PORTO VELHO – Daqui a três meses volta a acontecer no rio Guaporé, em Costa Marques, na fronteira com a Bolívia, aquele que é considerado por alguns conservacionistas como o maior espetáculo da natureza de eclosão animal na Amazônia: a eclosão de milhares de ovos que estão sendo botados agora, em setembro e outubro, nas extensas praias do rio Guaporé e alguns de seus afluentes. Esse projeto tocado há quase 30 anos pela Associação Comunitária Quilombola e Ecológica do Vale do Guaporé ou simplesmente Ecovale, é considerado um dos maiores e mais importantes do mundo.
Mas enquanto não chega esse espetáculo o que acontece para garantir que, quando dezembro chegar, ele acontece de novo? Quem cuida para que ações predatória silvestre e humana não destrua todos os ninhos que as tartarugas fazem para botar seus ovos nas praias?
Em regiões antropizadas, quase nenhuma espetáculo da natureza acontece sem a colaboração humana.
É aí que entra a ação da Ecovale, arregimentando voluntários e envolvendo a comunidade do entorno deste berçário a contribuir com os cuidados para que todo mês de dezembro volte a acontecer o maior espetáculo da natureza de eclosão animal na Amazônia.
O trabalho começa a partir do início do mês de junho, nas praias. “Depois, fazemos o monitoramento para evitar ações dos caçadores”, Zeca Lula, coordenador das ações da Ecovale.

Este ano, segundo Zeca, a reprodução das tartarugas está comprometida, dada a situação das praias e do Rio Guaporé, que, por algum fenômeno da natureza está com formação totalmente diferente dos anos anteriores.
Mas os problemas advindos das mudanças naturais são menos danosos que as ações predatória dos humanos, com ataques a cada fim de semana. O Ibama, não dispõe de logística para fazer a fiscalização full time do berçário. são as ações lideradas pela Ecovale, contado com muitos voluntários, que garante que os ovos sejam chocados e eclodam no tempo certo.

Durante o período de desova há vários problemas, porém são bem menores, no outro período do ano, pq Durante a desova o PQA/IBAMA-RO, está presente devido a parceria que mantemos, mais a outra parte no ano os ataques são quase todos os fins de semana e o IBAMA-RO não pode se fazer presente por conta da distância é totalmente impossível eles nos apoiarem por conta dessa logística
O coordenador da Ecovale explica que, nos próximos dias, chega a equipe do Ibama para prestar apoio ao trabalho da Associação. “Eles ficam aqui até dias depois da soltura, porém depois disso são obrigados a retornarem para Porto Velho”, afirma Zeca.

Antes do início do trabalho da Ecovale, as ações de proteção às tartarugas nop período de desova era feito diretamente pelas equipes do Ibama, mas a falta de apoio e recursos obrigou as equipes – mesmo contra vontade – a “abandonar” o projeto.
Aí começa as ações da Ecovale, que atua em parceria com o órgão governamental responsável pela proteção ao meio ambiente no Brasil.

Histórico
O Programa Quelônios da Amazônia (PQA) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tem como objetivo principal a conservação das espécies de quelônios de água doce da Amazônia e do rio Araguaia. As principais espécies protegidas são a tartaruga-da-Amazônia (Podocnemis expansa) e o tracajá (Podocnemis unifilis).
Organização dedicada à conservação ambiental, a Ecovale trabalha em parceria com o PQA/Ibama para proteger as tartarugas no Rio Guaporé e seus afluentes. Sob a coordenação de José Soares Neto, o projeto tem alcançado resultados significativos no repovoamento dessas espécies. As iniciativas contam apoio e parceria da iniciativa privada.

Objetivos e atividades incluem ações de proteção das espécies de tartarugas e tracajás da região amazônica. Realização de pesquisas sobre o ciclo de vida dos quelônios e ações de manejo e recuperação de sítios de reprodução.
A preservação dos quelônios, incluindo tartarugas, jabutis e cágados, é fundamental para a saúde dos ecossistemas aquáticos e terrestres. Esses animais desempenham um papel ecológico crucial, contribuindo para o equilíbrio da cadeia alimentar, a dispersão de sementes e a limpeza de rios e lagos. Também faz parte das ações o acompanhamento de todas as etapas reprodutivas, desde a migração até a eclosão dos ovos.
Neto ressalta o envolvimento de comunidades ribeirinhas e estudantes locais em atividades educativas para conscientização da importância da conservação.
Atuação em Rondônia
O PQA atua em Rondônia, assim como em outros estados amazônicos, para preservar os quelônios da região. As equipes do Ibama em Rondônia trabalham no monitoramento e resgate de filhotes de tartarugas em locais específicos, como o ‘Tabuleiro de Desova’ de Quelônios, no rio Guaporé.
Espécies
Tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa): maior espécie do gênero Podocnemis, podendo medir até 90 cm e pesar 65 kg. São onívoras (que se alimenta tanto de matéria vegetal como animal, mas preferem folhas, frutos e caules). Tracajá (Podocnemis unifilis): Espécie comum do gênero, podendo medir até 50 cm e pesar 12 kg. Os filhotes e machos adultos possuem manchas amarelas na cabeça. Iaça (Podocnemis sextuberculata): Menor espécie do gênero Podocnemis, medindo cerca de 34 cm e pesando 3,5 kg. São predominantemente herbívoras, alimentando-se de gramíneas.

