“Não entregarei Rondônia a um traidor”, diz Governador, ao confirmar que não concorre ao Senado

Ao detalhar o rompimento, o governador reconstruiu a trajetória de Sérgio Gonçalves dentro do governo, mas o episódio decisivo, segundo o governador, ocorreu durante uma viagem oficial a Israel

PORTO VELHO — Em uma das entrevistas mais aguardadas do início do ano político em Rondônia, concedida nesta segunda-feira, 12, ao apresentador  Everton Leoni, no programa SIC News, da SIC TV, o governador Marcos Rocha deixou claro que está decidido a não disputar uma vaga ao Senado Federal nas eleições deste ano. Mais do que isso: condicionou qualquer eventual mudança de posição a algo que classificou como improvável — entregar o comando do Estado a alguém em quem afirma não confiar mais. A referência direta foi ao vice-governador Sérgio Gonçalves, com quem a relação política, segundo o próprio governador, está definitivamente rompida.

A entrevista, conduzida pelo jornalista Everton Leoni, teve forte repercussão antes mesmo de ir ao ar. Rocha reconheceu o clima de expectativa e, ao longo de quase 40 minutos, tratou de temas administrativos, mas concentrou os momentos mais tensos ao falar de sucessão, lealdade política e confiança institucional.

Confira a entrevista com Everton Leoni:

 

A decisão é permanecer no governo
Questionado de forma direta sobre a possibilidade de rever o anúncio de que permanecerá no cargo até o fim do mandato, Marcos Rocha foi categórico ao afirmar que decisões, quando tomadas, raramente são revistas. Embora tenha admitido, em termos pessoais e religiosos, que “tudo pode mudar se for da vontade de Deus”, deixou explícito que não considera aceitável abrir mão do governo.

O ponto central de sua justificativa é político e institucional: para disputar o Senado, Rocha teria de se desincompatibilizar do cargo, entregando o Palácio Rio Madeira ao vice-governador. “É muito difícil eu querer entregar o governo do Estado de Rondônia nas mãos de alguém que me traiu”, afirmou, sem rodeios. Em seguida, reforçou a gravidade da acusação ao dizer que quem trai um aliado político também pode trair a população.

A origem do conflito com o vice
Ao detalhar o rompimento, o governador reconstruiu a trajetória de Sérgio Gonçalves dentro do governo. Disse que foi o principal defensor de seu nome para a vice-governadoria, enfrentando resistências internas e críticas durante a composição da chapa. Segundo Marcos  Rocha, a confiança era tamanha que o vice chegou a ocupar cargo estratégico no Executivo, com atuação junto ao setor empresarial.

O episódio decisivo, segundo o governador, ocorreu durante uma viagem oficial a Israel. Mesmo fora do país, Marcos Rocha continuava despachando e tomando decisões, amparado por uma proposta de emenda constitucional articulada na Assembleia Legislativa para permitir a atuação remota do chefe do Executivo — mecanismo já adotado por outros Poderes. A reação do vice, no entanto, foi recorrer à Justiça para barrar a medida.

“Ali eu pensei: a partir de agora não tenho mais como confiar”, afirmou Marcos Rocha, classificando a atitude como um divisor de águas. Para ele, o caminho natural teria sido o diálogo interno, não a judicialização de um tema político-administrativo.

Senado fora do radar — por ora
Ao longo da entrevista, Marcos Rocha reconheceu o apelo popular de uma eventual candidatura ao Senado. Mensagens lidas ao vivo demonstraram apoio de eleitores, lideranças e aliados, alguns deles lamentando a decisão. Ainda assim, o governador reafirmou que não abrirá mão de suas convicções para ocupar um cargo eletivo.

Ele também revelou que a decisão impacta diretamente seu núcleo familiar e político: a primeira-dama, Luana Rocha, é pré-candidata a deputada federal, e o irmão, Sandro Rocha, também têm pretensões eleitorais — projetos que ficam inviabilizados caso o governador permaneça no cargo.

Apesar disso, Rocha insistiu que sua prioridade é concluir entregas consideradas estratégicas, especialmente na área da saúde, como a implantação de um novo hospital estadual, projeto que ele próprio definiu como uma “obsessão administrativa”.

O papel na sucessão estadual
Mesmo descartando o Senado, o governador deixou claro que não pretende se afastar do processo eleitoral de 2026. Admitiu estar sendo procurado por possíveis candidatos ao governo — inclusive nomes fora da política tradicional — e sinalizou que atuará para apoiar perfis que classifica como “sérios” e comprometidos com resultados.

Nesse ponto, o discurso ganhou contornos ideológicos mais amplos. Marcos Rocha defendeu um governo que dialogue com diferentes campos políticos, rejeitou a polarização como método de gestão e disse que sua preocupação central é evitar que a população seja “enganada por promessas vazias”.

Recado político direto
Ao final, a entrevista consolidou uma mensagem clara ao cenário político de Rondônia: Marcos Rocha não será candidato ao Senado enquanto Sérgio Gonçalves for o sucessor natural no governo. A crise entre governador e vice, longe de ser circunstancial, foi descrita como irreversível.

Mais do que uma decisão eleitoral, Marcos Rocha apresentou sua escolha como um gesto de coerência política. Ao permanecer no cargo, ele aposta no discurso de que a estabilidade administrativa e a confiança institucional pesam mais do que a projeção pessoal — ainda que isso signifique abrir mão de uma disputa de alcance nacional.

Para 2026, o governador se posiciona não como candidato, mas como fiador político da sucessão, deixando claro que sua influência continuará a moldar o tabuleiro eleitoral do Estado.

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