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Abaixo a Amazônia ilegal

Pelo menos conceitualmente, a volta à Amazônia Clássica ajudará a mostrar um Brasil que destrói a região e talvez ajude a defendê-la. Ou a salvá-la.

BELÉM – Se algum dia houve sentido em incluir o Centro-Oeste na Amazônia, esse motivo deixou de existir. Cada vez mais os Estados amazônicos limítrofes de Mato Grosso e Tocantins (sem incluir o Maranhão, que é Meio-Norte e Meio-Nordeste) se parecem ao Centro-Oeste, o que significa a sua descaracterização como região realmente amazônica. Por diversos critérios geográficos de definição, enquanto a Amazônia encolhe, o Centro-Oeste se expande.

Esse crescimento acontece graças à destruição da hileia (ou seja, da floresta densa, de copa alta, de diversificação de espécies), através de desmatamento e queimada. As árvores nativas são abatidas para que em seu lugar sejam feitos plantios extensivos de culturas de ciclo curto, como os grãos, sobretudo a soja, instaladas serrarias e implantadas enormes fazendas de gado.

Apetites vorazes de inconsequentes segue ameaçando a Amazônia

O Centro-Oeste nunca foi amazônico. Agora, é antiamazônico. Liderado por bandeirantes paulistas, que, ignorando as advertências e os ensinamentos de Rondon, se expandiram economicamente fazendo derrubadas e investindo contra as populações nativas.

Transformaram o cenário caracteristicamente amazônico, de convivência mais harmoniosa com o espaço natural, na feição característica do colonizador, que avança pelo centro do país abrindo estradas e, com elas, tudo à sua volta. Chegam à fronteira pela mimese de origem: querem que a floresta vire sertão. E o sertão seja conectado à metrópole externa e à metrópole interna.

O principal resultado dessa “marcha para oeste” é o norte de Mato Grosso e Rondônia.

O espelho que os dois Estados têm que usar é o do Mato Grosso do Sul, mais próximo de São Paulo, em todos os sentidos, sua cabeça de ponte para os espaços amazônicos, que precisam substituir o vazio presumido pelo colonizador pelas benfeitorias que ele introduz. A ficção de um imenso país uno, no qual todos são irmãos, facilita essa destruição, a maior que o homem já fez (e ainda faz) em toda história da humanidade.

A pesquisa que o portal Poder 360 publica hoje confirma essas conclusões, apesar de aparências em contrário e das pessoas de boa vontade a apregoarem fantasias e ilusões.

– 83% dos brasileiros entrevistados pelo instituto Poder-Data dizem que a Amazônia faz parte da identidade nacional do Brasil. Os nortistas partilham muito menos essa ideia: são apenas 68%, o menor percentual entre todas as regiões.

– 23% dos entrevistados no Centro-Oeste nãos souberam dizer se a Amazônia deve ser prioritária para os candidatos a presidente da república no próximo ano. A média nacional é de 15%.

Para 58% dos brasileiros aumentaria a chance de votar num candidato que apresentasse um plano de proteger a Amazônia. Para moradores do Centro-Oeste, o percentual é de 36%; não faria a diferença para 13%; e diminuiria a possibilidade para 14% (o índice mais próximo, do Nordeste, é de 3%).

Para 71% dos brasileiros, o desenvolvimento do Brasil depende da proteção da Amazônia. Para os entrevistados no Centro-Oeste, 61%.

Esses números reforçam a constatação de que melhor será para a Amazônia a extinção da Amazônia Legal, desde a origem uma criação falsa e agora uma ameaça. Pelo menos conceitualmente, a volta à Amazônia Clássica ajudará a mostrar um Brasil que destrói a região e talvez ajude a defendê-la. Ou a salvá-la.

LÚCIO FLÁVIO PINTO
Jornalista em Belém (PA).

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