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quarta-feira 16 junho 2021

ENTREVISTA DA SEMANA – Dom Roque, arcebispo de Porto Velho explica questões polêmicas da Campanha da Fraternidade: “o texto é uma construção coletiva”

Segundo o bispo Dom Fernando Arêas Rifan, o texto traz insinuações errôneas e tendenciosas. "Não é doutrinário nem obrigatório”, ressaltou, em relação ao documento que gerou polêmica por conter conteúdo ligado à ideologia de gênero

PORTO VELHO – Em sua edição deste ano, iniciada na última quarta-feira, a Campanha da Fraternidade, tem caráter ecumênico, mas seu tema ‘Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor’, vem recebendo várias críticas, inclusive de religiosos. Um dos pontos que chamou a atenção, o que pode demonstrar uma cisão forte dentro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, é que a própria CNBB, conforme o site g1.globo.com, “diferente dos anos anteriores, não participou da coletiva de imprensa para questionamentos sobre a campanha da fraternidade.

As perguntas foram respondidas por representantes do Conic”.

Uma voz que criticou o texto base foi o Bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney, Dom Fernando Arêas Rifan, que, em recente artigo, citou que há “insinuações errôneas e tendenciosas”, e citou que “Infelizmente, a atual Campanha da Fraternidade trouxe divisão”. Ele fez crítica velada, mas clara, a que “a autora principal do texto foi uma pastora protestante” e, “na comissão de redação, só havia um representante da Igreja Católica, que, certamente, foi voto vencido”, apesar de defender “o respeito devido às autoridades da Igreja”. E acrescentou: “mas é um texto-base de sugestão, para discussão. Um texto ruim, com insinuações errôneas e tendenciosas. Não é doutrinário nem obrigatório”, ressaltou, em relação ao documento que gerou polêmica por conter conteúdo ligado à ideologia de gênero.

O arcebispo de Porto Velho, dom Roque Paloshi, fala coam exclusividade ao site expressaorondnia.com.br que o questionou sobre os vários pontos da CF deste ano que causaram estranheza a segmentos diversos, inclusive entre os  católicos locais.

Expressaorondonia – Que participação efetiva teve a CNBB, como representante dos católicos brasileiros, durante a elaboração do texto-base? Foi além de ler e aprovar?

Dom Roque – Para responder a essa pergunta, é importante entender o que é ecumenismo e como surgiu a Campanha da Fraternidade Ecumênica. No ano de 1964 surge o Decreto do Santo Padre Paulo VI, Unitatis Redintegratio Sobre o Ecumenismo que afirma: “este movimento de unidade é chamado ecumênico. Participam dele os que invocam Deus Trino e confessam a Cristo como Senhor e Salvador, não só individualmente, mas também reunidos em assembleias. (…) Quase todos, se bem que de modo diverso, aspiram a uma Igreja de Deus una e visível, que seja verdadeiramente universal e enviada ao mundo inteiro, a fim de que o mundo se converta ao Evangelho e assim seja salvo, para a glória de Deus”. (Cf. UR, n.1). A Igreja Católica dava, assim, seus primeiros passos em busca da unidade dos cristãos, visto que o movimento ecumênico que conhecemos hoje já existia desde 1910. Contudo, apenas no jubileu do ano 2000, num contexto histórico conturbado, é que surge a primeira Campanha da Fraternidade Ecumênica que se tornou simbólica, no sentido da união entre cristãos católicos e protestantes. A partir daí, a cada cinco anos vivemos uma Campanha da Fraternidade Ecumênica. No Brasil, o organismo mais importante do ecumenismo é o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), fundado em 1982, da qual participam a Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, a Aliança de Batistas do Brasil e alguns outros membros fraternos. O diálogo ecumênico é um processo de entendimento que reconhece e respeita a diversidade entre as igrejas, sem estabelecer entre elas nenhum tipo de hierarquia. Todas são importantes! Portanto, a participação da Igreja Católica durante a elaboração do texto-base foi tão efetiva quanto a das outras Igrejas participantes. O movimento ecumênico não é um “puxadinho” da Igreja Católica, mas sim uma opção missionária. A Campanha da Fraternidade Ecumênica é Iniciativa das Igrejas membras e fraternas do Conic e dos movimentos ecumênicos de todo o Brasil que participam juntas desse processo ao longo de 20 anos. O texto é uma construção coletiva dessas Igrejas representadas por seus membros de direito.

