Médico acusado de morte de menino de 5 anos por viajar durante o plantão vai a julgamento no interior de SP

Luciano Barboza Sampaio estava em um jogo da Seleção Brasileira de Futebol e responde por homicídio qualificado em São Carlos. Audiência estava marcada para 30 de abril, mas foi remarcada faltando uma semana para ser realizada

Noah Alexandre Palermo morreu em junho na Santa Casa de São Carlos — Foto: Reprodução/EPTV

O médico Luciano Barboza Sampaio vai a júri popular nesta segunda-feira (3), no Fórum de São Carlos (SP). Ele é acusado da morte de Noah Alexandre Palermo, de 5 anos, por ter saído da cidade, onde estava de plantão, para assistir a jogo da seleção de futebol às vésperas da Copa de 2014.

A audiência está marcada para as 9h. O julgamento deveria ter sido realizado em 30 de abril, mas foi adiado a pedido da defesa, que alegou que o advogado do réu estava com dengue.

Sampaio, que é cirurgião pediátrico, é acusado de homicídio qualificado. Em 6 de junho de 2014, após realizar uma cirurgia em Noah para a retirada do apêndice, na Santa Casa da cidade, ele teria viajado enquanto deveria estar de plantão à distância. Segundo o inquérito policial, com a atitude, ele, assumiu o risco da morte da criança e deixou de prestar atendimento quando o garoto teve complicações no dia seguinte à operação.

A defesa da família conseguiu provas de que o médico estaria assistindo um jogo da seleção de futebol em São Paulo. Uma foto do réu na partida foi anexada ao processo.

Nesta segunda-feira, devem ser ouvidas oito testemunhas – cinco de defesa e três de acusação.

1º julgamento

Fórum Criminal de São Carlos — Foto: Ana Marin/g1

Em novembro de 2018, o juiz Eduardo Cebrian Araújo Reis, da 2ª Vara Criminal de São Carlos, absolveu o médico das acusações.

A decisão foi questionada pelo Ministério Público, que entrou com o recurso no Tribunal de Justiça e, em 2022, foi determinado que Sampaio fosse a júri popular.

Se for condenado, Sampaio poderá pegar uma pena que varia de 12 a 30 anos de prisão.

O g1 procurou a defesa do médico, mas não obteve retorno até a última atualização da reportagem.

Condenado pelo Cremesp

Luciano Barboza Sampaio foi condenado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e teve a suspensão do exercício profissional por 30 dias.

De acordo com a decisão do órgão, o médico se precipitou ao fazer a cirurgia de apendicite em Noah, já que o quadro clínico não era compatível com o procedimento.

O Cremesp entendeu ainda que Sampaio errou ao ignorar as ligações das enfermeiras do hospital e também de um médico da Santa Casa.

Pai acredita na condenação

Marcos Antônio Palermo — Foto: Reprodução/EPTV

Para o pai de Noah e ex-secretário municipal de Saúde, Marcos Palermo, o julgamento ocorrer dez anos após a morte de seu filho mostra a vulnerabilidade da Justiça, mas acaba com o sentimento de impunidade.

“São 10 anos que nós lutamos por essa causa, uma verdadeira aberração que aconteceu com o nosso filho, desde que ele pisou no hospital e foi atendido pelo réu que, na verdade operou nosso filho por achismo como o próprio Conselho de Medicina o julgou. Foram varias etapas do processo, muitos recursos, que a lei permite e vencemos em todas as instâncias e foi apontado o júri. Isso não deixa uma página virada, mas pelo menos dá o sentimento da não impunidade”, afirmou.

Ele confia na punição do médico por acreditar que a sociedade não quer conviver com profissionais que não cumprem suas funções.

“A sociedade não admite que um médico escalado para o plantão deixe o hospital para assistir um jogo de futebol há mais de 200 quilômetros da nossa cidade. Nós acreditamos que ele seja condenado e que a pena seja um exemplo para todos os profissionais que não exercem suas funções e para os médicos que saibam que eles são responsáveis pelos pacientes por cuidar e salvar.”

Entenda o caso

Noah Alexandre Palermo morreu no dia 7 de junho de 2014 na Santa Casa de São Carlos — Foto: Reprodução/EPTV

Noah Palermo morreu aos 5 anos de idade na madrugada de 7 de junho de 2014, em decorrência de complicações de uma cirurgia para retirar o apêndice realizada um dia antes.

Em 4 de junho, o menino foi internado na Santa Casa com febre e foi atendido pelo cirurgião pediátrico Luciano Barboza Sampaio. No dia seguinte, o médico fez uma operação para retirada do apêndice.

No dia seguinte à cirurgia, o menino acordou com acordou com fortes dores abdominais. O médico disse que era normal e receitou remédio para gases.

Sampaio estava em plantão à distância, uma modalidade que é remunerada e o médico fica fora do hospital, mas deve estar ficar de sobreaviso, à disposição em caso de necessidade. De acordo com os pais da criança, ele foi contatado por telefone, mas não respondeu. Outro pediatra que foi até a Santa Casa que determinou que Noah fosse transferido para o UTI.

O estado de saúde do garoto foi piorando até que ele teve uma parada cardiorrespiratória, morrendo na UTI do hospital em 7 de junho.

As investigações mostraram que Sampaio não estava em São Carlos e havia viajado para São Paulo.

Fonte: G1


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