PORTO VELHO – Uma imagem pode gerar na nossa mente uma quantidade enorme de lembranças guardadas em algum cantinho da nossa memória. Revisitar lugares da infância pode trazer lembranças doces ou amargas.
Com a necessidade de liberar memória no celular acabei vendo fotos de lugares da infância que revisitei em 2024. Infância paupérrima, e aqui não se trata de figura de linguagem, mas da realidade. Antigamente as pessoas diziam um ditado: no cafundó de Judas, pois era lá o lugar. Com o passar dos anos descobri lugares piores e mais distantes, mas enfim, o assunto é Campos Elíseos, um distrito de Duque de Caxias, que tinha tudo para oferecer uma qualidade de vida razoável aos seus habitantes, devido a geração de receitas produzida pelas fábricas ali instaladas.
Era tudo meio abandonado, não se via figuras como prefeito ou vereadores, eleitos ou candidatos fazendo um tour nas imediações. Não tinha nem associação de moradores. O cheiro de gás e vários produtos químicos faziam parte da rotina dos moradores. Acho que nem o IBGE sabia que estávamos lá ou quantos éramos.

A Refinaria de Duque de Caxias e as empresas petroquímicas prestadoras de serviços para a Reduc tomavam conta de tudo. E quanto mais perto da refinaria, mais complicado era, porque tudo girava em torno dela e das prestadoras de serviços. Os funcionários chegavam pela manhã em ônibus confortáveis da Breda. Vinham de bairros com melhor poder aquisitivo. Eles desciam dos ônibus no interior da empresa e partiam ao fim do expediente sem sequer saber quem estava lá fora. Os trabalhadores braçais ou de serviço pesado – a peãozada – moravam no bairro e arredores. Eram trabalhadores temporários que estavam sempre mudando de patrão, devido ao encerramento de contratos de prestação de serviços que as empresas tinham com as companhias maiores. Era grande a rotatividade de mão de obra. Em geral, eles se deslocavam de bicicletas. Alguns empregadores já investiam no transporte, mas nem de longe tinham o conforto dos ônibus da Breda.
Perto de casa, há poucos metros da nossa cabeceira, passava uma tubulação de produtos que iam ou viam para a refinaria, mas nunca soubemos com certeza do que se tratava.
Mais ou menos no meado da década de setenta, a Reduc ou quem quer que a representasse, precisou de um pedaço do terreno onde morávamos para passar a tal tubulação. A nossa casa de alvenaria, ainda inacabada, estava bem no meio do caminho.
A casa foi derrubada e meus irmãos construíram outra alguns metros à frente. A família recebeu um trocado a título de indenização.
Minha mãe comprou um conjunto de móvel de cozinha: um armário e uma mesa de fórmica com quatro ou seis cadeiras. E deu entrada em uma casa com documentação duvidosa em outro bairro, na qual ela mesma nunca morou.
Mas voltando ao assunto, a princípio, o lugar era identificado por montões de barro, que mais parecia uma longa sepultura. Depois algumas placas proibiam a escavação e construção onde os tubos estavam enterrados.
Falando em anos 70, em março de 1972 ocorreu um grave acidente na Reduc. Alguns tanques de combustível foram consumidos pelo fogo. O susto foi grande, com várias explosões. Campos Elíseos saiu por um pouco de tempo da escuridão, mas em poucos dias as trevas voltaram a ocupar o lugar como antes. Nunca ficou muito claro a causa do acidente, nem tão pouco o número de vítimas.
A caixa d’água da Rua Sete
Mas havia um marco ainda mais antigo que tudo isso. Era uma caixa de concreto, que seguia na rua Sete. Esta era uma rua estreita, onde não podiam transitar veículos pesados. Nem tinha placa, mas todo mundo sabia disso. Acho que era por causa da ponte estreita sobre um valão, onde dava para passar no máximo duas pessoas lado a lado, e, escondido debaixo da rua Sete, um tubo de ferro e de grosso calibre percorria um longo trecho. Há uns 100 metros de casa, a caixa de concreto guardava algumas válvulas que para as crianças como eu eram bem complexas e para os adultos não tinham a menor importância. Ninguém sabia de onde vinha. Apenas o destino final que era a Reduc. Supunha-se que fosse uma tubulação para o transporte de água, mas para mim, nunca houve comprovação. O que se sabia era que não se podia mexer naquele equipamento.
A caixa, hoje imagino que medisse uns dois metros ou um pouco mais de casa lado, servia como ponto de referência para uma visita que se aventurasse a ir àquele lugar ou como ponto de encontro para namorados.
Minha irmã, no auge de seus 15 ou 16 anos esperava ali o rapaz com o qual acabou casando. Eu era a companhia dela até o bendito chegar. Depois eles me despachavam com meia dúzia de chicletes de tutti-frutti. Quando acabava o doce da goma de mascar eu voltava e aí o casal já sabia que era a hora de se separar, cada um para o seu canto.
Eles não passavam o tempo todo na caixa. Naquele tempo, o rapaz ia na casa da moça, pedia consentimento dos pais da garota e namorava na sala. Às vezes escapuliam. O chiclete era uma arma para se livrarem da presença das crianças abelhudas. Nessa brincadeira ficaram juntos por mais de 50 anos. Sinal que fiz bem o papel de cupido chicleteiro.
Grupo escolar
O Grupo Escolar era o lugar onde todos se conheciam ou fingiam. Nunca gostei de andar em turma ou bando e de vez em quando levava uns catiripapos de uns valentões.
Pra evitar as agressões, sempre que estava em casa, um dos irmãos mais velhos ia ao meu encontro na volta da escola.

As peias não eram sempre, acho que variavam de acordo com a fase da lua. Morria de medo, às vezes tentava fazer amizade com as meninas do lado mau, mas era sempre cortada. Todavia não lembro de ter faltado aula por medo de peia. Do meu jeito eu enfrentava, porque ir à escola era até então a melhor parte da vida.
Ah! Ia esquecendo de dizer: a turma dos valentões era da vizinhança de casa. Não era ninguém de longe. À noite todos se ajuntavam para brincar na rua de pique-esconde, pique-bandeira, queimada e pera-uva-maça. Mas a amizade valia só para as brincadeiras da hora.
Saudades mesmo eu nem não tenho daquele tempo, mas confesso que rola um pouco de melancolia.
Perdi o contato com todos. Aliás isso aconteceu logo ao término do antigo ensino primário. Fiquei no mesmo lugar, mas fui estudar longe. Gastava tempo para ir e voltar. Depois veio o trabalho. E cada um seguiu seu destino.
Enquanto isso, a “caixa d’água” continuava lá. Por um bom tempo foi ponto de encontro de marginais das redondezas e já então não era mais o ponto pacífico para encontro dos casais enamorados.
Ainda hoje permanece lá. Não tem os encantamentos de outrora. O tempo passou até para ela. Está desgastada pelo tempo. A proibição de construir sobre a tubulação não é mais respeitada e o local serve até como lixeira. Era só uma lembrança.
*Alice Thomaz é jornalista









