Ciro Nogueira, o Banco Master e o “mito”: a teia de poder que expõe o bolsonarismo – Por Plinio Cesar A. Coêlho

Por Plínio César Coelho

Enquanto a narrativa oficial da extrema-direita tenta vender a imagem de um bolsonarismo imaculado, onde todos são “honestos” e “perseguidos”, a realidade nos bastidores do poder revela conexões incômodas. A trajetória de Ciro Nogueira — senador, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e presidente nacional do Progressistas — é um estudo de caso sobre como o sistema funciona de verdade. E no centro dessa teia, surge o Banco Master, instituição financeira que viu suas portas se abrirem graças a essa relação privilegiada.

O herdeiro de um império político

Ciro Nogueira Lima Filho não chegou ao poder por acaso. Nascido em Teresina em 1968, é herdeiro de uma das mais tradicionais famílias políticas do Piauí . Formado em direito pela PUC-Rio, foi eleito deputado federal aos 26 anos, em 1994, sucedendo ao pai. De lá para cá, construiu uma trajetória marcada por permanência no poder e habilidade nos bastidores .

Em 2010, elegeu-se senador. Em 2013, assumiu a presidência nacional do PP (atual Progressistas), cargo que ocupa até hoje . Mas é nos últimos anos que sua influência ultrapassou as fronteiras do Congresso e chegou ao coração do Palácio do Planalto.

A “alma do governo” nas mãos do Centrão

Em agosto de 2021, Jair Bolsonaro realizou uma reforma ministerial que escancarou a falência do discurso antipolítica que o elegeu. Pressionado pela CPI da Covid e com a popularidade em queda livre, o presidente entregou a chefia da Casa Civil a Ciro Nogueira .

À época, Bolsonaro foi explícito sobre o significado da escolha: “O Ciro está feliz. Ele falou para mim que o sonho da vida dele era ocupar um ministério como esse. (…) É a chefia da Casa Civil, é a alma de um governo” . O presidente entregava a “alma” de seu governo a um político do Centrão com histórico de investigações na Lava Jato .

Na cerimônia de posse, Bolsonaro tentou disfarçar o caráter fisiológico da aliança: “A chegada do Ciro Nogueira é uma demonstração de que queremos cada vez mais aprofundar o relacionamento com o Parlamento” . A proximidade virou até motivo de gafe: em junho de 2022, durante evento em Alagoas, Bolsonaro chamou Ciro de “meu presidente” .

Os “segredos” da Casa Civil e o caso Master

É neste ponto que a história ganha contornos que a narrativa bolsonarista prefere ignorar. Enquanto Ciro Nogueira comandava a Casa Civil, um nome circulava nos bastidores como peça-chave da engrenagem: Jônathas Assunção Salvador Nery de Castro, então secretário-executivo da pasta .

De acordo com informações divulgadas pelo Jornal do Brasil em dezembro de 2025, Jônathas Assunção está “arrolado e enrolado no caso Master” . Trata-se de uma referência direta a investigações envolvendo o Banco Master, instituição que teria se beneficiado da influência política do grupo que orbitava o governo Bolsonaro.

A relação entre Ciro Nogueira e o Banco Master é descrita por fontes políticas como uma verdadeira irmandade. Não se trata apenas de uma relação institucional ou de lobby tradicional. Nos corredores de Brasília, comenta-se que as portas do poder foram escancaradas para a instituição financeira graças à devoção mútua entre seus representantes e o círculo íntimo do ex-ministro.

Jônathas Assunção não é um personagem qualquer. Com passagens por governos Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro, acumulou poder e informação privilegiada sobre os bastidores do poder . Foi secretário do Programa de Parcerias em Investimentos (PPI) no governo Temer e Secretário Nacional de Saneamento no governo Bolsonaro . Ou seja: trata-se de um profundo conhecedor das engrenagens estatais, alguém que sabe exatamente como abrir portas para interesses privados.

O histórico que a direita prefere esquecer

Para sustentar a fábula de que “quem está do lado da direita é tudo honesto”, seria necessário ignorar o extenso currículo de Ciro Nogueira com a Justiça. O senador é investigado na Operação Lava Jato por suspeita de integrar organização criminosa e participar de esquema de desvios na Petrobras .

Em 2022, a Polícia Federal concluiu investigação apontando que Ciro teria recebido propina do empresário Joesley Batista para garantir o apoio do PP à reeleição de Dilma Rousseff em 2014. Segundo o relatório do delegado Rodrigo Borges Correia, parte da propina foi oficializada como doação, mas cerca de R$ 5 milhões teriam sido repassados em espécie, por intermédio de um supermercado, ao irmão de Ciro, Gustavo Lima .

Há ainda acusações de recebimento de propina da Odebrecht e da UTC, esta no valor de R$ 2 milhões em 2014, em troca de favorecimento em obras públicas . Ou seja: muito antes de vestir a camisa da “nova política”, Ciro Nogueira já era figura conhecida nos porões do velho sistema.

A blindagem bolsonarista

Se Ciro Nogueira tem esse histórico, por que foi escolhido justamente para comandar a Casa Civil? A resposta é simples: porque Bolsonaro nunca esteve interessado em fazer uma “faxina” ética. Seu governo sempre funcionou com base em alianças pragmáticas, onde o discurso moralista servia apenas como cortina de fumaça.

Ao nomear Ciro, Bolsonaro não apenas acolheu um político com múltiplas investigações, como lhe deu controle sobre o Orçamento. Um decreto de janeiro de 2022 transferiu poder da Economia para a Casa Civil, dando a Ciro Nogueira aval sobre remanejamentos e cortes de despesas dos ministérios . Era o controle do dinheiro público nas mãos de um investigado.

Hoje, com as investigações sobre emendas parlamentares em curso no Supremo Tribunal Federal, o fantasma do “caso Master” volta a assombrar . A bancada do PL, partido de Bolsonaro, já enfrenta desgaste com processos contra Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro e Alexandre Ramagem .

O irmão que abriu as portas

A relação entre Ciro Nogueira e o Banco Master é descrita nos meios políticos como uma verdadeira sociedade de interesses. Fontes próximas às investigações sugerem que a influência do senador foi determinante para que a instituição financeira ganhasse espaço e capilaridade em negócios com o setor público e com agentes econômicos que dependem de benesses estatais.

Não se trata de acusação formal — ainda. Mas o fato de um ex-secretário-executivo da Casa Civil estar “enrolado no caso Master” indica que as conexões entre o núcleo duro do governo Bolsonaro e o setor financeiro merecem investigação aprofundada .

Conclusão: a máscara caiu

A tentativa de Bolsonaro e seus seguidores de se apresentarem como paladinos da honestidade naufraga diante dos fatos. Ciro Nogueira não é uma exceção no governo — ele é a regra. Representa a aliança que sempre sustentou o bolsonarismo no poder: a união do discurso radical com a prática mais tradicional da política brasileira.

O “caso Master” pode ser apenas a ponta de um iceberg muito maior. Se as investigações avançarem, descobriremos que as portas abertas para o banco não foram fruto do acaso, mas de um projeto deliberado de utilização da máquina pública em benefício de aliados.

Enquanto isso, a extrema-direita continuará repetindo que é vítima de perseguição. Mas a cada novo capítulo, fica mais claro: a máscara da honestidade caiu, e por trás dela está o rosto familiar do velho sistema que eles prometeram combater.



+ DESTAQUES




+ Notícias




+ NOTÍCIAS

+ NOTÍCIAS

Fale conosco pelo WhatsApp!
Pular para a barra de ferramentas