Toda nudez será castigada faz parte do legado cinematográfico de Arnaldo Jabor

Humberto Oliveira*

PORTO VELHO (15-02) – A obra teatral do dramaturgo Nelson Rodrigues teve inúmeras adaptações para o cinema. Muitas meros caça níqueis, porque nem todo cineasta entendeu o universo do autor e entregou ao público tão somente a parte dita pornográfica de obras como Os Sete Gatinhos ou A Dama do lotação, do superestimado Neville de Almeida. No entanto, existem sim ótimas adaptações cinematográficas baseadas em peças de Nelson Rodrigues. Por exemplo, Boca de Ouro, a primeira versão dirigida por Nelson Pereira dos Santos e brilhantemente interpretado por Jece Valadão. Outros cineastas até tentaram, mas apenas o grande e saudoso Nelson Pereira dos Santos conseguiu. Claro, estou me referindo a Boca de Ouro.

O cineasta, jornalista e pensador Arnaldo Jabor, que faleceu hoje, 15 de fevereiro, é um dos poucos a merecer figurar junto com Nelson Pereira dos Santos no hall dos melhores adaptadores do universo rodriguiano para o cinema. Jabor, há muito tempo sem filmar, realizou a obra prima Toda nudez será castigada. Estrelada por Darlene Glória, perfeita em sua interpretação da prostituta Geni, figura trágica e central da peça de Nelson Rodrigues. Paulo Porto, sempre correto, é o viúvo Herculano, amante de Geni com quem acaba casando. Tem o impagável e onipresente – pelo menos nos longas metragens produzidos nos anos 1970 e 80, Paulo César Pereio, o cunhado manipulador de Herculano e responsável por puxar o fio inevitável da tragédia inevitável.

A peça enquadrada nas chamadas Tragédias Cariocas, conforme o Sábato Magaldi, estudioso e maior conhecedor da obra do dramaturgo, tanto a peça escrita em 1965, quanto o longa lançado em 1973, Toda Nudez Será Castigada falam sobre a estreita ligação entre o puritanismo e a sexualidade exacerbada, através de um humor cheio de contundência e de um senso trágico transparente. São personagens complexos, traduzidos com maestria pela prosa de Nelson Rodrigues e que Arnaldo Jabor soube traduzir para a tela grande, com mestria e sem apelação.

Jabor fez parte do Cinena Novo juntamente com Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman – que adaptou em 1965, A Falecida, outra peça de Nelson Rodrigues, David Neves, Glauber Rocha, Ruy Guerra e Cacá Diegues, os dois últimos remanescentes do grupo. Glauber também pensou adaptar uma peça de Nelson Rodrigues. A mítica Senhora dos Afogados, mas desistiu por conta da complexidade da história e do texto polêmico. Jabor voltaria a mergulhar no mundo e das personagens de Nelson, com a realização de O Casamento, primeiro romance escrito e lançado pelo dramaturgo. Sem, no entanto, alçar o mesmo voo criativo de ‘Toda nudez será castigada’, sem dúvida o seu melhor trabalho como cineasta e roteirista.

*É jornalista de formação e atuante e cinéfilo diletante



+ DESTAQUES






+ Notícias




+ NOTÍCIAS

+ NOTÍCIAS

Fale conosco pelo WhatsApp!
Pular para a barra de ferramentas