Resenha Política – Robson Oliveira

Um personagem cuja trajetória política sempre gravitou nas proximidades das sinecuras do poder e cuja passagem pelo Palácio foi marcada, segundo relatos e lembranças daquele período, por um temperamento pouco afeito à contestação e por uma postura arrogante

PORTO VELHO – Se o debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band foi um festival de pancadaria verbal e acusações mútuas, imagine o que teria acontecido se todos os candidatos à Presidência estivessem no mesmo estúdio, no primeiro turno. O vale-tudo teria sido ainda mais indigesto. Propostas, nesse caso, correriam o risco de aparecer apenas como figurantes de uma briga pelo protagonismo.

Pugilato

É consenso entre jornalistas que os debates são instrumentos importantes para o eleitor conhecer os candidatos, comparar ideias e avaliar propostas. O problema começa quando os concorrentes entram nos estúdios de televisão e parecem esquecer que estão disputando votos, não um cinturão de boxe. Falta conteúdo, sobra agressividade. A política, que deveria ser confrontada pela inteligência, acaba reduzida à capacidade de constranger o adversário.

Lacração

Convém admitir: um debate excessivamente protocolar, sem tensão ou enfrentamento, é capaz de derrubar a audiência e transformar a democracia em sonífero televisivo. O confronto faz parte do jogo. O problema é quando a contundência cede lugar à baixaria, e o debate perde sua razão de existir. Aí, ganha a lacração, prosperam as bolhas digitais e perde o eleitor que ainda espera ouvir algo além de acusações recicladas.

Civilidade

Os debates precisam encontrar um formato que permita perguntas duras, respostas incômodas e confrontos incisivos, sem sacrificar o conteúdo programático. O modelo atual parece importar dos Estados Unidos o espetáculo e suas imperfeições, sem necessariamente reproduzir uma discussão consistente sobre as ideias que dividem o país. Copia-se a temperatura do confronto, mas nem sempre a qualidade do argumento. O resultado são embates que ultrapassam a linha da civilidade e deixam as propostas soterradas pelos destroços verbais.

Armadilha

Lula é um debatedor experiente, mas acabou enredado na armadilha verbal do adversário, cuja estratégia se concentrou em constrangê-lo com perguntas de natureza familiar. Em vez de desmontar as insinuações com inteligência, contundência e uma cobrança objetiva sobre o programa do oponente, o presidente aceitou a provocação e entrou no mesmo jogo. Poderia ter transformado a ofensiva em oportunidade para expor a pobreza de conteúdo da estratégia adversária. Preferiu disputar o terreno escolhido pelo rival.

Alimento

Flávio Bolsonaro, por sua vez, tampouco é um neófito na oratória. Depois de anos no Parlamento, conhece os atalhos da retórica política. Durante boa parte do debate, insistiu nos supostos problemas envolvendo o filho do presidente, como se a repetição de uma acusação fosse suficiente para substituir a apresentação de alternativas para o país. A insistência pode alimentar a militância, mas não necessariamente esclarece o eleitor.

Ofuscado

Houve, entretanto, um momento em que o debate cumpriu sua finalidade. Quando os candidatos discutiram segurança pública e saúde, foi possível perceber diferenças entre suas estratégias para enfrentar problemas concretos da administração pública. Ali estavam os elementos que justificam a existência desses encontros: divergências de visão, escolhas de gestão e caminhos distintos para atender à população. Pena que esse conteúdo tenha sido ofuscado pela pancadaria verbal dos outros blocos.

Ofensas

Debates são importantes não apenas para o eleitor, mas também para a democracia. O problema não está no confronto, e sim em uma fórmula que parece servir mais ao engajamento das bolhas nas redes sociais do que à conquista de votos. O candidato produz um corte viral, a militância celebra a humilhação do adversário e os algoritmos fazem a festa. A política, reduzida a espetáculo, transforma o argumento em acessório e a ofensa em mercadoria.

Convencimento

Há estimativas de que apenas 7% do eleitorado ainda esteja indeciso. Numa eleição polarizada, esse contingente pode fazer diferença. Mas, se depender do debate de domingo passado, dificilmente alguém poderá afirmar que esse eleitor encontrou elementos suficientes para rever sua escolha. A pancadaria mobiliza quem já tomou partido; convencer quem ainda hesita exige outro repertório.

