
EUA — A Uber está lançando um novo recurso nos Estados Unidos que permite que motoristas e passageiras mulheres façam corridas apenas com outras mulheres. A expectativa é de que, com isso, elas se sintam mais seguras — tanto no banco do passageiro quanto ao volante.
O programa-piloto será iniciado nas próximas semanas em três cidades americanas: Los Angeles, São Francisco e Detroit. A funcionalidade permite que motoristas mulheres limitem suas corridas apenas a passageiras. Do outro lado, usuárias do aplicativo também poderão escolher ser atendidas por motoristas mulheres ao solicitar uma viagem, ou ajustar essa preferência nas configurações do app.
Atualmente, cerca de 20% dos motoristas da Uber nos EUA são mulheres. “Em todo o país, passageiras e motoristas nos disseram que gostariam de ter a opção de serem pareadas com outras mulheres durante as viagens. Nós ouvimos — e agora estamos oferecendo novas maneiras de dar a elas mais controle”, afirmou Camiel Irving, vice-presidente de operações da Uber, em comunicado à imprensa. Segundo pesquisas internas da empresa, cerca de 75% das passageiras apoiam a iniciativa.
A Uber já havia implementado outras ferramentas voltadas à segurança, como a possibilidade de gravação das viagens: passageiros podem fazer registros de áudio e motoristas, de vídeo. As gravações são criptografadas e só podem ser acessadas pela empresa em caso de relato de incidente.
O recurso que permite que mulheres optem por corridas apenas com outras mulheres foi introduzido pela primeira vez em 2019 na Arábia Saudita — após o país autorizar mulheres a dirigir. Desde então, a funcionalidade foi expandida para mais de 40 países, incluindo Austrália, México e Canadá, e já foi usada em mais de 100 milhões de corridas.
Medo e segurança
Em seu relatório de segurança mais recente, a Uber informou ter recebido 2.717 denúncias nos EUA envolvendo as categorias mais graves de agressão sexual e má conduta, entre 2020 e 2022. Hoje, a empresa responde a mais de 2.300 processos relacionados a assédio e violência sexual. Embora a maioria das queixas parta de passageiras, algumas motoristas também relataram casos de agressão.
Um dos argumentos presentes nas ações judiciais é que um recurso de pareamento por gênero poderia ter evitado os abusos. Recentemente, o juiz responsável autorizou que as vítimas prossigam com a alegação de que a ausência dessa funcionalidade contribuiu para as agressões.
Situações como essas ajudam a explicar o receio de motoristas mulheres em aceitar passageiros desconhecidos, especialmente durante a noite. Esse medo também pode impactar diretamente seus ganhos. Um estudo da Universidade de Stanford mostrou que motoristas mulheres da Uber ganham, em média, 7% a menos que os homens. Entre os motivos apontados estão a escolha de horários e regiões de atuação. A mesma pesquisa também revelou que elas têm maior probabilidade de abandonar a plataforma nos primeiros seis meses de trabalho.
Adoção global e concorrência
Ainda não há previsão para a chegada do recurso ao Brasil, mas empresas locais já adotam iniciativas semelhantes. A 99, por exemplo, oferece a funcionalidade 99Mulher, que permite às motoristas receberem apenas chamadas de passageiras mulheres quando ativada.
O aplicativo também utiliza inteligências artificiais para identificar situações de risco envolvendo passageiras. Nesses casos, as corridas são direcionadas a motoristas com as melhores avaliações ou a outras mulheres. De acordo com a empresa, em 2021, as ocorrências de assédio caíram 45% após a implementação.
Em 2017, a empresária Gabryella Corrêa lançou o Lady Driver, aplicativo de transporte exclusivo para motoristas e passageiras mulheres. A ideia surgiu após ter sido vítima de assédio ao usar outro aplicativo. Hoje, o app também realiza corridas com crianças e idosos. Segundo a empresa, já teve 1,5 milhão de downloads e recebeu 8 milhões de chamados de passageiras.
Fora do Brasil, a Lyft, concorrente da Uber nos EUA e Canadá, lançou um recurso semelhante em 2023, permitindo que motoristas e passageiras mulheres, além de pessoas não binárias, priorizem o pareamento com outras mulheres. Diferentemente da Uber, a ferramenta da Lyft não garante esse pareamento, apenas prioriza. Ainda assim, a empresa afirma que 67% dos motoristas elegíveis optaram por ativar o recurso.
Ao redor do mundo, empresas têm usado tecnologia para criar ferramentas que deem mais segurança tanto a motoristas quanto a usuárias de aplicativos.









