Genética e fidelidade: o que é mito e o que a ciência confirma

Genética pode influenciar a infidelidade, mas não define caráter ou escolhas; impulsividade, busca por novidade, ambiente e educação estão entre os fatores analisados pela ciência

A fidelidade conjugal sempre foi tratada como um tema moral, cultural e educacional. Mas, nas últimas duas décadas, a ciência passou a investigar uma pergunta incômoda e inevitável, existe uma base biológica que influencia a propensão à infidelidade? A resposta da genética e da neurociência é menos simplista do que o senso comum gostaria, e mais complexa do que o marketing genético costuma divulgar.

Quem traz esse debate ao centro da discussão científica no Brasil é o Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, pós-PhD em Neurociências, especialista em genômica comportamental, membro da Sigma Xi – The Scientific Research Honor Society, da Society for Neuroscience (EUA), da Royal Society of Biology e da European Society of Human Genetics, além de diretor do CPAH – Centro de Pesquisa e Análises Heráclito. É também o criador do GIP – Genetic Intelligence Project, um projeto que cruza genética, neurobiologia e comportamento humano para mapear predisposições cognitivas e comportamentais.

Agora, o GIP passa a incorporar uma nova possibilidade analítica, a avaliação de predisposições genéticas associadas a comportamentos relacionados à infidelidade, sempre com rigor científico e sem promessas deterministas.

O que a ciência já sabe sobre genética e infidelidade

Um dos estudos mais citados sobre o tema foi publicado em 2004 por Cherkas et al., no periódico Twin Research and Human Genetics. O trabalho analisou gêmeas no Reino Unido e trouxe um dado relevante, aproximadamente 41% da variância do comportamento de infidelidade feminina apresentou influência genética, enquanto o número de parceiros sexuais teve cerca de 38% de herdabilidade.

O ponto central, frequentemente ignorado em leituras superficiais, é que não foi identificado um gene específico da traição. Trata-se de um traço complexo, poligênico, distribuído em múltiplos genes que influenciam impulsividade, busca por novidade, regulação emocional, controle inibitório e resposta ao sistema de recompensa.

“O erro mais comum é achar que existe um gene da infidelidade. O que a genética mostra são predisposições comportamentais que, em determinados contextos ambientais, podem facilitar ou dificultar certos padrões de conduta”, explica o Dr. Fabiano.

O mito do “gene da traição” e o AVPR1A

Nos últimos anos, algumas empresas passaram a divulgar a ideia de um suposto “gene da infidelidade”, frequentemente associado ao AVPR1A, gene relacionado ao receptor de vasopressina, neurotransmissor envolvido em vínculos sociais e comportamento de apego.

Apesar da popularização dessa narrativa, o próprio estudo de Cherkas e outros trabalhos subsequentes não encontraram associação robusta entre variantes do AVPR1A e infidelidade conjugal. A literatura científica considera essas associações, no máximo, fracas e inconsistentes, longe de qualquer poder preditivo isolado.

“Usar um único gene para explicar um comportamento tão complexo quanto a fidelidade é cientificamente incorreto. Isso ignora o funcionamento integrado do cérebro, da genética e do ambiente”, afirma o pesquisador.

O que o GIP realmente analisa

Diferente de abordagens reducionistas, o Genetic Intelligence Project não promete identificar se alguém será fiel ou infiel. O que o projeto faz é analisar conjuntos de variantes genéticas associadas a traços comportamentais relevantes, como:

  1. impulsividade e controle inibitório, relacionados ao córtex pré-frontal;
  2. busca por novidade e sensibilidade dopaminérgica;
  3. padrões de dependência, vício e comportamento compulsivo;
  4. regulação emocional e resposta ao estresse;
  5. traços de personalidade que influenciam tomada de decisão em contextos sociais.

Esses dados são integrados a modelos neurocientíficos e comportamentais, produzindo relatórios de predisposição, nunca de diagnóstico ou previsão absoluta.

“Falamos de risco estatístico e tendência comportamental, não de destino. A genética pode inclinar o terreno, mas não constrói a casa”, resume Fabiano.

Genética, educação e ambiente, onde está o limite?

Para o neurocientista, um dos pontos mais importantes é deixar claro que a fidelidade tem forte relação com educação, modelos familiares e aprendizado social.

“A genética pode influenciar impulsividade, busca por recompensa e regulação emocional, mas a fidelidade é profundamente modulada pela educação, pelos exemplos vividos na infância e pelas referências afetivas construídas ao longo da vida”, explica.

Em termos neurobiológicos, isso significa que circuitos como o córtex pré-frontal dorsolateral, responsável por planejamento e controle, e o sistema límbico, ligado à emoção e recompensa, estão em constante diálogo com experiências ambientais.

“O mesmo cérebro com predisposição à impulsividade pode desenvolver autocontrole sólido se for exposto a bons modelos, limites claros e valores bem estruturados”, complementa.

Ciência, não vigilância emocional

O avanço do GIP nesse campo não tem como objetivo alimentar paranoia ou vigilância emocional em relacionamentos. Segundo o CPAH, a proposta é ampliar o autoconhecimento, oferecer dados para compreensão de padrões comportamentais e apoiar intervenções educativas, terapêuticas ou de desenvolvimento pessoal.

“A genética não serve para acusar, serve para compreender. Quando usada com ética, ela ajuda a explicar por que algumas pessoas precisam de mais estrutura, limites e autoconsciência para manter certos comportamentos”, conclui o Dr. Fabiano de Abreu.

Em um tema tão sensível quanto fidelidade, a ciência deixa claro, não existe gene da traição, existe um cérebro moldado por genes, ambiente e escolhas. E, até o momento, nenhuma análise genética substitui diálogo, caráter e responsabilidade emocional.

  • Créditos: Dr. Fabiano de Abreu Agrela, Dra. Lorrana Gomes (IMF Press Global) 


+ DESTAQUES




+ Notícias




+ NOTÍCIAS

+ NOTÍCIAS

Fale conosco pelo WhatsApp!
Pular para a barra de ferramentas