“Depressão não escolhe ninguém”- Procurador transforma dor pessoal em movimento de acolhimento

Além das reuniões regulares, o MDC realiza palestras em escolas, igrejas, empresas e órgãos públicos, levando a discussão sobre saúde mental para diferentes públicos

PORTO VELHO – “Depressão não nasce do dia para a noite. A doença costuma ser resultado de um acúmulo de perdas, frustrações e dores emocionais não elaboradas, que permanecem silenciosas até que algum evento desencadeador leve ao agravamento do quadro”, quem afirma, com base na própria experiência, é o procurador da República Reginaldo Trindade,  durante entrevista concedida ao jornalista Carlos Araújo, nesta quarta-feira, 4, e revelou que, quando decidiu falar publicamente sobre sua depressão, não imaginava a avalanche de pedidos de ajuda que receberia. Em poucos dias, centenas de mensagens chegaram ao seu celular. Gente de todos os cantos de Rondônia, de diferentes idades e classes sociais, querendo contar suas histórias — ou apenas dizendo que não aguentava mais carregar o peso sozinha.

Era início de 2023. Trindade atravessava um dos períodos mais difíceis da vida: término de relacionamento, lutos seguidos e problemas cardíacos associados ao estresse. A depressão, que vinha se formando silenciosamente ao longo de anos, acabou se instalando de vez. Em vez de se fechar, ele escolheu o caminho oposto: expor a ferida, nomear a dor e chamar outras pessoas para fazer o mesmo.

Assim nasceu o MDC — Movimento dos Depressivos Conhecidos, que retoma seus encontros presenciais em Porto Velho no período pós-Carnaval.

A doença que ninguém vê

“Depressão não nasce do dia para a noite”, explicou Trindade durante a entrevista. Segundo ele, a doença costuma ser resultado de um acúmulo de perdas, frustrações e dores emocionais não elaboradas, que permanecem silenciosas até que algum evento desencadeador leve ao agravamento do quadro.

O procurador afirma que a depressão se esconde muitas vezes atrás de uma aparência de normalidade. Ele próprio continuava trabalhando e mantendo suas obrigações enquanto, internamente, enfrentava um processo de desgaste emocional intenso. “As pessoas olham e acham que está tudo bem. Mas não está.”

Os sinais, explica, vão muito além da tristeza: sono desregulado, alterações no apetite, perda de prazer pela vida, dificuldade de concentração e a sensação de que o futuro deixou de fazer sentido. “Você para de sonhar, de planejar. É como se o futuro deixasse de existir.”

O julgamento social agrava o sofrimento. Comentários como “você precisa se esforçar mais” ou “isso é falta de fé”, muitas vezes vindos de pessoas próximas, empurram quem sofre para um isolamento ainda maior. “Ninguém escolhe estar deprimido. Reduzir isso a frescura é cruel.”

Do silêncio à mobilização

O MDC começou de forma simples: textos nas redes sociais, conversas informais e a tentativa de criar um espaço de escuta. A procura foi imediata. Em poucos dias, o grupo já reunia cerca de 200 pessoas, e rapidamente passou a crescer.

Hoje, o movimento atua em três frentes principais: esclarecer a sociedade sobre saúde mental, combater o preconceito e oferecer acolhimento direto a quem precisa.

Acompanhe a entrevista no link abaixo:

Trindade ressalta que não existe fórmula mágica para sair da depressão. “É um processo que exige estratégia, disciplina e, muitas vezes, acompanhamento profissional.” Segundo ele, hábitos como atividade física, regulação do sono, alimentação equilibrada e relações de apoio fazem parte do caminho de recuperação.

O MDC não possui sede fixa nem orçamento público. O trabalho ocorre por meio de parcerias com instituições e voluntários — psicólogos, psiquiatras e colaboradores de diversas áreas. O Corpo de Bombeiros, por exemplo, disponibiliza espaço para acolhimentos individuais, enquanto rodas de conversa e encontros terapêuticos acontecem periodicamente em diferentes locais.

Agenda e planos de expansão

Os encontros presenciais do movimento serão retomados a partir de 23 de fevereiro, às 19h, no Teatro Banzeiros, em Porto Velho. “É um espaço seguro. Ninguém precisa ter vergonha de estar ali”, afirma.

Além das reuniões regulares, o MDC realiza palestras em escolas, igrejas, empresas e órgãos públicos, levando a discussão sobre saúde mental para diferentes públicos. O movimento também começa a articular eventos em outros estados, especialmente na região de Campinas (SP), e mantém contatos com interessados em replicar a iniciativa em diversas cidades.

Para abril, está previsto o lançamento de um livro em que Trindade reúne a própria trajetória, relatos ligados ao movimento e orientações práticas sobre saúde emocional. “Quero que esse livro chegue onde eu não consigo chegar pessoalmente.”

Quando pedir ajuda deixa de ser fraqueza

Ao longo da entrevista, o procurador repetiu uma convicção: ninguém está imune à depressão — nem quem tem carreira consolidada, nem quem aparenta força, nem quem sempre foi visto como o “forte” da família.

“Se você reconhece os sinais em você ou em alguém próximo, não espere. Procure ajuda. Fale com alguém. Depressão não é destino — é doença, e doença tem tratamento.”



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