Fim da escala 6×1 é armadilha para o trabalhador, adverte empresário César Cassol, da energia e do calcário

Empresário rondoniense César Cassol alerta que a redução da jornada sem desoneração da folha pode encarecer produtos e corroer o poder de compra de quem a medida pretende beneficiar

ROLIM DE MOURA – A proposta de extinção da escala de trabalho 6×1 — que permite seis dias consecutivos de trabalho para cada dia de descanso — divide opiniões no país e acende um debate que vai muito além da esfera trabalhista. Para o empresário rondoniense César Cassol, uma das vozes mais influentes do setor produtivo do estado, se aprovada sem contrapartidas fiscais, a medida pode produzir o efeito oposto ao pretendido: em vez de melhorar a vida do trabalhador, pode encarecer o custo de vida e corroer o seu poder de compra.

Em entrevista exclusiva a este www.expressaorondonia.com.br, Cassol tem um diagnóstico direto sobre os bastidores do projeto em tramitação no Senado Federal. Para ele, a discussão está contaminada por interesses eleitoreiros e carece de coerência econômica. “O que estão fazendo é só questão política, eleitoreira. Com a medida, vai aumentar a carga tributária sem desonerar a folha e o dono do mercado vai remarcar o preço e vai repassar ao trabalhador. Então, vira a mesma coisa”, afirmou.

“Sem o empreendedor, não tem o colaborador. E o custo na folha do trabalhador está muito elevado, sustentando um INSS em que só vê corrupção”, afirma César Cassol

O raciocínio de César Cassol parte de uma lógica simples: se uma empresa que funciona sete dias por semana, 24 horas por dia — como é o caso de sua usina — for obrigada a redistribuir as jornadas, precisará necessariamente contratar mais funcionários. “Mais contratações significam mais encargos trabalhistas. Mais encargos significam custos mais altos. E custos mais altos, inevitavelmente, chegam ao preço final dos produtos nas prateleiras — exatamente onde o trabalhador vai fazer suas compras”, compara o empresário.

“Onde tem dez trabalhadores, vai ter que colocar mais dois. O custo da indústria sobe, o mercado repassa, e o trabalhador perde poder de compra”, reitera o empresário. A lógica, embora seja frequentemente ignorada no debate público, encontra respaldo em análises econômicas que apontam para a correlação entre aumento de encargos e inflação de bens de consumo.

          Números do grupo Cassol em Rondônia

Mais de 100 colaboradores com vínculo direto (CLT)

Mais de 1.000 trabalhadores indiretos, entre motoristas autônomos e transportadoras parceiras

Transporte de calcário 100% terceirizado com freteiros e empresas parceiras

Clínica médica particular mantida pelo grupo para atendimento dos colaboradores e seus familiares

O peso real da folha de pagamento

Um dos pontos centrais da crítica de Cassol recai sobre a estrutura tributária que incide sobre a folha de pagamento. Segundo ele, um colaborador com salário de R$ 6.000 mensais custa, na prática, entre R$ 11.000 e R$ 12.000 ao empregador — quase o dobro do valor líquido recebido pelo trabalhador. A diferença é absorvida por encargos previdenciários, FGTS e demais contribuições patronais.

“Você paga todo mês por um INSS que está repleto de fraudes e corrupção. E na hora que o trabalhador precisa de uma cirurgia, espera seis meses a um ano pelo sistema público”, disse o empresário, que optou por criar uma saída própria para o problema: o grupo mantém uma clínica médica particular destinada exclusivamente ao atendimento de seus colaboradores e familiares, além de custear procedimentos cirúrgicos terceirizados em casos de urgência. “Para que pagar esse absurdo de impostos se na hora que o trabalhador precisa de atendimento, não tem?”, questionou.

“O trabalhador que eu pago R$ 6.000 por mês me custa R$ 11.000, R$ 12.000. Quase o dobro. E o INSS que recebe esse dinheiro todo mês não garante nem uma consulta decente.”, conta César Cassol.

A proposta: liberdade de escolha e CNPJ opcional

Diante desse cenário, Cassol defende um modelo alternativo inspirado na flexibilidade do mercado de trabalho norte-americano e europeu: a remuneração por horas efetivamente trabalhadas, combinada com a opção de atuar como pessoa jurídica. “Por que não ter, como nos Estados Unidos e na Europa, o modelo de horas trabalhadas? Trabalhou dez, ganha dez; trabalhou cinquenta, ganha cinquenta”, propôs.

A ideia central é dar ao trabalhador a autonomia de escolher entre o regime CLT tradicional e a formalização via CNPJ, com recolhimento de INSS como autônomo ou adesão a um seguro privado. Para Cassol, a rigidez do atual sistema é um dos principais fatores que afugenta investimentos do país. “O Brasil está perdendo empresas e indústrias. Muitas estão abrindo no Paraguai, na Argentina, na Bolívia. Lá a carga tributária é uma fração do que pagamos aqui”, alertou, citando a alíquota de 10% praticada no Paraguai como exemplo de ambiente mais atraente para o capital produtivo.

Burocracia no cotidiano: o caso dos freteiros

Cassol também trouxe à tona um exemplo concreto de como decisões governamentais mal planejadas afetam diretamente quem trabalha. Uma resolução federal recente — anunciada e já colocada em vigor no mesmo dia — passou a exigir que caminhoneiros autônomos, pessoas físicas que utilizam o próprio veículo como fonte de renda, se cadastrem e recolham ICMS para poder prestar serviço a empresas e indústrias.

“O cara tem o caminhão como sobrevivência. Se querem cobrar imposto, tudo bem. Mas anunciar numa semana e colocar em vigor imediatamente é um absurdo. Me prejudica diretamente: não posso carregar calcário com um freteiro que ainda não se cadastrou, e o cadastro é uma burocracia enorme”, disse. O grupo Cassol opera com centenas de caminhoneiros parceiros no transporte de calcário — todos autônomos ou pequenas empresas terceirizadas.

A palavra final: coerência

Ao ser questionado sobre o que espera da votação no Senado, César Cassol foi categórico: espera coerência. Para ele, qualquer reforma trabalhista que não venha acompanhada de uma desoneração real da folha de pagamento é apenas uma mudança de superfície, que transfere custos sem resolver o problema estrutural. “O modelo que deu certo é o americano. O país mais rico do mundo funciona com liberdade de negociação e pagamento por horas trabalhadas. Aqui, cada nova lei parece criada para dificultar quem produz. E quem paga, no fim, é sempre o trabalhador”.

Com mais de 100 empregos diretos e mais de mil trabalhadores no entorno produtivo de seu grupo em Rondônia, Cassol representa uma voz que conhece as consequências da legislação não no plano abstrato, mas na folha de pagamento, na clínica que mantém às suas próprias custas e nas estradas percorridas pelos parceiros que dependem de suas operações.

Por Carlos Araújo, especial para o wqww.expressaorondonia.com.br



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