Reeleição de Lula derruba real e Bolsa, e mercado aciona freio de segurança
Dólar dispara, Bovespa interrompe negociações por 30 minutos e Tesouro cancela leilões após vitória do petista; recusa de Bolsonaro em reconhecer o resultado amplia a tensão
O resultado do segundo turno, que garantiu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), provocou nesta segunda-feira (26) um dos dias mais turbulentos da história recente do mercado financeiro brasileiro. Na abertura do pregão, o real chegou a perder quase 12% frente ao dólar, uma das maiores quedas diárias já registradas pela moeda, e os contratos futuros do Ibovespa recuaram perto de 15%.
A B3 chegou a ampliar os limites diários de oscilação dos contratos futuros de Ibovespa, dólar e juros para acomodar a volatilidade. Mesmo assim, o Ibovespa caiu 10% em relação ao fechamento anterior, o que acionou o mecanismo de circuit breaker e suspendeu as negociações por 30 minutos, segundo comunicado da bolsa.
Dívida e risco-país
O estresse chegou à dívida pública. Os títulos de vencimento mais longo foram os mais castigados, e o papel com vencimento em 2056 perdeu cerca de 2,5 centavos no preço. Os contratos futuros de juros também indicaram piora nas expectativas.
O custo para se proteger de um calote brasileiro subiu. Os CDS de cinco anos, espécie de seguro contra inadimplência soberana, avançaram de 120,21 para 151,67 pontos-base, de acordo com a S&P Global Market Intelligence. Diante do cenário, o Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos indexados à inflação e de taxa prefixada, marcados para os dias 27 e 29 de outubro. O açúcar bruto, produto de peso na pauta exportadora do país, recuou quase 5% com a desvalorização do câmbio.
Euforia revertida
O tombo desfez o otimismo que dominou o mercado nas últimas semanas. Após o primeiro turno, o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ficou inesperadamente em primeiro lugar, e os investidores passaram a apostar numa guinada à direita e em uma política fiscal mais dura, o que abriria espaço para juros menores.
Na sexta-feira, o Ibovespa fechou quase 7% acima do patamar anterior ao primeiro turno, e o real acumulava valorização próxima de 5% frente ao dólar. Plataformas de apostas sobre eleições também indicavam favoritismo do candidato da oposição: a Kalshi atribuía mais de 75% de chance de vitória a Bolsonaro.
Incerteza política
Às perdas se somou a incerteza política. O senador Flávio Bolsonaro se recusou a reconhecer a derrota e prometeu buscar a anulação do resultado. Para Chris Turner, estrategista do ING em Londres, será decisivo para os mercados o tempo que ele levará para aceitar o resultado ou, ao menos, deixar que a Constituição siga seu curso.
O que vem pela frente
As atenções se voltam agora para o futuro ministro da Fazenda, cuja escolha deve ser anunciada nas próximas semanas. Para Graham Stock, da RBC BlueBay Asset Management, o nome será o primeiro sinal do compromisso do novo governo com a disciplina fiscal.
A equipe de Lula trabalha com a meta de produzir superávit de cerca de 1,3% do PIB até 2030. Parte dos investidores duvida que isso baste. Thierry Larose, da Vontobel, avalia que o governo terá de fazer algum ajuste, mas que a maioria dos gestores considera improvável que ele seja suficiente para estabilizar a dívida. Divya Singaravelu, da Meridian 1305 Capital, lembra que Lula falou em cortar gastos sem detalhar como.
Alejo Czerwonko, da UBS Global Wealth Management, espera que a euforia pós-primeiro turno seja totalmente revertida e que o humor do mercado siga fraco até que surja um plano fiscal claro e crível. Sem essa sinalização, dizem os analistas, os credores podem exigir juros mais altos, o que encareceria o crédito para empresas e famílias.






