O Brasil não é pobre – Plínio Cesar Coêlho*

A 10ª maior economia do planeta convive com um dos mais elevados níveis de concentração de renda e patrimônio do mundo

Plínio Cesar Coêlho*

MANAUS – Quando se fala em pobreza no Brasil, costuma-se atribuir os problemas sociais do país à suposta falta de riqueza nacional. Essa explicação, embora intuitiva, não resiste a uma análise dos números. O Brasil não é um país pobre. O Brasil é uma das maiores economias do mundo. O que o distingue negativamente não é a escassez de riqueza, mas a extraordinária concentração dessa riqueza nas mãos de uma parcela reduzida da população.

Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro supera os US$ 2 trilhões anuais, posicionando o país entre a nona e a décima maior economia do planeta. Em um universo de aproximadamente 190 países, isso significa que o Brasil está entre os 5% mais ricos do mundo em capacidade de geração de riqueza.

Não se trata de um feito trivial. O Brasil figura entre os maiores produtores mundiais de alimentos, possui um dos maiores parques industriais do Hemisfério Sul, detém vastas reservas minerais, é uma potência energética e dispõe de um dos maiores mercados consumidores do planeta. Poucas nações possuem uma combinação tão ampla de recursos naturais, capacidade produtiva e dimensão econômica.

Entretanto, quando a análise deixa de observar a riqueza produzida e passa a examinar a forma como ela é distribuída, o cenário muda radicalmente.

De acordo com o Banco Mundial, o coeficiente de Gini brasileiro permanece historicamente entre 0,50 e 0,53. O coeficiente de Gini é o principal indicador utilizado para medir a desigualdade de renda. Seu valor varia entre 0 e 1. Quanto mais próximo de zero, mais igualitária é a sociedade. Quanto mais próximo de um, maior é a concentração da renda. Com índices superiores a 0,50, o Brasil figura de maneira recorrente entre os países mais desiguais do mundo.

Mas os números da desigualdade brasileira tornam-se ainda mais impressionantes quando se observa a distribuição da renda por estratos sociais.

Estudos do World Inequality Lab demonstram que os 10% mais ricos da população brasileira apropriam-se de aproximadamente 59% de toda a renda nacional. Mais significativo ainda é o fato de que apenas 1% dos brasileiros concentra cerca de 25% de toda a renda gerada no país.

Em sentido oposto, os 50% mais pobres da população ficam com apenas cerca de 10% da renda nacional.

Em outras palavras, metade da população brasileira divide uma parcela da renda inferior àquela apropriada por apenas 1% dos habitantes do país.

A desigualdade torna-se ainda mais severa quando a análise recai sobre a riqueza acumulada. Enquanto a renda corresponde ao fluxo de recursos recebidos ao longo do tempo, a riqueza refere-se ao estoque de patrimônio já acumulado: imóveis, terras, empresas, ações, aplicações financeiras e outros ativos.

Relatórios globais de riqueza elaborados pelo banco suíço UBS Group AG, uma das maiores instituições financeiras e gestoras de patrimônio do mundo, indicam que o índice de Gini patrimonial brasileiro alcança aproximadamente 0,86, um dos mais elevados do planeta. Estimativas internacionais apontam que o 1% mais rico controla algo próximo de metade de toda a riqueza privada existente no Brasil.

Esses números ajudam a compreender por que o crescimento econômico, por si só, nem sempre se traduz em melhoria proporcional das condições de vida da maioria da população. Quando a riqueza gerada concentra-se excessivamente no topo da pirâmide social, seus benefícios tendem a não alcançar a sociedade de forma equilibrada.

A comparação internacional reforça essa constatação. Países como Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca apresentam coeficientes de Gini situados entre 0,25 e 0,30. Embora não sejam sociedades perfeitamente iguais, possuem mecanismos econômicos e institucionais que reduzem significativamente a concentração de renda.

O Brasil, por outro lado, permanece mais próximo dos padrões observados em países historicamente marcados por profundas desigualdades sociais, como a África do Sul e a Namíbia.

Esse contraste revela o verdadeiro paradoxo brasileiro. O país ocupa posição de destaque entre as maiores economias do mundo, mas também figura entre os líderes globais em concentração de renda e patrimônio.

Diante desses fatos, talvez seja necessário reformular uma das perguntas mais frequentes do debate nacional. A questão não é por que o Brasil é pobre. A questão é por que uma das maiores economias do planeta continua convivendo com níveis de desigualdade tão elevados.

O Brasil gera riqueza em escala suficiente para ocupar um lugar entre as maiores economias do mundo. O desafio histórico continua sendo transformar essa riqueza em prosperidade compartilhada.

Enquanto isso não ocorrer, continuaremos carregando uma contradição difícil de justificar: a de sermos simultaneamente uma potência econômica e uma das sociedades mais desiguais do planeta.

 economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.


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