Xô solidão! Por: Alice Thomaz*

Cada um procura a sua própria receita para se livrar da solidão. Fazer atividades em grupo com pessoas da mesma faixa etária pode ser um caminho

Alice Thomaz*

PORTO VELHO – “Solidão, dá um tempo e vai saindo …” versos compostos por Carlos Colla e Chico Roque nos anos 80 e que conquistou grande sucesso, a partir de 1986, é um verdadeiro Xô Solidão! Vivemos um tempo em que muita gente jovem está fazendo da solidão sua melhor aliada, escondendo-se da vida e dos problemas comuns a ela, ocultando-se em quartos escuros. Mas se por um lado é assim, é certo que a solidão em determinados momentos da vida fez ou faz de nós seu refém, que o diga a turma que passou dos sessenta.

Porém, é muito comum acharmos que todos os idosos são solitários. Ou tristes, quem sabe? Mas tem uma moçada vivendo aqui entre nós que não entrega os pontos, não quer ser infeliz, não quer ser solitário e se esforça para viver cada dia melhor.

Há cerca de dois anos conheci idosos maiores de 80 anos e que corriam atrás de um sonho, às vezes até com mais disposição do que muitos jovens que conhecemos. Naquela ocasião dona Terezinha de Jesus Silva estava com 84 anos e contava que sua maior alegria era estar em companhia dos filhos e ser levada por eles para um passeio, não importava o lugar, que fosse na casa de um familiar, amigo ou a uma pracinha próxima. E a segunda maior satisfação, até então, era participar das atividades proporcionadas pelo Centro de Convivência do Idoso, uma instituição mantida pelo município e que reúne idosos, em sua maioria, oriundos da zona leste da capital. Cantar no coral, participar da hidroginástica, conversar com outros idosos tornavam seus dias melhores.

Antônio Teixeira, um cearense de 82 anos que sustentou a família como pintor de automóvel, é outro que não dá trégua para a solidão. “Enquanto eu puder vou vir aqui no CCI”. No Centro, além dos amigos para conversar, tem a mesa de sinuca. “Já joguei muito, hoje só brinco mesmo, todo mundo se diverte quando a bola entra na caçapa”.

Mas nem todo mundo tem a mesma “sorte”.  Dona Elza tem 77 anos. É servidora pública aposentada e por mais que tente não consegue se desvencilhar da solidão. Faço várias atividades, inclusive terapia, me esforço muito, mas estou sempre só, mesmo que tenha uma pequena multidão ao meu redor”.  Aos 77 anos ela já viveu dois relacionamentos, do primeiro teve seis filhos e todos já se foram. Minha filha morreu este ano e eu me vi completamente desamparada. O segundo casamento não durou quase nada, mas a esperança dela é grande. “Eu acho que preciso de um companheiro, não sei se vou conseguir, mas acho que é a única maneira de não me sentir tão só”.

Cada um procura a sua própria receita para se livrar da solidão. Fazer atividades em grupo com pessoas da mesma faixa etária pode ser um caminho. A professora de dança e coreógrafa Joyse Cunha atua com grupos de idosos, levando os a prática da dança como forma de expressão e os auxilia no trabalho da coordenação motora. Além disso, ela ajuda os alunos  no despertamento do sistema cognitivo. Para ela, no caso específico da dança, conviver e ensinar aos mais velhos lhe proporciona um rejuvenescimento diário.  – As pessoas chegam aqui sérias, tensas e quando iniciam as atividades extravasam, se transformam e deixam transparecer quem elas realmente são –, destaca.

As alunas que o digam: Val tem 67 anos e Carmen 68. Ambas são participantes da classe de Fit Dance, elas dizem que não dão oportunidade para a solidão se manifestar. E cada uma a sua maneira, segue trabalhando o tempo todo para estar de bem com a vida. As amigas concordam entre si e dizem que mesmo quando estão sós, não se sentem vazias ou abandonadas.

É dar um chega pra lá neste sentimento que pode ser tão nefasto e dizer para ele com todas as letras “… dá um tempo e vai saindo, de repente eu estou sentindo que você vai se dar mal …”

*É Jornalista - Whatsapp 69 99250 8544


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