PORTO VELHO – A política é a arte de engolir sapos, já dizia um antigo político, já dizia o aguerrido Leonel Brizola, ante a possibilidade de ter de apoiar o Lula na disputa contra Fernando Collor, em 1989. Mas o tempo em que os políticos não engoliam ‘sapos’ para galgar o poder ficou para trás. Diante da possibilidade de galgar o poder ou ganhar algum dinheiro, os políticos atuais não hesitam deglutir uma saparia.
Na atual corrida para as eleições de outubro em Rondônia, aqueles que sabem ler as entrelinhas da política, percebem que o Partido Liberal tem um ‘sapo’ no meio do caminho e, muito provavelmente – ou não – o senador Marcos Rogério terá de saboreá-lo.
Este ‘sapo’ atende pelo nome de Bruno Scheide, o pecuarista que se aproximou tanto do ex-presidente Bolsonaro que ganhou a autorização para usar o nome do ex-presidente.

Acontece que, apesar disso, o líder do PL em Rondônia e virtual candidato a governador, o senador Marcos Rogério, ignora solenemente o pupilo de Bolsonaro em Rondônia.
Marcos Rogério divulga vídeos, faz reuniões e encontro, mas ao invés de ter ao seu lado o futuro companheiro de chapa ignora-o e joga luz sobre o deputado federal Fernando Máximo, que segundo Rogério será candidato ao Senado em sua chapa.
Já sobre Bruno Bolsonaro – ou Bruno Scheid – silêncio absoluto do senador Marcos Rogério.
Ainda assim, o pecuarista amigo da família Bolsonaro não se faz de rogado e continua sua pré-campanha ao Senado. Longe de Marcos Rogério.
O desfecho desta disputa termina em julho, quando acontecem as convenções partidárias que vão definir as candidaturas de cada partido, coligação ou federação.
Acredita-se que o espaço a ser ocupado por Bruno Scheid vai ocupar no palanque do encontro do PL, no próximo sábado, em Ji-Paraná e sua interação com Flávio Bolsonaro vai apontar para quais serão o desfecho de sua candidatura.
No papel, a conta parece simples. Scheid é tratado como nome do bolsonarismo para o Senado, tem proximidade notória com a família Bolsonaro, ocupa espaço dentro do PL em Rondônia e vem sendo projetado por setores da direita como peça relevante no tabuleiro de 2026. Em tese, isso bastaria para que recebesse de Marcos Rogério o tratamento reservado a um aliado estratégico: agenda conjunta, defesa pública clara, presença recíproca em eventos, discurso afinado e demonstração explícita de unidade.
Mas não é isso que a cena política tem mostrado.
O que se percebe, até aqui, é uma convivência muito mais protocolar do que entusiasmada. Para quem observa o jogo de fora, chama atenção a quase ausência de uma associação política mais forte, mais visível e mais frequente entre Marcos Rogério e Bruno Scheid. Falta o gesto. Falta a espontaneidade. Falta aquela sequência de aparições públicas capaz de convencer o eleitor de que existe, de fato, uma chapa moralmente integrada e politicamente confortável.
E, em política, quando falta naturalidade, sobra interpretação.
A leitura que começa a circular é a de que Marcos Rogério não parece exatamente à vontade com Bruno Scheid. Não porque possa simplesmente descartá-lo, mas justamente porque talvez não possa. Scheid não é um nome qualquer que apareceu por conveniência local. Seu peso decorre menos de uma construção clássica de base eleitoral e mais de uma condição que, no atual ambiente conservador, vale ouro: a proximidade com Bolsonaro e seu entorno mais íntimo.
Esse detalhe muda tudo.
Se Bruno Scheid fosse apenas uma aposta regional, Marcos Rogério talvez já tivesse resolvido o problema no método tradicional da política: deixaria o aliado esfriar na sombra, reduziria sua visibilidade e, no momento oportuno, empurraria outro nome mais funcional. Mas Scheid não vem sozinho. Ele carrega um selo de legitimidade que, goste-se ou não, pesa dentro do eleitorado bolsonarista. E esse eleitorado, em Rondônia, não é detalhe. É patrimônio eleitoral.
