
PORTO VELHO – O governo federal, com base nos dados do Novo Caged, comemora que, em junho, o mercado formal de trabalho registrou saldo de 145.161 postos, acumulando 921.645 novos empregos no primeiro semestre – crescimento de 1,96%. Nos últimos 12 meses (julho de 2025 a junho de 2026), o aumento chega a 963.921 novos postos, alta de 2,1% no período. Mas o que esses números representam, de fato?
É preciso lembrar que o Caged contabiliza exclusivamente vínculos CLT (carteira assinada). Sim, quase 1 milhão de postos formais em 12 meses é um número robusto – mas três ressalvas são indispensáveis:
- Rotatividade alta: o saldo líquido esconde que muitos postos foram destruídos e recriados. O resultado positivo pode refletir mais substituição em setores de baixa remuneração do que expansão genuína da economia.
- Salário médio de admissão: historicamente, o salário do novo emprego formal fica abaixo do salário de quem foi desligado- repõe-se gente, mas pagando menos.
- Setores que puxam o saldo: serviços e construção costumam liderar as contratações, mas não necessariamente oferecem empregos de qualidade ou estabilidade.
Ter saldo positivo é sempre melhor do que negativo — isso é fato. Mas a qualidade do emprego gerado importa tanto quanto a quantidade.
O que o Caged não mede
Há um ponto que escapa completamente ao escopo do Caged: os MEIs (Microempreendedores Individuais) já representam 78% das novas empresas abertas no país. E, ao comparar diferentes períodos, um dado chama atenção: 60% dos novos MEIs em 2024 eram empregados CLT antes de migrar. Em 2013, esse percentual era de 41%.
Isso não é exatamente “empreendedorismo”. É pejotização – a transformação do trabalhador em pessoa jurídica-, que ocorre por três caminhos principais:
- A empresa demite e recontrata como PJ;
- O trabalhador pede demissão e vira MEI para prestar serviço;
- O desemprego força a abertura de um MEI como forma de sobrevivência.
Em muitos casos, o MEI funciona como tábua de salvação, não como projeto de vida.
Os sintomas que os números não capturam
O governo- como todo governo- tende a alardear o que lhe favorece. Mas qual é a realidade concreta do emprego e dos pequenos negócios? Há sintomas visíveis nas ruas que a pesquisa formal ainda não capta com precisão:
- Alta oferta de imóveis para alugar – reflexo de inadimplência, encolhimento familiar e fechamento de pontos comerciais;
- Comércio físico fechando as portas – pressionado pelo custo elevado do dinheiro, pela inflação e pela concorrência de marketplaces e e-commerce;
- Mortalidade elevada de empresas– em 2025, 2.798.633 empresas encerraram suas atividades no Brasil. Levantamento da EmpresAqui mostra que, apenas no 1º trimestre de 2026, 1,6 milhão de empresas foram abertas, mas 6% delas já fecharam em apenas três meses.
A substituição silenciosa
O Brasil atravessa um ciclo em que os agregados macroeconômicos (PIB, emprego formal) mostram sinais positivos, mas a experiência microeconômica- renda disponível, capacidade de poupança, segurança financeira- piorou para a maioria da população.
O que os dados revelam não é uma contradição, mas uma substituição silenciosa: empregos CLT de qualidade mediana estão sendo trocados por MEIs de renda incerta e proteção social reduzida. Como o MEI não entra no Caged, o saldo de empregos formais pode até melhorar enquanto a qualidade do trabalho se deteriora- porque o trabalhador precarizado simplesmente desaparece da estatística.

O termo “empreendedorismo forçado” corresponde exatamente ao que os economistas chamam de necessity-driven entrepreneurship– conceito bem documentado na literatura: quando a economia não gera empregos suficientes de qualidade, as pessoas empreendem não por oportunidade, mas por falta de alternativa.
O que fica para as pessoas comuns
Para o cidadão comum, a fotografia macroeconômica é melhor do que em 2020, no auge da pandemia- mas o filme do dia a dia, feito de boletos, aluguel, supermercado e crédito, continua rodando em dificuldade. O “emprego formal” que cresce é, em parte, estatística; o “empreendedorismo” que cresce é, em parte, desespero.
Não se trata de negar os números, mas de lê-los com o cuidado que exigem. O diabo- ou a verdade- está exatamente na interseção entre o Caged, o Sebrae, a EmpresAqui e a realidade factual que as cidades e os supermercados exibem em forma de preços e de qualidade de vida.
*É economista, poeta, escritor e professor universitário









