De Hiroshima à ameaça global: o paradoxo nuclear dos Estados Unidos – Plínio César Coelho*

A banalização do mal e a normalização da ameaça nuclear

Plínio César Coelho*

MANAUS – O debate contemporâneo sobre a proliferação nuclear é marcado por uma profunda assimetria normativa e política. Embora nove Estados detenham arsenais atômicos — com destaque para Estados Unidos e Rússia, responsáveis por mais de 90% das ogivas globais — observa-se uma postura recorrente de determinados atores internacionais, especialmente os Estados Unidos, no sentido de reivindicar autoridade moral e política para regular o acesso de outros países a esse tipo de armamento. Tal postura suscita questionamentos relevantes à luz da história, do direito internacional e da filosofia política.

A expressão “banalização do mal”, formulada por Hannah Arendt em sua análise sobre o julgamento de Adolf Eichmann, revela-se particularmente pertinente neste contexto. Para Arendt, o mal pode manifestar-se não apenas em atos explicitamente monstruosos, mas também na normalização de práticas e discursos que, gradualmente, tornam aceitável aquilo que, em essência, é eticamente intolerável. Transposta para o debate nuclear, essa noção permite compreender como a retórica de destruição em massa pode ser incorporada ao discurso político sem provocar a devida reação moral da comunidade internacional.

Nesse sentido, declarações recentes do presidente Donald Trump, no contexto da guerra de 2026 envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, reforçam a gravidade dessa banalização. Ao afirmar que uma “civilização inteira” poderia desaparecer diante de uma escalada do conflito, o chefe de Estado norte-americano emprega uma linguagem que evoca cenários de devastação total. Ainda que não haja menção explícita ao uso de armas nucleares, a magnitude da ameaça suscita uma indagação analítica inevitável: estaria implícita a possibilidade de emprego desse tipo de armamento? A ambiguidade estratégica, nesse caso, funciona simultaneamente como instrumento de dissuasão e como fator de instabilidade normativa.

O ponto central dessa crítica, entretanto, permanece ancorado em um dado histórico incontornável: entre os nove países que atualmente possuem armas nucleares, os Estados Unidos são, ironicamente, o único a ter utilizado esse tipo de armamento em combate. Em agosto de 1945, sob a presidência de Harry S. Truman, foram lançadas bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima (6 de agosto) e Nagasaki (9 de agosto). Estima-se que aproximadamente 140 mil pessoas tenham morrido em Hiroshima até o final de 1945, enquanto Nagasaki registrou cerca de 70 mil mortes no mesmo período.

As consequências desses ataques transcenderam a dimensão imediata da destruição. Além das mortes instantâneas e dos efeitos térmicos e mecânicos das explosões, a radiação ionizante provocou doenças graves, como câncer e leucemia, cujos efeitos se estenderam por décadas. Gerações subsequentes sofreram com malformações congênitas, infertilidade e outras complicações de saúde, consolidando um legado intergeracional de sofrimento humano. Trata-se, portanto, não apenas de um episódio militar, mas de uma ruptura ética na história da humanidade.

À luz desse histórico, emerge uma tensão evidente: como pode um Estado que protagonizou o uso efetivo de armas nucleares reivindicar legitimidade para impor restrições a outros países? Essa contradição é frequentemente apontada por críticos da ordem internacional nuclear, especialmente no contexto do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). Embora o tratado estabeleça compromissos de desarmamento para as potências nucleares, na prática observa-se a manutenção — e, em alguns casos, a modernização — desses arsenais, ao mesmo tempo em que se exerce pressão sobre países emergentes para que não desenvolvam capacidades similares.

Autores críticos das relações internacionais, como Noam Chomsky, argumentam que essa dinâmica reflete uma lógica de poder, e não necessariamente um compromisso universal com a paz. Sob essa perspectiva, a política nuclear internacional seria menos orientada por princípios éticos e mais por interesses geopolíticos estratégicos.

Adicionalmente, a seletividade na aplicação de sanções e pressões diplomáticas reforça essa percepção de assimetria. Países como Coreia do Norte e Irã são frequentemente alvo de forte contenção internacional, enquanto outros Estados com capacidade nuclear, como Israel, mantêm uma posição de ambiguidade estratégica com menor grau de pressão externa.

Em síntese, a crítica ao posicionamento dos Estados Unidos no regime internacional de não proliferação não implica a defesa da disseminação de armas nucleares — o que representaria um risco existencial à humanidade —, mas sim a necessidade de coerência normativa, histórica e ética. Um sistema internacional legítimo requer que as regras sejam aplicadas de forma equitativa e que os próprios detentores do poder nuclear avancem de maneira concreta no desarmamento, conforme preconizado pelos acordos internacionais. Sem essa coerência, o regime de não proliferação corre o risco de ser percebido não como um instrumento de segurança coletiva, mas como um mecanismo de manutenção de hegemonia global.

*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina


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