Jornada de 40 Horas no comércio de Manaus: custo real ou exposição da ineficiência? – Plínio Cesar Coêlho*

Com alta informalidade e baixa produtividade, o comércio manauara enfrenta na redução da jornada não apenas um desafio trabalhista, mas um teste de modernização econômica

Plínio Cesar Coêlho*

MANAUS – A proposta de redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas no Brasil reacendeu um debate sensível no setor de comércio. Em Manaus, onde predominam micro e pequenas empresas e a informalidade permanece elevada, o argumento mais recorrente é direto: menos horas significam mais custos.

A lógica parece evidente — mas não é suficiente.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que a informalidade no Brasil oscila entre 35% e 40% da força de trabalho, com índices ainda mais elevados na Região Norte. No Amazonas, esse cenário reflete um mercado de trabalho marcado por baixa formalização, produtividade limitada e forte presença de pequenos negócios.

No comércio, esse quadro se intensifica. Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, mais de 90% dos estabelecimentos comerciais no país são micro e pequenas empresas — estrutura que também caracteriza o varejo manauara, com margens estreitas, baixa escala e limitada capacidade de investimento em tecnologia.

É nesse contexto que surge o temor: reduzir a jornada significaria elevar custos e pressionar ainda mais um setor já fragilizado.

Contudo, a evidência internacional sugere outra leitura.

Países como a França, a Alemanha e os Países Baixos operam há décadas com jornadas inferiores a 40 horas, inclusive no comércio. Ainda assim, mantêm níveis de produtividade por hora significativamente superiores aos brasileiros, conforme dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

A França, por exemplo, adotou a jornada de 35 horas sem inviabilizar seu setor varejista. A Alemanha e os Países Baixos ampliaram o uso de contratos de tempo parcial, ajustando a força de trabalho à demanda real. O resultado não foi colapso de custos, mas reorganização produtiva.

O ponto central é frequentemente ignorado no debate brasileiro: empresas não competem apenas pelo custo total da folha salarial, mas pelo custo por unidade produzida ou vendida.

Como destaca Gregory Mankiw, a produtividade do trabalho é o principal determinante do desempenho econômico no longo prazo. Em linha semelhante, Paul Krugman sintetiza: “produtividade não é tudo, mas, no longo prazo, é quase tudo”.

No comércio de Manaus, jornadas extensas frequentemente ocultam ineficiências estruturais:

períodos de baixa demanda com trabalhadores ociosos;

ausência de gestão refinada de turnos;

baixa incorporação tecnológica;

elevada rotatividade de mão de obra.

Nesse cenário, reduzir a jornada não cria o problema — apenas o torna visível.

A informalidade, frequentemente apontada como risco, tampouco decorre da duração da jornada. Trata-se de um fenômeno estrutural, associado a custos de formalização, ambiente regulatório complexo e baixa produtividade. Estudos da Organização Internacional do Trabalho indicam que esses fatores são mais determinantes do que mudanças pontuais na legislação trabalhista.

Isso não significa ausência de desafios. Pequenos comerciantes podem enfrentar dificuldades reais na adaptação, especialmente em um ambiente de restrições financeiras e tecnológicas. No entanto, a resposta a esse desafio não está na manutenção de jornadas longas como mecanismo de compensação da ineficiência.

            O caminho passa por três eixos fundamentais

  1. Reorganização do trabalho

Adoção de turnos flexíveis e alocação de equipes conforme o fluxo de clientes.

  1. Ganhos de produtividade

Redução de ociosidade e melhoria na gestão operacional.

  1. Modernização tecnológica

Digitalização de processos, automação e integração entre canais de venda.

A experiência internacional demonstra que economias mais produtivas trabalham menos horas — e produzem mais por hora. O Brasil, e em particular Manaus, ainda opera na lógica inversa: jornadas longas com baixa eficiência.

No fim, a discussão sobre a jornada de 40 horas no comércio manauara não é apenas trabalhista. É estrutural.

A pergunta relevante não é se reduzir a jornada aumenta custos, mas se o setor está disposto a enfrentar suas próprias limitações organizacionais. Em economias modernas, competitividade não se sustenta pela extensão do tempo de trabalho, mas pela inteligência na sua utilização.

A redução da jornada, portanto, não impõe um problema novo. Ela expõe um antigo — e exige solução.

 economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.


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