Montezuma Cruz: Uma homenagem e muitas histórias

PORTO VELHO — A história do jornalismo rondoniense marca várias figuras fascinantes. Temos aí uma turma que chegou ainda nos anos 70, quando o então território começava a ser preparado para virar estado. Nomes como Lúcio Albuquerque e Montezuma Cruz aportaram aqui com uma missão: relatar para todo o Brasil o que estava acontecendo em parte do norte brasileiro. Ambos chegaram a Rondônia como correspondentes de jornais paulistas. Os dois também foram alvos de homenagens do Ministério Público.

Lúcio foi homenageado em 2023. Montezuma Cruz foi inserido na galeria do MP no final do mês passado. O título honroso foi entregue na solenidade do 14º Prêmio MPRO de Jornalismo. Monte, como é chamado por alguns, chegou a Rondônia em 1976 como correspondente do jornal Folha de São Paulo, e como bom repórter que é, veio de ônibus para sentir a adrenalina dos transtornos da viagem. A BR-364 estava então em processo de asfaltamento a partir de Cuiabá, mas somente cerca de sete anos depois o asfalto chegou a Porto Velho.

A carreira do eterno repórter começou aos 16 anos, primeiro vendendo jornal para o pai, que era distribuidor do jornal O Estado de São Paulo na cidade de Teodoro Sampaio, interior de São Paulo e lhe pagava um salário de 15 cruzeiros. Para aprender o ofício de repórter, o pai de Monte pagou-lhe um curso por correspondência no Instituo Técnico Profissional do Rio de Janeiro. “Eu fazia as lições e eles devolviam com correções e anotações, tudo pelos Correios”. Tratava-se de um curso de jornalismo inédito, até então. No ano seguinte ele já estava frequentando as rádios e jornais de Presidente Prudente, para praticar as lições aprendidas. Conta que amava a atividade, iniciada timidamente em Teodoro Sampaio nos serviços de alto falantes da cidade.

Nas rádios Comercial e Piratininga e nos jornais Correio Sorocabana e A Região, todos em Presidente Prudente, procurava fazer de cada profissional, com quem tinha a oportunidade de trabalhar, um professor. Na mesma época fez também uma incursão na tipografia, ajudando na montagem de títulos e manchetes.

O faro jornalístico já estava aflorando no jovem repórter, que agora estava na cidade de Bernardino de Campos, onde escreveu uma matéria sobre a má gestão do governo, que mantinha fechado um armazém do Instituto Brasileiro do Café (IBC). O galpão que tinha 17 mil metros quadrados e capacidade suficiente para armazenar a produção de café de praticamente toda região do interior paulista estava vazio. O texto foi escrito no jornal estudantil Nosso Tempo, mas foi parar nas mãos do correspondente do Estado de São Paulo, José Rodrigues, que se interessou pela matéria, publicou-a no Estadão e abriu as portas para o mais novo correspondente, que aos 17 anos tinha suas matérias publicadas nas páginas de economia ao lado de outras de repercussão até internacional.

Mas o desejo de continuar crescendo levou o repórter para Campo Grande, como correspondente da Folha de São Paulo e agora repórter do Correio do Estado, onde por mais de um ano atuou na editoria de polícia. Também percorria com certa frequência cidades com fronteiras com a Bolívia e Paraguai, denunciando acordos que não eram cumpridos, como em Corumbá, no caso em que o governo boliviano tentou impedir a entrada de uma grande carga de veículos fabricados no Brasil, alegando desacordo com a legislação tributária. “Nessa ocasião fizemos uma grande cobertura que repercutiu em todo o país”, lembra, entre muitas outras pautas notáveis.

Dois anos mais tarde foi o tempo de Rondônia receber o repórter Montezuma Cruz. Que teve a oportunidade de ver a implantação do Centro de Triagem de Migrantes em Vilhena, que registrava a chegada de todos migrantes vindos por terra para o promissor Eldorado. Ainda nos anos, conta que pôde noticiar para o Brasil a chegada dos primeiros recursos da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), do Polo Amazônia e do Polonoroeste, programas do governo federal para o desenvolvimento do futuro estado, recursos estes para abertura de estradas, demarcação de terras indígenas e outros projetos.

De 1976 até agora muita coisa mudou. Montezuma hoje está com 72 anos. Passou uma longa temporada fora de Rondônia, mas envolvido por laços familiares e de amizade sempre voltava e já está por aqui faz um bom tempo. A mente continua ágil e curiosa. Lembra com clareza de detalhes de dezenas de reportagens que fez, de pessoas ilustres e de cidadãos comuns que entrevistou.

Continua interessado em pesquisas em áreas indígenas, rurais e de produção de minério. E diz que de vez em quando descobre alguma situação que carece de divulgação e cita como exemplo a existência de uma certa empresa canadense que está aproveitando terras raras do garimpo do Bom Futuro, na região de Ariquemes. “Terras raras é um assunto do mundo todo, menos da nossa mídia em Rondônia”, se queixa. Ele explica que no caso de Bom Futuro, são restos de garimpagem, onde há a presença de minerais estratégicos como a columbita e a tantalita, usados na fabricação de eletrônicos e fonte de nióbio. “A empresa leva embora esse material e ninguém sabe qual a avaliação da extração desses restos de minerais. O governo não divulga, parece que é segredo de estado”, sugere o guardião da informação.

A homenagem que recebeu do Ministério Público renovou o animo do jornalista que já tem cinco livros publicados e planeja continuar investindo no mercado editorial. A inquietação desse profissional com mais de 50 anos de atuação é uma inspiração para outros jornalistas, como Veronilda Lima, que lembra a dedicação de Montezuma na Secretaria de Comunicação do Estado, onde foram colegas.



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