PORTO VELHO – O assombroso pragmatismo que desumaniza quem chegou a terceira idade é tão cruel que muitos idosos são reduzidos a extrato de coisa nenhuma, passando a ser tratados por familiares como meros objetos ou seres sem nenhuma importância. E só não são descartados de vez, por serem uma fonte de renda com sua aposentadoria ou pensão e pela existência do mágico cartão magnético.
Deus tenha misericórdia!
Acompanhe este relato.
Minha vizinha me disse hoje, tentando disfarçar o ar de tristeza e decepção:
– Sabe quanto valho para meu filho?
– Um cartão de plástico.
– Como assim, respondi intrigada.
– Hoje ele passou cedo lá por casa. Parecia um pouco acabrunhado. Perguntei o que ele tinha, não disse nada, mas de repente perguntou:
– Cadê o cartão?
– Que cartão, respondi ingênua. E ele logo respondeu em tom de malcriação:
– O do banco, é claro …., seguido de um palavrão.
– Fiquei espantada e perguntei: meu filho, você veio aqui no mês passado. Está há tantos dias sem me ver e parece que veio aqui só por causa do cartão?
– É isso mesmo!
– Imagina que fiquei arrasada. Meu filho parecia ligado a mim apenas por aquele bendito cartão de plástico. Mas ele não tinha terminado ….
– Não sei onde eu estava com a cabeça quando deixei o cartão com você. Ele tem que ficar comigo, afinal, eu que cuido de você.

– Naquela hora eu não sabia o que fazer. Abaixei minha cabeça e me pus a pensar. Olhei ao redor para conferir e reparei com um pouco mais de atenção a pequena casa na qual habito há mais de 40 anos. Aqui não tem quase nada. E o que tem é antigo, velho mesmo, como eu. A alimentação é básica e muitas vezes preciso dosar para não faltar e ainda assim ele diz que cuida de mim.
– Lembrei com saudade da minha juventude, do tempo em que amamentava e cuidava daquele filho com amor.
Lembrei também do meu companheiro, que mesmo não sendo o pai legítimo do nosso filho, nunca deixou faltar nada em casa. Queria chorar ali naquela hora diante dele, mas engoli o choro, abri a gaveta da velha cômoda, peguei o cartão e entreguei-lhe. E ele se foi, sem ao menos um afago, ou quem sabe um obrigado.
Enquanto me contava a triste experiência daquela manhã, uma tímida lágrima escorria do canto do olho da minha vizinha. Tudo que eu podia fazer naquele momento era abraçá-la. E foi isso que eu fiz.
Uma conversa triste. Uma ilustração baseada em situações reais, vividas por muitos idosos, homens e mulheres, viúvas ou aposentadas.
Felizmente, não é a maioria, mas para um bom número, a importância deles para a família está expressa em um cartão de plástico, que dá acesso à aposentadoria ou pensão no final do mês.
Há idosos morrendo à mingua, porque filhos, netos sobrinhos e às vezes, pasmem, até vizinhos, tomaram deles o cartão, fazendo destes seus reféns.
Na verdade, só não os deixa morrer, porque assim cessaria a fonte. Não importa quanto jorre, se um salário, dois ou três. O importante é que é uma fonte que brota água todo mês.
*É jornalista e aposentada – WhatsApp 69 99250 8544