Por isso, Marcos Rogério parece aprisionado numa situação incômoda: não pode abraçar demais um nome que talvez não lhe seja politicamente confortável, mas também não pode escanteá-lo a ponto de desagradar o núcleo duro que o sustenta.
A dificuldade é que esse tipo de cálculo raramente passa despercebido. O eleitor mais ideológico cobra lealdade. O eleitor mais pragmático observa coerência. E a imprensa, como sempre, percebe o intervalo entre o discurso e a prática. Se o PL quer vender a imagem de um projeto coeso para 2026, a frieza entre seus personagens centrais não ajuda. Ao contrário: alimenta a suspeita de que a unidade partidária pode estar sendo mantida mais por imposição hierárquica do que por convicção política.
Há ainda um segundo problema, mais espinhoso.
Bruno Scheid não chega à disputa apenas com o peso simbólico da amizade bolsonarista. Seu nome também traz consigo passagens incômodas já registradas na imprensa nacional, envolvendo questionamentos sobre arrecadação política, acesso privilegiado ao poder e controvérsias públicas que, ainda que não o inviabilizem dentro da bolha conservadora, certamente tornam sua imagem mais delicada para composições amplas. Para um pré-candidato ao governo que precisará dialogar além da militância, isso não é irrelevante. A presença de Scheid pode mobilizar a base, mas também pode impor desgaste.
Talvez por isso Marcos Rogério pareça agir como quem tenta equilibrar dois medos: o medo de abraçar demais e o medo de rejeitar demais.
No primeiro caso, corre o risco de atrelar sua imagem a um nome que ainda não demonstrou capilaridade eleitoral equivalente ao prestígio que possui junto à família Bolsonaro. No segundo, corre o risco de ser lido como alguém que quer usufruir do bolsonarismo sem aceitar integralmente os nomes que o bolsonarismo tenta impor.
Nenhuma dessas alternativas é confortável.
É nesse ponto que surge a especulação, ainda frágil, mas politicamente compreensível: haveria alguma chance de Marcos Rogério, na janela partidária, buscar uma saída lateral? Em teoria, sempre há. Na prática, porém, essa hipótese parece pouco plausível. Marcos Rogério sabe que sua força reside justamente na identidade conservadora e na associação ao campo da direita bolsonarista. Aventurar-se fora desse terreno seria um movimento de alto risco e de retorno duvidoso. Mais do que isso: poderia abrir espaço para que outro nome do PL ocupasse com mais nitidez o mesmo eleitorado, dividindo votos e corroendo sua vantagem.
Ou seja: a troca de partido pode até existir como comentário de bastidor, mas, hoje, parece muito mais uma especulação de corredor do que uma estratégia realista.
O cenário mais provável é outro. Marcos Rogério deve continuar onde está e, se necessário, terá de bancar Bruno Scheid. Não porque isso lhe seja agradável. Não porque o entusiasmo seja visível. Mas porque a lógica do poder, especialmente dentro do bolsonarismo, nem sempre permite que os desconfortos pessoais prevaleçam sobre a conveniência eleitoral.
A questão, então, deixa de ser se Marcos Rogério vai apoiar Bruno Scheid.
A questão é em que grau esse apoio será verdadeiro e em que medida será apenas obrigatório.
Porque, até aqui, o que se viu não foi uma parceria vibrante. Foi, no máximo, uma coexistência cautelosa. E coexistência cautelosa não é exatamente a imagem que um partido vende quando quer convencer o eleitor de que está unido.
Se nos próximos meses Marcos Rogério continuar tratando Bruno Scheid como um aliado de quem se aproxima por dever, e não por convicção, a contradição ficará cada vez mais evidente. E, em política, contradições prolongadas têm o péssimo hábito de virar notícia.
No fim, talvez o problema central do PL em Rondônia não seja decidir quem são seus nomes e sim convencer o eleitor de que seus próprios líderes realmente acreditam neles.
Carlos Araújo e Daniel Paixão, para o www.expressaorondonia.com.br Fonte: www.expressaorondonia.com.br









