PORTO VELHO – Eu vinha distraído, como sempre, pela Rua Vinicius de Moraes, em Ipanema, porque agora o Poetinha tem rua, tem estátua, tem bar com seu nome, tem tudo, quando dei de cara com ele. De camisa aberta, copo na mão, aquele sorriso meio moleque, meio santo. Humberto? ele disse, como se me conhecesse desde o jardim da infância. Vinicius! eu gaguejei. Mas você… você não tinha morrido em 1980?
Ele riu. Aquele riso que já veio com trilha sonora do Toquinho ao fundo.
Morri nada, meu filho. Tirei uma licença. 46 anos de licença. Mas hoje é 19 de outubro. Hoje eu faço 113 anos. Achei que merecia voltar para tomar um último uísque na minha rua.
E sentamos. Na calçada mesmo. Porque com Vinicius não tem formalidade.

Eu, jornalista do interior de Rondônia que aprendeu a amar o Rio pelos versos dele, comecei a despejar perguntas como fã. Falei de Garota de Ipanema, que ele fez com o Tom Jobim olhando a Helô passando. Ele me corrigiu:
Não foi só olhar, Humberto. Foi ver o Rio inteiro passar numa menina. O Tom botou o mar, eu botei o suspiro.
Falamos de Chega de Saudade, o marco zero da Bossa Nova. Falamos da Arca de Noé, que meus filhos cantaram antes de aprender a ler. Ele ficou todo bobo quando lembrei de O Pato e A Casa.
Aí o papo ficou sério, ficou bonito. Ele começou a chamar os amigos pelo nome, como quem chama garçom.
O Jorge Amado, lembra? Baiano como eu sou carioca. Me dizia que amor tem que ter dendê. O Rubem Braga, meu irmão de crônica, me ensinou que uma rua vazia vale um poema. O Pablo Neruda, chileno arretado, brindava comigo e dizia que o amor é eterno enquanto dura e eu roubei isso dele, confesso!
Ele tomou um gole e continuou.
O Orson Welles veio ao Brasil filmar e me achou. Queria fazer cinema com samba. Eu queria fazer samba com cinema. Não deu certo, mas demos muita risada. O Pixinguinha… ah, o Pixinguinha! Me deu o Lamento e me disse: bota letra nisso, Poetinha. E eu botei. Foi minha primeira benção de preto velho da música.
Quando falei de Baden Powell, ele se iluminou.
O Baden! Meu parceiro de violão e de cachaça. Fizemos Samba da Benção, Berimbau, Canto de Ossanha. Ele tocava como se rezasse. O Carlos Lyra me trouxe a juventude, o Edu Lobo me trouxe o norte, o Chico… ele fez uma pausa, o Chico Buarque é o filho que eu não tive. Me deu a Valsinha de presente e eu dei a ele o meu jeito torto de amar demais.

E o Toquinho?
O Toquinho é meu último elo com a terra. Menino que virou meu violão. Fizemos A Mulher, o Amor, o Sorriso e a Flor, aquele box lindo da Philips de 1980, que você vive garimpando nos sebos. Quatro LPs. Mulher, Amor, Sorriso, Flor. Eu sempre achei que a vida cabe nisso.
Eu estava apaixonado. Completamente apaixonado pelo meu entrevistado impossível. Eu, Humberto, de Porto Velho, trocando confidências com Vinicius de Moraes na rua que leva o nome dele, no dia em que ele faria 113 anos.
De repente ele olhou para o céu de Ipanema, já meio roxo de fim de tarde.
Tenho que ir, Humberto. Está na hora do ensaio.
Ensaio?
É. Lá em cima os anjos são desafinados. Tom me espera com o piano, Baden com o violão, Pixinguinha com a flauta. A gente vai ensaiar A Felicidade para cantar hoje à noite. 113 anos não se faz todo dia.
Ele tomou o último gole. O último mesmo. Bateu o copo na mesa, me deu um abraço de pai, um cheiro forte de perfume barato e poesia cara.
Escreve aí, jornalista. Diz que eu não morri. Diz que eu só mudei de endereço. Antes eu morava em Ipanema. Agora moro em cada verso que alguém cantarola sem querer, no chuveiro.
E bateu asas. Juro que bateu asas. Não eram asas de anjo certinho. Eram asas de pássaro meio bêbado, meio poeta, que subiu torto, rindo, em direção ao Corcovado.
Fiquei ali, sozinho, na Rua Vinicius de Moraes. O garçom veio cobrar a conta.
Foram dois uísques, senhor.
Foram 113 anos de poesia, meu amigo, eu respondi. E pode deixar que o Poetinha paga. Ele sempre paga.
Com canções.
*É jornalista, cinéfilo e poeta diletante