Respostas

Nos próximos encontros, os candidatos poderão mudar suas estratégias, calibrar os ataques e ensaiar respostas mais elaboradas. Isso, porém, não garante uma mudança de postura. A beligerância contaminou a campanha e ameaça transformar cada debate em mais um capítulo de uma guerra em que os adversários se esforçam para destruir reputações, enquanto o país espera respostas. Ao final, o eleitor não precisa de gladiadores com microfones, mas de candidatos capazes de sustentar suas ideias diante de perguntas difíceis. A democracia não exige que os concorrentes sejam cordiais, tampouco que escondam suas divergências sob o verniz da educação.  No domingo vamos a eleição mais polarizada de todos os tempos com um resultado ainda imprevisível – embora o candidato do PL tenha vantagem, segundo as pesquisas.

Expectativa

Há uma enorme expectativa em Rondônia para que o governador eleito, Marcos Rogério, faça a diferença. Não se trata de uma cobrança prematura, mas da consequência direta de uma vitória eleitoral extraordinária. O eleitor não lhe entregou apenas o governo. Entregou-lhe um mandato de confiança para mudar o que não funciona, modernizar a máquina pública e demonstrar que competência e correção não são artigos de luxo na administração estadual.

Escolha

A expectativa, portanto, é proporcional ao tamanho da vitória. E é justamente por isso que os primeiros movimentos do governador eleito merecem atenção. Ao anunciar os integrantes da equipe de transição, Marcos prometeu privilegiar nomes técnicos. A escolha parecia sensata. Especialistas deveriam levantar a realidade financeira, administrativa e operacional do Estado, identificar os gargalos e oferecer ao futuro governador um diagnóstico sem maquiagem, sem conveniências partidárias e sem os conhecidos filtros dos bajuladores profissionais.

Exemplo

O problema é que, entre bons técnicos, apareceram também figuras carimbadas, sobreviventes de governos passados que parecem ter desenvolvido uma capacidade extraordinária de atravessar administrações sem deixar saudades proporcionais ao espaço que ocuparam. É o caso de Valter Silvano, ex-chefe de gabinete do governo José Bianco.

Influente

Um personagem cuja trajetória política sempre gravitou nas proximidades das sinecuras do poder e cuja passagem pelo Palácio foi marcada, segundo relatos e lembranças daquele período, por um temperamento pouco afeito à contestação e por uma postura arrogante diante de quem ousava contrariá-lo. Convém recordar o contexto. O governo Bianco entrou para a memória política de Rondônia também pela demissão de mais de dez mil servidores públicos, numa ofensiva que deixou marcas profundas na vida de milhares de famílias. Houve sofrimento, insegurança e relatos de adoecimento emocional entre trabalhadores atingidos pela medida. Naquele ambiente, Valter Silvano ocupava posição influente no entorno do governador.

Efeito

Não é pouca coisa. Tampouco é um detalhe que possa ser varrido para debaixo do tapete da transição. A ironia é quase literária. Marcos Rogério tem criticado adversários por disseminarem notícias falsas e espalharem terror entre os servidores públicos. Entretanto, ao montar sua equipe, abre espaço para alguém associado a um dos episódios mais traumáticos da relação entre o governo estadual e o funcionalismo. Se a intenção é tranquilizar os servidores, a escolha produz o efeito contrário: acende uma luz amarela onde se esperava encontrar um sinal de renovação.

Capacidade

O passado não condena automaticamente ninguém, mas também não pode ser tratado como um arquivo morto, sobretudo quando os personagens reaparecem nos corredores do poder com a pretensão de orientar o futuro. Quem participou de uma administração controversa pode, evidentemente, oferecer conhecimentos úteis. O que não se pode é confundir experiência com virtude, antiguidade com competência ou intimidade com o poder com capacidade de governar.

Orientação

Marcos Rogério pode ter propósitos legítimos e estar sinceramente convencido de que fará uma gestão diferente. Mas a vontade de mudar não basta quando se permite que velhos hábitos escolham o caminho. Governantes não fracassam apenas por suas próprias decisões. Às vezes, fracassam porque entregam os ouvidos a personagens que vivem de transformar ressentimentos pessoais em orientação administrativa.

Advertência

É aí que mora o perigo. Os que orbitam o poder costumam se apresentar como indispensáveis, embora sejam, muitas vezes, especialistas em sobreviver às próprias administrações que ajudaram a desgastar. Vendem fidelidade, oferecem atalhos e, quando encontram um governante disposto a ouvi-los sem filtros, começam a confundir a porta do gabinete com a entrada de um feudo particular. O novo governador precisa tomar cuidado para não importar para o presente os métodos que ajudaram a tornar o passado indigesto. A experiência do governo Bianco deveria servir de advertência, não de manual de instruções.

