Leiteiros do Cone Sul enfrentam o nó górdio da década em Rondônia

COLORADO DO OESTE – Caso queira continuar no ramo, mesmo mantendo rebanho misto o criador de gado leiteiro do Cone Sul de Rondônia terá que dispor de tecnologia moderna e crédito rural. Nos anos 1990 a região possuía três mil criadores financiados. Hoje própria captação do leite é caríssima. Tudo é desafio.

 “Tudo falácia, política pública para o leite aqui não existe”, critica o zootecnista Ênio Roberto Milani, 64 anos, ex- chefe da Unidade da Emater e atualmente presidente da Associação dos Criadores de Colorado do Oeste, a 761 quilômetros de Porto Velho.

Segundo ele observa, em outros estados a situação dos criadores de gado leiteiro é bem diferente: “Pequenas propriedades nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul são apoiadas permanentemente em todos os aspectos, até mesmo no suprimento do parque de máquinas e na silagem.”

Milani investiu em curral e cochos; nem todos tiveram essa condição ?

Para o zootecnista, Rondônia vive contrastes preocupantes e que poderiam ser evitados “se o ex-secretário (Evandro Padovani) se empenhasse de verdade.” Ele explica que a derrocada da política leiteira em 2021 não deveria ocorrer no mesmo ano em que a Organização Internacional de Epizootias reconhecia a sanidade do rebanho rondoniense.” “Por ironia, um ano depois os pecuaristas tiveram o pior preço do gado no País”, lembrou.

Consultando dados da Seagri em agosto, Milani constatou: em dez anos a produção de leite caiu 58% no estado. E Colorado continuou sem poder utilizar a sua fábrica de nitrogênio, abandonada sem manutenção. Aprovada pelo Proleite, ela fora recebida como um alento a centenas de produtores que inseminavam o gado na região do Cone Sul, Pimenta Bueno e Zona da Mata.

Sem recursos financeiros e com dificuldades até no transporte, leiteiros de Rondônia desanimam

Ele lamentava a redução do número de laticínios na região do Cone Sul: de sete, atualmente apenas três funcionam.

O recebimento de leite na plataforma em fevereiro deste ano totalizou 42,49 milhões de litros, com média diária de 1,51 milhão de litros. Era o período das águas, nele ocorrendo uma queda de aproximadamente 30%. Em julho os laticínios receberam 32,7 milhões de litros, na média diária de 1,055 milhão de litros, em período de seca.

CUSTO LEITEIRO

No cômputo da Associação dos Criadores de Colorado, entre 1993 e 1994 havia três mil produtores financiados na região. “Já não era mais só conversa: sentindo a carência regional, o ex-gerente, superintendente e diretor do Banco da Amazônia (Basa) em Belém, Wilson Evaristo, teve papel importante no fortalecimento nas análises e reivindicações da Unidade do escritório da Emater”, lembra Milani.

O pequeno laticínio de Colorado recebia na plataforma 6,3 mil litros de leite por dia, vendidos por aproximadamente trezentos produtores. Em 1995, o número de produtores aumentava para 3,3 mil, donos de 35 mil vacas com predominância mineira que rendiam 220 mil litros/dia.

CAPTAÇÃO MUITO CARA

Laticínios pagam atualmente R$ 2,80 o litro de leite na região. Na ordenha bem organizada, o custo de produção deixa R$ 1 por litro. A vaca que rende 20 litros/dia proporciona R$ 20/dia, entretanto, o rendimento médio regional vem sendo de apenas dois a três litros por vaca, faltando mesmo preparo genético para um gado com melhor desempenho.

“A grande dificuldade dos laticínios hoje em Rondônia é o custo da captação desse leite”, observa Milani. “Aqui um caminhão corre um quilômetro para recolher 12,5 litros de leite; no Paraná, no mesmo quilômetro percorrido ele recolhe em torno de 125 litros, então, nosso custo nesse item é dez vezes mais caro que naquele estado.”

“TEMOS BOI DA CHINA”

Segundo ele, em 2015 um grupo de 50 criadores possuía quinhentas prenhezes de fêmeas girolanda, todos eles recebendo capacitação do Instituto Federal de Rondônia (Ifro) em Colorado entre 2013 e 2014.

