“Eu vi a morte três vezes, hoje quero é viver!”

Hoje Rose sorri de muitas situações vividas. “Meu cabelo está crescendo, minha esperança também e apesar de ter recebido alguns não, pretendo retomar meu trabalho de voluntariado

Alice Thomaz

PORTO VELHO – “Pensa em uma Neguinha que sofreu!”. Assim, Rose iniciou a conversa. Há tempos não nos víamos. Durante um bom tempo atuamos juntas como voluntárias na Associação de Voluntários no Combate ao Câncer (AVCC), éramos da mesma equipe. Acabei deixando o trabalho, mas ela continuou engajada, até que um câncer linfático a deixou fora de combate.

Rose Dias tem 60 anos e é um caso de superação extraordinário. Daqueles que a gente acha que só tem nos filmes e nas novelas.  Seu relato, por vezes emociona e mostra a dimensão do sofrimento e do desejo de superar que a maioria dos pacientes enfrenta.

Por vezes, o diagnóstico de um câncer chega na vida do paciente como o princípio do fim de tudo. Mas todos sabemos que não precisa ser assim. Alguns canceres se escondem tão bem, que médicos levam meses para descobri-lo e confirmar o diagnóstico. Rose conta que passou por um processo parecido. Começou a emagrecer sem motivo aparente. E durante um ano e dois meses tinha uma tosse que não a deixava. Precisou passar por uma infinidade de médicos, ela calcula que tenha sido uns 70.

A jornalista Alice Thomaz com a amiga Rose Dias

Mas enfim saiu o diagnóstico e logo veio o tratamento, que segundo ela, não foi nada fácil. “Eu vi a morte três vezes, hoje quero é viver, respirar, sentir o vento no meu nariz. Por mais que eu tente, não consigo descrever por tudo que passei”.  Segundo Rose é real a força da morte na vida dos pacientes. “Algumas vezes, vi pacientes que estavam ao meu lado partir sem nem um adeus, e nesses momentos eu rezava, rezava muito. Lembrava das coisas boas na minha vida desde a minha infância, dos meus pais e pensava que mesmo passando por uma situação difícil eu precisava resistir e usufruir das coisas boas que vivi em toda a minha vida e de certa forma isso me fortalecia, porque sempre fui grata à vida”.

A mãe, já idosa, veio do Rio de Janeiro para ajudá-la. A família, de certa forma perdeu a esperança e já dava o caso como perdido. “Mas eles tinham razão, porque em certos momentos até eu achava que não tinha mais nenhuma chance. A sensação que eu tinha era que as dores iam destruir o meu corpo por dentro e por fora. Passei por sete pet-scan, depois disso passava o dia todo isolada até passar o efeito da radiação. Vi pessoas soberbas na mesma condição que eu, que ainda assim, com uma sentença de morte tão próxima não abandonavam o ar de superioridade, exigindo tratamento diferenciado em um lugar onde todos éramos iguais e outros doentes, trazidos muitas vezes do interior, e que resignados aguardavam pacientemente pelo seu exame. Mas triste mesmo era saber que um ou outros que estivera comigo ali há poucos dias, não resistira a dureza do tratamento e partira”.

Hoje Rose sorri de muitas situações vividas. “Meu cabelo está crescendo, minha esperança também e apesar de ter recebido alguns não, pretendo retomar meu trabalho de voluntariado, pois isso preenche a minha vida e a minha percepção agora é diferente de antes, pois eu passei pelo vale que muitos dos que eu vou assistir, ajudar e cuidar estão passando agora, no presente.  Se puder, ainda quero mudar daqui. Morar perto do mar, curtir um pouco mais a vida e continuar sendo feliz”.

*É jornalista aposentada, mas em atividade

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