Eleições nos EUA: carne bovina vira símbolo de inflação e guerra cultural na disputa pelo Congresso




Eleições legislativas nos EUA podem redefinir o raio de ação da presidência de Donald Trump
“Escolher outra proteína? Eu prefiro escolher outro senador.”
A frase, dita por um homem enquanto preparava hambúrgueres em uma churrasqueira, faz parte de um vídeo da campanha de Scott Colom, candidato democrata ao Senado dos Estados Unidos pelo Mississippi.
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A declaração responde à republicana Cindy Hyde-Smith, que sugeriu, em entrevista à emissora Wlox, que os consumidores insatisfeitos com o preço da carne bovina buscassem outras fontes de proteína.
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A poucos dias das eleições de meio de mandato dos EUA, marcadas para 3 de novembro, o episódio revela como uma preocupação cotidiana chegou ao centro da disputa pelo controle do Congresso. Com a alta do preço da carne bovina e do diesel e a perda de poder de compra, candidatos dos dois partidos passaram a explorar o custo da alimentação na campanha.
Em diferentes estados, porém, a carne assumiu um papel que vai além da economia: tornou-se, ao mesmo tempo, um símbolo da pressão da inflação e um marcador cultural usado para medir a sintonia dos candidatos com os valores das comunidades rurais e do setor pecuário.
🗳️ Conhecidas como midterms, as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos são realizadas na metade do mandato presidencial e renovam toda a Câmara dos Representantes e cerca de um terço do Senado.
No Texas, por exemplo, o democrata James Talarico tem aparecido em vídeos comendo churrasco depois de ser criticado por uma antiga decisão de sua campanha de comprar apenas alimentos veganos.
Imagem mostra James Talarico visitando uma churrascaria no Texas, em 30 de setembro de 2026.
Reprodução/Instagram
Já no Colorado, republicanos tem explorado o histórico de ativismo do democrata Manny Rutinel pela redução do consumo de carne, enquanto o candidato procura levar o debate para o encarecimento dos alimentos.
Em estados rurais e distritos eleitorais apertados, os democratas tentam transformar a alta dos alimentos em votos contra o governo do presidente Donald Trump. Os republicanos, por sua vez, procuram associar os adversários ao veganismo e a ameaças à indústria pecuária.
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No Texas, churrasco vira demonstração de identidade
O candidato democrata ao Senado James Talarico discursa durante um comício em 13 de julho de 2026, em Eagle Pass, no Texas, Estados Unidos.
(Foto: AP/Brenda Bazán, Arquivo)
No estado do Texas, os republicanos recuperaram uma declaração de 2022 na qual James Talarico, candidato democrata ao Senado, comemorava a decisão de sua campanha de não comprar alimentos com carne e passar a adquirir apenas produtos veganos de comércios locais.
Desde então, Talarico tem aparecido publicamente comendo churrasco. A estratégia busca rebater as acusações de que suas escolhas alimentares o afastariam da identidade cultural do estado.
Já os adversários usam a antiga decisão da campanha para questionar a posição de Talarico sobre a pecuária, setor de grande importância econômica e cultural no Texas. Ao aparecer comendo carne, o democrata tenta rebater as críticas e mostrar proximidade com as tradições locais.
No Colorado, ativismo vira alvo de republicanos
Já no Colorado, o confronto entre economia e identidade aparece de maneira ainda mais clara. O republicano Gabe Evans, que representa o 8º Distrito Congressional do estado, explorou o histórico de Manny Rutinel, seu adversário democrata, em defesa da redução do consumo de carne.
Na época da faculdade, Rutinel foi fotografado sem camisa, usando no peito uma faixa da organização Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais, a Peta. Em 2021, ele fundou a Climate Refarm, entidade favorável à diminuição do consumo de carne.
Manny Rutinel, representante da Câmara do Colorado – 24 de março de 2025.
Looktothewesternsky/Domínio público
O democrata também assinou cartas em defesa do aumento de impostos sobre carne e laticínios e apoiou uma proposta para proibir o funcionamento de um abatedouro de cordeiros em Denver. A medida foi rejeitada em votação realizada em 2024, segundo a agência de notícias Associated Press.
