PORTO VELHO – O ‘setembro amarelo’ costuma concentrar a atenção na prevenção do suicídio, mas familiares e pessoas próximas de quem morreu dessa forma também podem precisar de cuidado e acompanhamento. A perda pode desencadear um processo de luto particularmente difícil, marcado por culpa, raiva, tristeza e uma busca constante por explicações.
Segundo o psiquiatra Robinson Machado, professor de pós-graduação na Afya Educação Médica Porto Velho, um dos sentimentos mais frequentes entre familiares é a percepção de que algo poderia ter sido feito para evitar a morte.
“A culpa é um sentimento que fica no coração e na mente dos familiares que ficam”, afirma. De acordo com o médico, podem surgir questionamentos sobre sinais que não foram percebidos, atitudes que poderiam ter sido tomadas ou situações que, retrospectivamente, passam a ser interpretadas de outra maneira.

Além da culpa, sentimentos como raiva e tristeza podem se misturar a uma tentativa permanente de encontrar uma explicação para o que aconteceu. Para Machado, essa procura nem sempre encontra uma resposta capaz de encerrar as dúvidas.
A sensação de incapacidade diante da perda pode fazer com que a pessoa retorne repetidamente aos acontecimentos anteriores à morte, pensando no que poderia ter dito, percebido ou feito de forma diferente.
“É como uma espécie de trauma que não se desfaz com a morte”, explica o psiquiatra. Segundo ele, o apoio psicológico e psiquiátrico pode ajudar familiares a compreender o processo e lidar com os sentimentos desencadeados pela perda.
Sinais
O especialista alerta que algumas mudanças de comportamento merecem atenção, principalmente quando o sofrimento passa a comprometer de forma intensa a rotina da pessoa.
Entre os sinais citados estão isolamento social, abandono do autocuidado, perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer, tristeza profunda e persistente, além de pensamentos recorrentes relacionados à morte e à culpa.
Familiares e amigos também devem observar falas sobre desaparecer, sumir ou acompanhar a pessoa que morreu.
Segundo Machado, manifestações desse tipo podem indicar ideação suicida e exigem atenção imediata. “Esses comportamentos são sérios e indicam que essa pessoa deve ser encaminhada para um serviço de saúde mental que possa ter o acolhimento e o tratamento necessário”, afirma.
Saber ouvir
Para quem convive com uma pessoa que perdeu alguém por suicídio, o psiquiatra recomenda uma postura baseada principalmente na presença e na escuta. A orientação é evitar julgamentos, cobranças para que a pessoa supere rapidamente a perda ou tentativas de oferecer respostas prontas para o sofrimento.
“É importante saber ouvir o sentimento do outro sem julgamentos, sem querer dar lições de moralidade ou religiosidade”, diz Machado. Segundo ele, familiares e amigos devem estar disponíveis para ouvir mais do que falar, respeitando o tempo necessário para que a pessoa atravesse o processo de luto.

Também é importante não reforçar sentimentos de culpa. A pessoa que ficou pode passar muito tempo reconstruindo mentalmente os acontecimentos e atribuindo a si própria responsabilidades que considera que deveria ter assumido.
Ajuda profissional
Robinson Machado afirma que não é necessário esperar que o sofrimento se agrave para procurar um psicólogo ou psiquiatra. Na avaliação dele, o acompanhamento profissional pode começar logo após a perda, especialmente quando o evento provoca forte impacto emocional na família.
“O momento de se procurar um psiquiatra ou um psicólogo é no momento que aconteceu o luto, que aconteceu o evento traumático e que essa tragédia trouxe consequências para essa família”, afirma.
O acompanhamento pode ajudar a pessoa a compreender os sentimentos provocados pela perda, trabalhar a culpa e identificar precocemente sinais de agravamento do sofrimento emocional. Para quem sente que não consegue lidar com a dor ou seguir em frente, a mensagem do psiquiatra é procurar apoio e não enfrentar o processo sozinho.
“Procure ajuda profissional especializada. Procure alguém que possa acolher a sua dor, procure alguém que possa ouvir você sem julgamentos”, orienta. Segundo o especialista, quem vive esse tipo de perda precisa, sobretudo, de acolhimento e tempo para atravessar o luto, sem cobranças, julgamentos ou pressões para demonstrar uma recuperação antes de estar preparado.
Fonte: Assessoria de Imprensa Afya








