O “rombo” das contas públicas não está onde dizem estar – Plínio César Coelho*

E é aí que está o ponto central: mesmo quando o governo fez superávit — como em 2021 e 2022 — o país continuou no vermelho

Plínio César Coelho*

PORTO VELHO – Por anos, o debate econômico no Brasil tem repetido a mesma ideia: o problema das contas públicas é o excesso de gastos. A solução, portanto, seria cortar despesas. Mas os dados recentes contam uma história bem diferente — e bem mais incômoda. Entre 2019 e 2025, o Brasil apresentou déficits frequentes. No entanto, ao separar as contas públicas, surge um ponto crucial que raramente ganha destaque: o principal peso do déficit não está nos gastos do governo, mas nos juros da dívida.

Para entender isso, basta olhar dois números. O resultado chamado “primário” mostra se o governo arrecada mais do que gasta, sem contar juros. Já o resultado total inclui o custo da dívida.

E é aí que está o ponto central: mesmo quando o governo fez superávit — como em 2021 e 2022 — o país continuou no vermelho. Por quê? Porque os juros consumiram uma fatia enorme da economia.

Os números não deixam dúvida (valores em % do PIB)

Ano     Primário  Juros  Déficit Total

2019   -0,8%  -5,0%  -5,8%

2020   -9,3%  -4,2%  -13,5%

2021   +0,7% -5,0%  -4,3%

2022   +1,2% -5,5%  -4,3%

2023   -2,3%  -6,6%  -8,9%

2024   -0,5%  -7,8%  -8,3%

2025   ~0%    ~-7,5%           ~-7,5%

O padrão é claro: os juros ficam quase sempre entre 5% e 8% do PIB, enquanto o resultado primário oscila e, em vários momentos, se aproxima do equilíbrio.

O “superávit” de 2022: um alívio que não se sustentou

O resultado positivo de 2022 foi amplamente celebrado. Mas ele teve forte componente conjuntural.

Naquele ano, o governo: adiou o pagamento de precatórios (empurrando despesas para frente), contou com arrecadação elevada por inflação e commodities, e promoveu desoneração de combustíveis, reduzindo tributos para conter preços no curto prazo.

Essas medidas tiveram efeitos importantes. De um lado, ajudaram a melhorar o resultado naquele momento. De outro, deixaram uma conta para depois.

Parte das despesas foi represada e precisou ser paga em 2023 e 2024. Ao mesmo tempo, a redução de tributos sobre combustíveis afetou a arrecadação futura.

O resultado foi previsível: o superávit não se sustentou e o déficit voltou a crescer nos anos seguintes.

O verdadeiro motor do déficit

O fator decisivo continua sendo a Taxa Selic.

Quando ela sobe, o custo da dívida aumenta rapidamente — e o déficit acompanha.

Há ainda um ponto pouco discutido no debate público: o impacto direto da taxa de juros sobre o déficit. De forma simplificada, cada aumento de 1 ponto percentual na Selic tende a elevar a despesa com juros do governo em dezenas de bilhões de reais ao longo de um ano — estimativas correntes apontam algo entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões, dependendo da composição e do prazo da dívida pública. Isso ocorre porque uma parcela relevante dos títulos da dívida está indexada à própria Selic ou precisa ser constantemente refinanciada a taxas mais altas. Na prática, isso significa que decisões de política monetária têm impacto fiscal direto: juros mais altos ampliam o déficit nominal, independentemente de qualquer mudança nos gastos primários do governo.

O debate que precisa ser feito

Isso não significa que o gasto público não importa. Importa — e deve ser discutido com seriedade.

Mas reduzir o problema fiscal a uma simples narrativa de “gasto excessivo” ignora o principal componente do déficit brasileiro.

O país enfrenta um problema mais complexo, no qual o custo da dívida desempenha papel central.

Conclusão

O Brasil precisa qualificar o debate sobre suas contas públicas.

Insistir que o déficit decorre apenas de má gestão ou excesso de gastos, ignorando o peso dos juros, não é apenas simplificação — é uma forma de desonestidade intelectual, especialmente quando reproduzida de maneira recorrente em parte da grande mídia e de análises superficiais.

Sem enfrentar o custo estrutural da dívida, o país continuará preso a um ciclo em que o ajuste fiscal parece sempre insuficiente — independentemente do esforço feito sobre os gastos.

*O autor é é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam); mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina


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