40 anos depois, um filho do ‘Novo Eldorado’ pode ser o governador na eleição de 4 de outubro

Quatro décadas após a grande onda migratória que ajudou a transformar Rondônia, as eleições de 2026 colocam no cenário político uma nova geração: filhos de famílias que chegaram ao estado em busca do “novo Eldorado”

Carlos Araújo*

PORTO VELHO – Há cerca de 40 anos, Rondônia era um dos grandes destinos da migração interna brasileira. No final da década de 1970, ao longo dos anos 1980 e ainda no início dos anos 1990, milhares de famílias deixaram diferentes regiões do país e desembarcaram no estado movidas pelo sonho de construir uma nova vida. Eram agricultores, comerciantes, trabalhadores, profissionais liberais e famílias inteiras atraídas pela possibilidade de conquistar terra, trabalho e prosperidade em uma região que parecia oferecer oportunidades para quem estivesse disposto a enfrentar as dificuldades de uma nova fronteira.

A história de Rondônia foi profundamente marcada por essa geração de pioneiros.

Quatro décadas depois, porém, o estado começa a viver um novo capítulo. Nas eleições de 2026, o eleitor rondoniense poderá escolher, entre os nomes colocados no cenário político, candidatos que representam justamente a geração nascida dessas famílias que ajudaram a construir Rondônia.

Entre os nomes citados no atual cenário eleitoral estão Marco Rogério, Expedito Neto, Adailton Fúria e Samuel Costa, todos filhos de Rondônia.

Dois nasceram em Porto Velho – Expedito Netto e Samuel Costa – e dois nasceram no interior do estado, Marcos Rogério, em Ji-Paraná, no ano de 1978, e, Adailton Fúria, em Cacoal, no ano de 1986, o ano da primeira eleição direta para Governador do estado.

Mais do que uma coincidência eleitoral, a presença dessa geração no primeiro plano da política representa uma mudança simbólica importante.

Dos pais pioneiros aos filhos de Rondônia

Os pais chegaram a Rondônia trazendo sonhos, coragem e disposição para começar novamente. Muitos chegaram sem infraestrutura, enfrentando estradas precárias, longas distâncias, dificuldades de acesso à saúde e à educação e uma economia ainda em processo de formação.

Aqueles homens e mulheres ajudaram a abrir lavouras, criar rebanhos, instalar empresas, construir cidades e formar comunidades.

Seus filhos, entretanto, tiveram uma experiência diferente.

Nasceram em Rondônia. Cresceram nas cidades e no interior do estado. Estudaram em escolas rondonienses, acompanharam a transformação dos municípios e passaram a enxergar o estado não mais como uma fronteira de oportunidades, mas como sua própria terra.

Veja abaixo quadro dos candidatos na primeira eleição direta para governador de Rondônia, com os sete candidatos, seus candidatos a vice e o resultado da votação, que consagrou Jerônimo Santana – o ‘Homem da Bengala’ – como o primeiro governador eleito pelo voto de todos os eleitores de Rondônia, logo depois do encerramento do ciclo dos generais na Presidência do Brasil.

 

É justamente essa geração que começa agora a ocupar espaços de maior relevância na política estadual.

A possível eleição de um governador nascido em Rondônia, portanto, teria um significado que ultrapassaria o resultado de uma eleição.

Seria, de certa forma, a passagem de bastão entre duas gerações.

Os pais chegaram a Rondônia trazendo sonhos, coragem e disposição para começar novamente

O “novo Eldorado” amadureceu

Durante décadas, Rondônia foi conhecida como uma terra de oportunidades para quem vinha de fora.

O estado recebeu pessoas de praticamente todas as regiões brasileiras. A diversidade cultural, econômica e social construída por esses migrantes tornou-se uma das principais características da identidade rondoniense.

Mas existe uma consequência natural desse processo.

Os filhos dessas famílias cresceram aqui.

Eles deixaram de ser filhos de migrantes para se tornar rondonienses de nascimento, com uma relação diferente com o território.

Conhecem as potencialidades e também os problemas do estado a partir da experiência cotidiana de quem nasceu aqui.

Essa mudança pode representar uma nova etapa na construção política de Rondônia.

A expectativa de um projeto com identidade local

A discussão não significa que apenas os nascidos em Rondônia tenham capacidade de governar o estado. A história mostra justamente o contrário: grande parte do desenvolvimento rondoniense foi construída por brasileiros que chegaram de outras partes do país e fizeram daqui sua casa.

A questão é outra.

Depois de aproximadamente quatro décadas de ocupação e transformação econômica e social, Rondônia passa a ter uma geração própria, formada dentro do estado, com conhecimento das suas particularidades e com condições de disputar os principais espaços de poder.

É a primeira geração que pode olhar para Rondônia não como destino de migração, mas como ponto de partida.

E isso alimenta uma expectativa: a de que o estado possa experimentar uma nova fase de desenvolvimento a partir das habilidades, da formação e da visão de seus próprios filhos.

Uma nova geração diante dos velhos desafios

A eventual chegada de um rondoniense ao comando do Palácio Rio Madeira não resolveria, por si só, os problemas históricos do estado.

Rondônia ainda precisa enfrentar desafios relacionados à infraestrutura, saúde, educação, segurança, regularização fundiária, produção rural, industrialização, meio ambiente, geração de empregos e melhoria da qualidade de vida.

Mas a origem de uma liderança pode carregar um significado político.

Para uma geração que nasceu e cresceu aqui, Rondônia não é apenas o lugar onde se construiu uma oportunidade. É a terra onde nasceram seus filhos, onde estão suas famílias e onde pretendem construir o futuro.

A eleição de 2026 como marco histórico

Independentemente do resultado das urnas, a eleição de 2026 já apresenta uma característica que merece ser observada.

A política rondoniense começa a ser disputada por uma geração que nasceu depois da grande onda migratória responsável pela transformação do estado.

É como se Rondônia estivesse completando um ciclo.

Primeiro vieram os pais, em busca do novo Eldorado.

Depois vieram os filhos, nascidos em uma terra que já começava a se transformar.

Agora, esses filhos podem chegar ao mais alto posto político do estado.

Se isso acontecer, poderá ser registrado pela história como um momento simbólico: Rondônia, quatro décadas depois da grande migração, escolhendo para governá-la um de seus próprios filhos.

Mais do que uma questão de naturalidade, trata-se da maturidade de uma sociedade.

Uma sociedade que recebeu brasileiros de todos os cantos do país, cresceu com eles, formou uma nova geração e agora vê seus descendentes disputando o direito de conduzir o destino do estado.

O desafio dessa nova geração será provar que o filho de Rondônia não precisa mais sair daqui para buscar oportunidades.

Pelo contrário: pode ser justamente ele quem ajude a criar as condições para que outros jovens possam permanecer, trabalhar, empreender e construir seu futuro em sua própria terra.

Quarenta anos depois, o antigo Eldorado pode estar diante de uma nova descoberta: a força dos seus próprios filhos.

*É jornalista em Rondônia desde 1983, editor, assessor de imprensa de várias instituições e foi secretário de comunicação; é editor deste www.expressaorondonia.com.br


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