O Carinho de Caro
Quando o pedágio chega com um abraço apertado no bolso
A partir de hoje, o rondoniense passa a receber diariamente um novo tipo de carinho. Não desses que vêm com afeto, cafuné ou bom-dia sincero. É o famoso "carinho de caro" — aquele que não esquenta o coração, mas esfria o bolso. Começou hoje a cobrança do pedágio, e ele chega moderno, silencioso e eficiente: você passa, nem percebe… e paga depois.
Não tem cancela, não tem fila, não tem discussão com o cobrador. É tudo automático, tecnológico, quase elegante. Você atravessa a estrada achando que está livre, mas o sistema anota tudo, como quem diz: "depois a gente conversa". E conversa mesmo — via TAG, Pix, cartão ou lembrança tardia de que nada nessa vida passa de graça.
Esse carinho rodoviário, claro, não fica restrito ao asfalto. Ele pega carona com os caminhões, atravessa Rondônia inteira e vai direto ao supermercado. Resultado: o frete sobe, o preço sobe e o carrinho fica mais caro. Mas calma, não é um aumento escandaloso. É só "um pouquinho". Sempre um pouquinho. O suficiente para você achar que está exagerando… até somar tudo no caixa.
A indústria, sempre solidária com o próprio lucro, entra em ação para ajudar. Não aumenta o preço — isso pega mal. Em vez disso, reduz o conteúdo. Onde tinha 1 kg, agora tem 900 g. Onde tinha 1 litro, agora tem "volume ideal". É quase um milagre da multiplicação ao contrário: menos produto, mais caro, e ninguém assume.
E a quem o rondoniense vai apelar? Ao pórtico? Ao aplicativo? À matemática? Reclamar não abre estrada, não engorda embalagem e não reduz tarifa. O jeito é seguir viagem, recebendo carinho todo dia — na estrada, no mercado e na fatura.
No fim das contas, o pedágio não é só uma taxa. É um conceito. Um novo indicador do custo de viver por aqui. Um carinho moderno, invisível na hora, mas bem presente no orçamento.
Porque amor até pode ser passageiro.
Mas o carinho de caro… esse veio para ficar.