O histórico se tornou um ponto vulnerável em um distrito que abrange uma extensa região de fazendas, propriedades leiteiras e unidades de processamento de carne. A sede da JBS Swift, uma das maiores empresas do setor, também está localizada na região.
Grupos conservadores passaram a explorar intensamente o assunto. O Daily Wire, por exemplo, divulgou um vídeo gravado de forma oculta no qual um integrante da campanha afirma que Rutinel come carne “o mínimo possível”.
Para responder às críticas, o democrata passou a aparecer em público comendo tacos de carne. Ele também recebeu o apoio do sindicato dos trabalhadores da indústria frigorífica.
“Não acho que os moradores do Colorado se importem com o que está no meu prato”, afirmou Rutinel. “Acho que eles se importam mais em conseguir pagar pelo que está no prato deles.”
Evans argumentou que o problema não está nos hábitos pessoais do adversário, mas na possibilidade de que suas posições sejam transformadas em políticas públicas.
“Não me importo com o que ele come pessoalmente”, afirmou o republicano. “Me Importa que ele queira usar o poder do governo para fazer todo mundo comer dessa forma.”
No Mississippi, troca de proteína vira troca de senador
No Mississippi, o episódio ganhou uma configuração diferente da observada em outros estados. Foi um democrata que usou a carne para atacar uma republicana, apresentando a sugestão de Cindy Hyde-Smith como uma demonstração de insensibilidade diante da dificuldade das famílias para comprar alimentos.
A campanha de Scott Colom não questiona a posição da senadora sobre a indústria pecuária. Procura mostrar, em vez disso, que ela transferiu aos consumidores a responsabilidade por se adaptar aos preços elevados.
A imagem do homem preparando hambúrgueres transforma a crítica econômica em uma mensagem eleitoral simples: se a alternativa oferecida é trocar de proteína, o eleitor também pode trocar de senador.
Por que a carne ficou mais cara nos EUA
Por trás da disputa política, existe um problema concreto. O preço médio da carne moída nos EUA atingiu em agosto o maior valor nominal da série histórica, iniciada em 1984. O produto custava US$ 6,92 por libra naquele mês, segundo dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos.
➡️ 1 libra equivale a 454 gramas.
Em setembro, o valor recuou para US$ 6,79, mas ainda estava 7,4% acima do registrado um ano antes.
A alta é impulsionada por uma combinação entre oferta restrita e demanda elevada. Após uma sequência de secas que atingiu as principais regiões produtoras, o rebanho bovino dos Estados Unidos caiu ao menor nível em 75 anos.
A redução limita a quantidade de carne disponível e mantém os preços pressionados nos supermercados. Como a recomposição do rebanho leva anos, esse desequilíbrio não pode ser resolvido rapidamente.
O cenário colocou o governo Trump diante de um impasse: tentar reduzir os preços para os consumidores sem prejudicar os pecuaristas.
Em agosto, o governo do republicano suspendeu temporariamente tarifas sobre a importação de até 300 mil toneladas de carne bovina. A medida foi direcionada para cortes magros usados pela indústria para a produção de carna moída e estabelece que o produto seja vendido por valores 25% inferiores aos praticados no mercado.
O impacto para os consumidores, porém, foi limitado, segundo uma reportagem da rádio americana NPR. Em setembro, o preço da carne moída recuou apenas US$ 0,13 por libra em relação ao mês anterior.
Entre os pecuaristas, a iniciativa provocou reação. Produtores dizem que a entrada de carne mais barata pressiona o preço do gado americano em um momento no qual as margens do setor já estão reduzidas.
A insatisfação alcançou candidatos do próprio Partido Republicano. Ashley Hinson, que disputa uma vaga no Senado por Iowa, criticou publicamente a redução das tarifas para a carne importada. Segundo ela, a solução para conter os preços passa por apoiar os pecuaristas americanos para que possam expandir seus rebanhos.
Donald Trump alivia restrições à importação de carne bovina para baixar preço do hambúrguer para os americanos
Jornal Nacional/ Reprodução



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