Expertise

É preciso reconhecer, contudo, que a comissão de transição reúne bons técnicos e nomes capazes de contribuir para um diagnóstico consistente da máquina pública. Não se trata de um grupo desprovido de qualificação, muito menos de um agrupamento formado exclusivamente por estafetas políticos. O próprio coordenador, Lúcio Mosquini, obteve uma votação expressiva para a Câmara Federal, figurando entre os deputados eleitos proporcionalmente mais bem votados do país. Engenheiro de formação, conhece a administração pública e dirigiu o DER durante anos na gestão Confúcio Moura, experiência que lhe confere familiaridade com a infraestrutura e os desafios logísticos de Rondônia.

Experiente

Outro nome que merece registro é Valdemar Camata Júnior, com passagem pela Fiero e pelo Sebrae. Economista e conhecedor das áreas de gestão, políticas públicas, meio ambiente e desenvolvimento industrial, também participou da elaboração de parte do plano de governo de Marcos Rocha. É um profissional cuja experiência pode contribuir para separar os problemas reais do Estado das narrativas convenientes de quem pretende apenas preservar espaços.

Lista

Ainda figuram na lista os advogados eleitoralistas Juacy Loura Jr., de qualificação inquestionável, e seu colega Silas Queiroz, homem da confiança do senador. Soma-se a eles a jornalista Ludmila Lucas Tavares, de posições firmes e que há tempos assessora o governador eleito. É também a jornalista da campanha com quem este cabeça-chata já teve suas divergências, mas divergências não apagam méritos. Reconhecer sua competência é, acima de tudo, fazer justiça ao profissionalismo, independentemente das diferenças pessoais. Se tivermos que eventualmente de bater cabeça de novo nada impedirá que ocorra porque estou velho demais para adular poderosos.

Diferença

Afinal, quem vence com a força de uma votação histórica não pode começar o governo olhando pelo retrovisor. Rondônia votou por uma nova estrada, não por uma excursão aos escombros de um governo derrotado. O eleitor abriu a porta da mudança; cabe ao governador eleito corresponder as expectativas. E  tem tudo para fazer a diferença.

Investigação

A abertura de procedimento investigatório pelo TCE sobre aplicações atípicas do Instituto de Previdência de Ji-Paraná acende um alerta sobre a gestão dos recursos previdenciários. Embora ainda não sejam conhecidos os parâmetros das operações, o caso remete ao escândalo do Banco Master, que expôs os riscos de investimentos suspeitos e causou enormes prejuízos a institutos de previdência. Em Rondônia, o Iperon também chegou a discutir internamente operações dessa natureza, que não se concretizaram, apesar de haver defensores da proposta.

Nebuloso

Gravações divulgadas pela imprensa nacional revelaram conversas entre políticos e representantes do banco, cujas circunstâncias ainda precisam ser esclarecidas. Ao não avançar nessas operações, a previdência estadual pode ter evitado um grave prejuízo. Agora, o caso de Ji-Paraná exige apuração rigorosa, transparência e responsabilidade, para que os recursos destinados à aposentadoria dos servidores não sejam expostos a riscos indevidos.

Extremismo

A manifestação da filha do senador Jaime Bagattoli, ao declarar nas redes sociais sua preferência por Lula, provocou um verdadeiro furor entre bolsonaristas rondonienses. O episódio chama a atenção pela posição política do pai, um dos parlamentares mais próximos de Jair Bolsonaro.

Significado

A jovem, contudo, tem todo o direito de expressar suas opiniões e escolher livremente em quem votar. Democracia pressupõe liberdade de consciência, inclusive dentro da própria família. A reação da bolha bolsonarista revela como o pensamento divergente ainda incomoda os setores mais radicalizados. Curiosamente, quando o extremismo político marca a trajetória paterna, a opção contrária da filha ganha ainda mais significado.

Periodicidade

Conforme anunciamos em agosto, quando passamos a publicar três colunas semanais de Resenha Política, em razão do período eleitoral, que exigia mais espaço para a quantidade de informações que jorram de uma campanha estadual, voltamos, a partir desta semana, a publicar duas vezes por semana, às terças e quintas-feiras. A mudança evita o preenchimento de espaço com informações de pouca relevância e nos obriga a redobrar o profissionalismo, priorizando a qualidade, a análise e o conteúdo que realmente importa ao leitor.


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