crise hídrica inviabiliza essa meta.

Ainda conforme Parente, a Soph tem trabalhado ativamente, em conjunto com autoridades e órgãos reguladores, para monitorar a situação e buscar soluções que minimizem os impactos. O Porto de Porto Velho integra o Comitê de Crise Hídrica e tem buscado constantemente articulação com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Marinha e a Federação Nacional das Empresas de Navegação (Fenavega) para discutir ações de mitigação. Seca no Madeira afeta transporte de cargas no Norte.

Na madrugada do dia 23, o nível do Rio Madeira atingiu 25 cm, menor marca desde o início do monitoramento, em 1967

O rio Madeira enfrenta uma seca atípica que provoca redução histórica do nível das águas. Isso afeta diretamente o transporte de cargas pela região e, se a situação não mudar, há risco de a navegação ser paralisada, o que prejudicará o abastecimento de produtos em cidades do Norte do Brasil. O problema maior é enfrentado em um trecho de 250 quilômetros, entre Porto Velho (RO) e Humaitá (AM), onde o nível está cerca de quatro vezes abaixo do que era observado na mesa época do ano, em 2015.

Conforme o vice-presidente do Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial do Estado do Amazonas (Sindarma), Claudomiro Carvalho Filho, a situação é crítica e houve a redução a capacidade de carga das balsas, o que também aumentou o tempo de viagem. Os custos operacionais elevaram cerca de 30%. Outro problema é a ausência da dragagem no Madeira. Há três anos não acontece dragagem e isso agrava a situação, porque são bancos de areia que se acumulam ao longo do canal. Se tivesse a dragagem, a navegação seria mais segura e eficiente.

Texto final e edição: Carlos Araújo

Fotos: R. Machado e acervo da CNN e Navegação da Amazônia


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