Segundo o coordenador da Ecovale, este ano, devido a uma enchente atípica, o manejo das tartarugas foi atrasado, geralmente ocorrendo de junho a janeiro.
A equipe da Ecovale monitora os tabuleiros, realiza trabalhos de pesagem e medição dos animais e mantém vigilância contínua para proteger as tartarugas dos predadores humanos.
Ainda conforme Neto, todas as atividades da Ecovale são financiadas pela iniciativa privada, destacando a importância da parceria com empresas comprometidas com a conservação ambiental.

26 Anos de Atividades
Com 26 anos de dedicação, o projeto da Ecovale tem sido fundamental para a sobrevivência das tartarugas no Rio Guaporé. Graças a este trabalho, as tartarugas não foram extintas na região, e o projeto continua a contribuir para o alívio na sobrevivência desses animais.
Para Neto, a liberação de pequenas tartarugas nos rios de Rondônia é um evento importante para a conservação dessas espécies. “Em dezembro, ocorre a eclosão das tartarugas no rio Guaporé, na fronteira brasileira com a Bolívia. Esse fenômeno é considerado um dos maiores do mundo e envolve a reprodução da maior espécie de quelônio de água doce da América do Sul, a Podocnemis expansão”, explica.

Desova e Eclosão
A desova das tartarugas ocorre de madrugada, entre setembro e outubro, geralmente no mesmo lugar onde as futuras mamães nasceram. As fêmeas colocam aproximadamente 100 ovos, mas apenas 10% deles sobrevivem ao ataque de predadores. A incubação dos ovos dura cerca de 60 dias, e os filhotes que sobrevivem caminham sozinhos até as águas.
Conservação e fiscalização
A secretaria estadual do Desenvolvimento Ambiental (Sedam) e a Associação Comunitária Quilombola e Ecológica do Vale do Guaporé (Ecovale) trabalham juntas para monitorar e proteger as tartarugas. A fiscalização atua para combater ilícitos ambientais, como a captura de tartarugas para comercialização.

Neto defende que a tartaruga é uma espécie importante para o ecossistema, pois ajuda na limpeza dos rios e é fonte de alimento para os ribeirinhos. “A extinção da tartaruga pode causar problemas para o ecossistema e a biodiversidade da região”, afirma o coordenador.
Os profissionais que trabalham na conservação das tartarugas em Rondônia têm um papel fundamental na proteção dessas espécies. Aqui está um vislumbre de como vivem e trabalham:
Dia a Dia
Esses profissionais realizam monitoramento constante das praias e rios onde as tartarugas desovam, coletando dados sobre a biologia reprodutiva e o comportamento das espécies.

Fazem pesquisas científicas para entender melhor as necessidades ecológicas das tartarugas e desenvolver estratégias de conservação eficazes. Além disso, trabalham em programas de educação ambiental para conscientizar as comunidades locais sobre a importância da conservação das tartarugas.
Vestimenta
Devido ao trabalho em campo, utilizam equipamentos de proteção, como botas, chapéus e protetor solar, para se proteger das condições climáticas adversas. A vestimenta é geralmente prática e confortável, adequada para atividades ao ar livre em ambientes naturais.
Alimentação
A alimentação pode variar dependendo do local de trabalho, mas geralmente inclui refeições simples e nutritivas que fornecem energia para o trabalho físico.

Em alguns casos, podem ter que se adaptar às opções de alimentação disponíveis nas comunidades locais ou trazer alimentos de casa.
Desafios
“Trabalhamos em condições climáticas desafiadoras, como chuva, sol forte e variações de temperatura. Além disso, enfrentam desafios adicionais devido às mudanças climáticas, que podem afetar a disponibilidade de habitats para as tartarugas. Outro desafio é a limitação de recursos financeiros e humanos para realizar o trabalho de conservação de forma eficaz”, pontua.

Formação e especialização
Geralmente têm formação acadêmica em áreas como biologia, ciências ambientais ou zoologia, com especialização em conservação de tartarugas. Além disso, recebem treinamento prático em técnicas de campo e manejo de dados para realizar seu trabalho de forma eficiente.
Indicadores ambientais
Os quelônios são bons indicadores de saúde ambiental, pois sua população e bem-estar estão diretamente ligados à qualidade do ecossistema em que vivem. A presença ou ausência desses animais pode indicar a saúde do ambiente.
Valor cultural
Para as populações ribeirinhas da Amazônia, os quelônios possuem um importante valor cultural, simbolizando longevidade e sabedoria. Além disso, são historicamente uma fonte de alimento para essas comunidades.

Os quelônios enfrentam diversas ameaças, incluindo a pesca incidental, a perda de habitat, a poluição e o tráfico ilegal. A conservação envolve ações comunitárias, como a proteção de ninhos e praias de desova, a criação de berçários e a soltura de filhotes na natureza.
Benefícios da conservação
Equilíbrio do Meio Ambiente: Aumentar a quantidade de quelônios contribui para o equilíbrio do meio ambiente. A conservação promove a geração de empregos e o fortalecimento das comunidades locais, que participam ativamente dos projetos de manejo sustentável. A preservação dos quelônios ajuda a manter a biodiversidade e a importância cultural da fauna amazônica.
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