Hospital de Base – A dor que se repete – Por: JBLS

E o Estado, de olhos vendados, entrega a saúde pública a quem lucra com o sofrimento

Bosco Siqueira*

PORTO VELHO – No coração de Rondônia, ergue-se um gigante cansado,
de paredes que já ouviram mais preces do que diagnósticos. O Hospital de Base — Dr. Ary Pinheiro — carrega nos corredores o peso de uma promessa: ser o abrigo do povo, e não o espelho da omissão.

Mas o que era pra ser base, virou beco,
o que era pra ser cura, virou espera,
e o que era pra ser gestão, virou desculpa.

Nos almoxarifados vazios,
repousam prateleiras de esperança quebrada.
Seringas que faltam, gazes que somem,
luvas que viram luxo,
e uma burocracia que esteriliza mais que as autoclaves.

A terceirização virou muleta —
contrata-se o que se deveria planejar,
paga-se o que não se controla,
e o Estado, de olhos vendados,
entrega a saúde pública a quem lucra com o sofrimento.

Enquanto isso, os servidores — guerreiros cansados —
improvisam curativos com o pouco que resta,
entre um turno e outro,
entre o medo e a fé,
tentam salvar quem o sistema já esqueceu.

Os exames atrasam, as cirurgias esperam,
os leitos se tornam prisões temporárias de dor.
Na sala de espera, o povo aguarda —
o povo que paga, que sustenta, que acredita,
mas que nunca é prioridade.

Falta gestão, falta norte, falta vergonha.
Sobram planilhas, justificativas e discursos horizontais —
esses discursos baratos que prometem reforma,
mas nunca passam da ata de reunião.

O hospital é o retrato do Brasil que adoece:
um corpo público fraturado,
com gestores que tratam o orçamento
como se fosse deles,
e o cidadão, como se fosse estatística.

Nos painéis digitais, não há dados — há silêncio.
Na gaveta dos projetos, há pó — e esquecimento.
E o Sistema Único de Saúde, tão único,
parece cada vez mais solitário.

No fim, quem paga é o mesmo:
o contribuinte, o paciente, o invisível.
Aquele que financia o Estado com o suor,
e recebe em troca uma fila.

Que a dor do Hospital de Base
sirva, ao menos, de alerta —
porque um país que adoece na alma,
não se cura com remendo,
mas com gestão, com ética,
com o retorno àquilo que o Estado prometeu ser:
público, humano, e de todos.

*É um pensador latino americano independente 


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