
A seca histórica na Amazônia é um evento já esperado pelos especialistas e, sobretudo, pelas populações tradicionais, que há anos veem que o ecossistema Amazônico está alterado, causado por interferências humanas. Mas, a pergunta que não quer calar é: por que esse evento de falta extrema de água nos rios está acontecendo?
As respostas das autoridades e que são divulgadas na imprensa são inusitadas, não totalmente erradas, mas são apenas aquelas que interessam; por isso surge outra pergunta: interessa a quem?
Devemos entender as causas, sejam aquelas divulgadas e sejam aquelas que tem agudizado às causas e os efeitos. As causas que são divulgadas para esta seca histórica não são totalmente erradas e são apenas exógenas que é a combinação do El Niño com aquecimento do Pacífico e do aquecimento do Atlântico, entretanto, esquecem de esclarecer mais uma causa externa que é a falta de tributação do degelo nos Andes, que somente ocorre entre os meses de dezembro e março – a época de verão no hemisfério sul.
As causas endógenas são muito fortes e são mais definidoras, pois envolvem a alteração do uso do solo da Amazônia nas últimas décadas, desmatamento e queimada acelerada, mudança do uso do solo de floresta para pastagem e monocultura, atividades extrativistas minerais que poluem os rios e eliminação das matas ciliares dos rios amazônicos.

Dados de satélite demonstram que 20 municípios concentram 50% do desmatamento na Amazônia, destacando-se os estados de Mato Grosso, Pará, Amazonas e Rondônia.
O quadro abaixo apresenta nove municípios com mais de 4% de participação no desmatamento, 2 municípios em também no MT e dois no PA, 4 localizados no AM e um em RO. Importante destacar que estes municípios que têm grande desmatamento também contribuem para a emissão de gases de efeito estufa (GEE), destacando-se Altamira-PA, São Feliz do Xingu-PA, Porto Velho-RO, Lábrea-AM e Apuí-AM.

Segundo o Instituto de Energia e Meio Ambiente, oito entre os dez municípios que mais
emitem gases de efeito estufa estão na região amazônica; São Paulo e Rio de Janeiro são os únicos de
fora da Amazônia.
Ainda de acordo com o órgão, no ano de 2019, os dez municípios emitiram juntos 198 milhões de toneladas brutas de dióxido de carbono equivalente (MtCO2e), mais que todas as emissões de países como Peru e Holanda.
A solução divulgada para a solução do problema está pautada na questão puramente
econômica de transporte de produtos nas hidrovias amazônicas, deixando de lado até a
geração de eletricidade.
A solução além de inusitada é uma simplificação do problema, que não resolve a questão e sim produz outros. A proposta seria aumentar a área de navegação através da dragagem do leito dos rios Amazônicos. Peguemos o rio Madeira como exemplo para ilustrar tal situação: por ser um rio em formação e que carreira muitos sedimentos, produz um ambiente de navegação variável com bancos de areia e sedimentos, bem como as margens são variáveis e pouco rígidas.
Assim, o sistema que envolve o Rio, fluxo de água, leito do rio, sedimento, barranco e margens estão interligados. Por isso, ao fazer uma intervenção no leito do rio com dragagem produzirá alterações em todos os outros. Ou seja, ao dragar o rio, o barranco e margens serão afetados e ficarão instáveis, agregando-se nesta equação o fenômeno das Terras Caídas, com possíveis desmoronamentos dos barrancos, margens e casas.
Como exemplificado, dragar o rio não resolverá o problema da navegação e da falta de água. Assim, como destacado acima, os problemas da falta de água são resultantes em maior medida das causas endógenas resultante dos impactos ambientais na Amazônia, ou seja, é possível resolver porque pode ser resultado de gestão e governanças para eliminar
estes impactos.
Por fim, não interessa divulgar as reais e principais causas da falta de água na Amazônia, porque são as elites econômicas e políticas da região que mais derrubam as florestas, transformam florestas em pastos ou em monocultura de soja, e que também barram os rios.
Resumindo, as causas endógenas deveriam ser objeto de atenção na Amazônia, primeiro
que há possibilidade de governança sobre elas, seja porque estes eventos afetam
diretamente o microclima, sejam porque se não mexer nestas questões, os eventos
climáticos serão ainda mais intensos daqui para frente.
- Graduado em Física e Química. Doutor em Planejamento de Sistemas Energéticos. Ex-pró-reitor de Pós-graduação e Pesquisa da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), assumiu a Coordenação-Geral de Planejamento Acadêmico, Pesquisa e Inovação da Secretaria de Educação Superior do MECFotos: Amazonas Atual










