
PORTO VELHO – Vou farmar aura aqui com as letras da pátria mãe gentil para ver o que acontece! Tem muito mais organelas e mitocôndrias na célula da língua do que possa sonhar nosso gramatismo biológico de farmácia dos primeiros microscópios do século passado! Multicelular, a língua se constitui também de complexo de Golgi, citoplasma e ribossomos! Mas isso ainda é muito pouco para uma língua! Senão a língua do boi seria muito mais interessante e rica que a última ou penúltima Flor do Lácio! Lácio não é nada! O problema são os laços, os traços, os crassos e os devassos! Todos vetores subversivos potencialmente em posição de combate e atuação revolucionária no âmbito do berço esplêndido do vernáculo pátrio! Afinal, o idioma é tântrico, quântico ou satânico? Talvez seja pirilâmpico!
Nada é imexível! É o fermento que faz a língua fermentar! É o cimento que faz a língua concretar! E é o verbo solto ao vento que faz da língua um recriar perene de falar e falares, aqui, alhures, por onde quer que tu andares, falante recalcitrante! Porque língua não é pátria! A Língua é mátria, matriz, maratona, circunférica, dinâmica e roldana! Mais que celular, é bela dona orgânica, vivente, transbordante ascendente e descendente, conforme o movimento do fluxo nas penas que a grafam em odisseias ou das bocas que a reverberam em usual falância vocabular!

Então língua não é foz, nem atroz, língua é algoz! Ou algodão doce, ou guloseima, ou código servido em ceia a quem quer comunicar coisas do seu sentir ou da sua veia! Talvez língua seja teia! Um verbo sozinho é menos que mingau de aveia! A não ser que as classes de palavras da morfologia se insurjam em sublevação orgânica em tempestade de areia!
Torce o nariz o purismo! O ineditismo da metamorfose espanta! Mais que isso, Florbela Espanca sem querer mesmo espancar, nega e renega para poder afirmar, em paradoxal construção que diz que minha alma de sonhar-te anda perdida, língua minha; meus olhos andam cegos de te ver! Não és sequer a razão do meu viver, pois que tu és já toda minha vida! Todavia, língua minha, e Rogério Magri haverá de concordar comigo, imexível também não és, posto que não és perfeita e acabada como uma sonata de Mozart; não és sequer verdadeiramente minha, és de todos, de todas, és do vosso reino comunicacional do mundo dos falantes, interpretantes e significantes inquietos, forjadores de palavras como pizzaiolos dourando ao forno da criatividade tortilhas de substantivos ou Margheritas com novas formas verbais em sua borda!
Não é à toa que ficou irado o Senhor da Criação com os falares humanos! Surpreendeu ao Criador a capacidade do bípede falante de inventar palavras, desafiar a razão criadora e nomear as coisas segundo seus sentimentos, pensamentos, conveniências e paixões circunstanciais! Não supunha o Criador que a Criatura criada do barro fosse dar asas ao pensamento e ao conhecimento inundando o mundo com mares e rios de vocábulos, construindo um vasto universo de signos de linguagem, significados e significantes!
Foi-se o tempo em que pensávamos a formação das palavras pelas fórmulas clássicas da justaposição, como guarda-chuva, ou pela aglutinação, como planalto ou fidalgo. Outros elementos vetoriais, como o estrangeirismo, a ideologia do neocolonialismo, passaram a determinar a reinventação da língua pátria para utilização das massas, seja no trato coloquial cotidiano, seja nos ambientes das redes sociais, de onde emanam as inspirações para o forjamento das peças de engenharia fonética, morfológica e sintática. Tudo para inglês vê e o povo falar do que jeito que quiser! Se a Praça Castro Alves é do Povo, imagina a língua falada na Praça do Poeta dos Escravos!!! Talvez nem seja com o purismo formal nem com o gramatismo arcaico que vamos poder tentar entender o advento dessa onda torrencial de neologismo invadindo a praia do Português nosso de cada dia! Talvez não seja só estrangeirismo pura e simplesmente! Parece ter havido, na página histórica que vivemos, o encontro de vários elementos inspiradores do caldeirão que serve de fornalha para o fazimento dos novos termos vocabulares que se embrenham no repertório linguístico dos nossos falares! Indignação só não basta!
Precisamos talvez nos alfabetizar, montar sílabas por sílaba, palavra por palavra, para tentar ler o texto codificado em linguagem que nos passa desapercebida no meio de tanta invencionice palavresca a que estamos expostos e dispostos! O nome da coisa por si mesma já dá uma dica do que pode acontecer: a pá lavra! O resto é Torre de Babel!
*É escritor, poeta, trovador...