E a respeito da qualidade da carne rondoniense assinala: “O normal para as missões estrangeiras é a escolha da melhor sanidade, só que ninguém do nosso estado foi chamado para auxiliar, e o único frigorífico ainda visitado por chineses é o Minerva, de Rolim de Moura”, queixa-se.

Segundo Milani, a Federação da Agricultura e Pecuária de Rondônia (Faperon) já atestou que neste estado se cria o chamado “boi China”, ou seja, aquele com até 30 meses aprovado para o gosto do maior importador, e a preço diferenciado por arroba. “Então, faltou gestão para trazermos mais compradores a Rondônia”, lamenta.

BASA FOI O MAIOR PARCEIRO

O passado vem à tona: estimulados pelo Basa, sete laticínios trabalhavam na região: dois em Colorado, dois em Cerejeiras e os outros em Cabixi, Chupinguaia e Corumbiara. Agora, apenas três funcionam, obtendo apenas 50 mil litros/dia em Colorado e Cerejeiras.

Inicialmente, o dinheiro chegava aos criadores via FNO (Fundo Constitucional do Norte), um dos fundos aplicados pelo Basa após a Constituição de 1988.

“O abandono hoje é decepcionante, porque a região sempre esperou preços e políticas públicas voltadas ao melhoramento genético e tecnológico, e o período do secretário de agricultura Padovani foi o pior na história de Rondônia”, queixa-se.

O líder associativista lembra que o pacote de crédito do Basa estabelecia aos contemplados um programa de plantio de lavouras perenes – café, coco da Bahia, urucum – e a construção de currais. “O FNO representou o mais alto estímulo aos criadores de gado leiteiro e a outros produtores da região”, lembra. Durante a Expocol (Exposição Agropecuária de Colorado), o Basa liberou dinheiro para a compra de tratores e implementos.

“Os primeiros negócios foram feitos dentro do parque, e até mesmo com a inflação, o produtor pagava a metade do financiamento, e no terceiro ano ele baixava ainda mais”, conta. Com a assessoria de Ênio, em 1998 o ex-governador  José de Abreu Bianco faria fazer seu slogan “Promessa feita, promessa cumprida”, adotando como bandeira reduzir as dívidas do FNO.

ATÉ URUCUM

O fomento dado pelo Basa possibilitou o funcionamento de uma indústria de beneficiamento de urucum em Cabixi. Já houve até a “Festa do Urucum”, sem o ibope das grandes cavalgadas e de exposições regionais, mas era motivo de orgulho dos pequenos proprietários.

“A proibição de corantes artificiais na Europa valorizava a compra do nosso urucum, por causa da bixina, o principal pigmento presente nas sementes”, comenta Ênio. “Os pigmentos naturais do urucum são denominados carotenoides, muito usadas para colorir alimentos e em filtros solares”, explica.

Ênio Milani

QUEM É

Milani veio para Rondônia capacitado pela antiga Empresa Brasileira de Extensão Rural (Embrater), que em todos os estados ministrava cursos técnicos. Participou do projeto da fábrica de nitrogênio líquido, em 1999, investimento apoiado naquele período por emenda parlamentar do ex-senador Amir Lando.

Gaúcho nascido em Frederico Westphalen (31,6 mil habitantes), tem quatro irmãos e duas irmãs e  viveu o apogeu da diversidade agropecuária em seu estado com os pais Chaudino Nicolau Milani e Terezinha Piaia Milani, falecidos.

“No Rio Grande tínhamos de tudo um pouco: amendoim, batata doce, milho, soja, vacas leiteiras e batata doce, que fazia elas darem um leite bom”, conta.

Atualmente, ele mantém confinamento próprio para uma boiada crioula considerada boa de cria e recria, e investiu numa eficiente estrutura de cochos.

MONTEZUMA CRUZ
Imagens: Tecnologia no Campo (TC), Ênio Milane, Extra Rondônia e Pensamento Verde



+ DESTAQUES






+ Notícias




+ NOTÍCIAS

+ NOTÍCIAS

Fale conosco pelo WhatsApp!
Pular para a barra de ferramentas