PORTO VELHO – A deterioração das condições de vida da classe trabalhadora avança na medida em que o Governo Lula não oferece respostas à altura de sua reprodução. Segundo os dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) para o mês de março de 2025, o salário mínimo nominal correspondia a 20,51% do Salário Mínimo Necessário (isto é, o gasto mensal que um trabalhador teria para comprar os produtos da Cesta Básica de Alimentação).
Em outros termos, 60% da população brasileira, que ganha até 1 salário mínimo (IBGE, 2022), recebe quase 5 vezes menos do que o custo da Cesta Básica para sua reprodução. Em estados como Amazonas, Paraíba, Maranhão e Alagoas, a proporção passa de 80%. Os dados tornam-se ainda mais alarmantes se analisarmos os dados da Síntese de indicadores sociais do IBGE (2024), segundo a qual 27,1%, aproximadamente 58,5 milhões de pessoas, vivem com até ½ salário mínimo per capita ao mês.
A prova mais cabal de impotência política ou do pacto com a classe dominante que cada vez mais se afirma no Governo Lula não encontra seu completo sentido, no entanto, somente no agravamento dessas condições. Questionado sobre o aumento do preço dos alimentos (UOL, 07/02/2025), o governo petucano, encabeçado por Lula, recai em soluções tão morais quanto trágicas ao propor medidas como as “pechinchas” e a suposta “consciência” de que não devamos comprar produtos “caros”.
Seria uma perda de tempo nossa debater o caráter da fala. Afinal, que liderança de Estado proporia algo tão cínico que traduziria, com tamanha clareza, a sua própria impotência? Seria essa uma fala esdrúxula se não dissimulasse um caráter ideológico e uma continuidade tão evidentes. Por parte da esquerda liberal, o conteúdo da fala não lhe relembrou os piores dias do governo Bolsonaro e sua comparação com o slogan “O custo de vida é culpa de quem compra, culpa de quem vende” da Ditadura, quando Paulo Guedes “pedia” aos empresários para que não aumentassem o preço dos alimentos.
Esse esquecimento também obedece a um caráter ideológico, só que de defesa incontestável a um governo que, como os anteriores, se apresenta como porta-voz do latifúndio do agronegócio e como patrocinador do aprofundamento da superexploração do trabalho, baseado no aprofundamento da dependência cia e de seu caráter rentístico.
O que Lula oferece aos trabalhadores, afinal, não é sua suposta “ascensão social”, mas a elevação de uns, que se tornam dóceis agitadores de seus programas sociais, caracterizados pela digestão moral da pobreza, em detrimento de uma maioria absoluta que continua em patamares de reprodução de vida incompatíveis com uma prateleira diversificada de alimentos acessíveis, “pechincháveis” e que não causem algum dos muitos tipos de subnutrição.
O papel da classe trabalhadora
As condições de vida da classe trabalhadora brasileira ao longo da nossa história foram determinadas pela condição dependente de nosso país e pela superexploração. Na atual fase, a grande mídia e a própria universidade propagam: “estamos em desindustrialização / reprimarização!”. O que há, na realidade, é o aprofundamento da Dependência, o que faz com que as indústrias simplesmente “desapareçam” ou se tornem funcionais a essa nova etapa dependente.

No primeiro caso, o exemplo das indústrias de transformação é emblemático: entre 2014 e 2020, houve a perda de 36.600 unidades produtivas no Brasil. No segundo, o rearranjo da produção na nova Divisão Internacional do Trabalho (DIT) faz com que as indústrias:
1) alterem seus setores, cujo melhor exemplo seja o crescimento vertiginoso das agroindústrias;
2) se mantenham, como as siderúrgicas, mas com uma linha de produção obsoleta e altamente poluente; ou
3) se mantenham, compensando a perda no comércio ou na indústria pelas altas taxas de juros (intocadas por Lula e Haddad, apesar de terem maioria no Conselho monetário Nacional) e pela compra de títulos da dívida pública – ou seja, financeirização.
Essa conjuntura nos leva a crer que a classe trabalhadora no Brasil se dissipou, deixando, até mesmo, de existir, vide o exército industrial de reserva, o trabalho intermitente, o “precarizado”, o remoto e a perda de empregos na indústria sem precedentes na nossa História. No entanto, essa heterogeneidade da classe trabalhadora e a complexificação de seu espaço de labor não retirou dela aquilo que lhe é essencial para diferenciar, inclusive, a exploração da emancipação: o trabalho, como gerador da riqueza e mantenedor do sistema capitalista globalizado.
O assalto da burguesia, via aumento do agroextrativismo, da superexploração do trabalho e da natureza e da exportação de seus produtos, ainda é refém de uma classe que está presente da ponta da cadeia aos setores de comércio e serviços, passando pelas consideráveis fatias presentes no transporte logístico.
Essa classe trabalhadora, espalhada por diferentes setores e graus de formalização, mas nunca “condensada”, no sentido reduzida, não aguarda um chamado vindo da derrotada esquerda liberal para se organizar. Algumas se organizam em si mesmas, conscientes ou ainda reféns de mandatos parlamentares ou de concepções ongueiras. Outras, desiludidas com a defesa da democracia em abstrato, se refugiam no discurso oportunista da extrema-direita, que se alimenta dessa desilusão desorganizada e ainda difusa.
A classe trabalhadora não mais acredita nas vias eleitorais do jogo democrático, propalados pelas velhas ilusões do Governo Lula. Foram essas regras que as colocaram contra o aumento dos preços nos supermercados e nas redes de varejo.

É preciso uma orientação de ruptura, que busque nas teses de uma Revolução Brasileira a sua emancipação enquanto classe para si e para a nação. O Governo Lula nada mais pode fazer pelos trabalhadores senão alimentar suas ilusões e perpetuar seu quadro miserável político e materialmente através da esterilização impulsionada pelos programas sociais e pela sua intencional falta de combatividade e de convocação das massas para exercer a política nas ruas, nas universidades, nos movimentos populares ou nos sindicatos.
Os passos dados até sua emancipação não podem ser desviados da construção de uma oposição ao seu governo pela via da esquerda revolucionária pela Revolução Brasileira.
Por: André Oliveira, mestrando em Geografia.