Expressaoreondonia – A CNBB apresentou algumas sugestões? Quais foram e como foram consideradas?

Dom Roque – A CNBB tem um presbítero que é o Secretário-Executivo da CF que participou da elaboração do texto-base. Com certeza, ele apresentou várias sugestões, como também deve ter avaliado e ponderado as sugestões dos representantes das outras igrejas participantes. Assim como os outros participantes também avaliaram e ponderaram as sugestões de nosso representante. Afinal, foi um texto construído em mutirão e num clima fraterno de respeito e solidariedade. Sobre quais foram as sugestões e como foram consideradas, só o secretário-executivo poderá responder. Porém, esta é uma pergunta irrelevante quando verdadeiramente se trabalha em equipe com um objetivo em comum. Você não fica apegado à sua sugestão, mas a coloca em comum com abertura para acolher as demais e juntos e juntas, chegar a um consenso.

Expressaorondonia – Causa estranheza que seja citada como “cérebro” do documento uma ativista de itens que milenarmente a Igreja se posiciona em dimensão diferente, como a prática do aborto. Quando a CNBB admite esse documento, com seguidas citações sobre temas que levam ao aborto e defesa do movimento LGBT, em sua opinião isso não representa risco de um cisma?  (Essa pergunta tem uma nota de redação ao final das respostas)

Dom Roque – Não encontrei em todo o documento nenhuma das afirmações feitas nesta pergunta. Primeiro, porque não há um único “cérebro”, mas muitos envolvidos, visto que, como qualquer trabalho em equipe, cabe a alguém organizar. Mas, o organizador não tem o poder de substituir ou eliminar o que a equipe decidiu. Portanto, é falacioso dizer que a pastora Romi Márcia Bencke é a mentora do texto base. Ela é a atual secretária-Geral do Conic, por isso, coube a ela fazer a apresentação geral do texto. Mas, também essa apresentação passou por aprovação da equipe organizadora. Segundo, não há em todo o documento nenhuma bandeira ideológica de defesa do aborto ou de questões de gênero. Há, sim, muitas denúncias de toda forma de violência seja contra quem quer que seja e, também, muito profetismo, e isso sempre incomoda. Terceiro, o Conic tem hoje duas linhas de atuação: a promoção da vivência da comunhão e da espiritualidade ecumênica e inter-religiosa e a presença pública em diálogos sobre valores que fundamentam a perspectiva de equidade. Reduzir a atuação da atual secretária-Geral do Conic à “defesa da prática do aborto” é desconhecer sua trajetória, é como se reduzisse a ação da Igreja Católica à inquisição. Ou seja, é muito injusto!

Expressaorondonia – Que estratégia o senhor, como nosso pastor maior pretende trabalhar para evitar problemas no rebanho?

Dom Roque – Eu, Roque, pessoalmente, quero ser um eterno aprendiz de Nosso Senhor Jesus Cristo que continua dizendo: “vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mt 11, 28-30). Como São Francisco de Assis eu suplico diariamente: “senhor fazei de mim um instrumento de vossa paz. Onde houver ódio que eu levo o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão…” Humildemente eu desejo construir pontes e não muros.

Expressaorondonia – Por que colocar como exemplo, num documento a senhora Marielle Franco, ligada ao movimento de defesa do aborto, do casamento entre homossexuais?

Dom Roque – A equipe do Conic poderia ter citado outros nomes, por exemplo, Chico Mendes, Nilce de Souza Magalhães (Nicinha), Irmã Dorothy, Padre Ezequiel Ramim. O que o documento quer nos ajudar a perceber é que há uma violência crescente, totalmente contrária à Palavra de Deus. O documento não faz nenhuma defesa de pessoas que são simpáticas ao aborto e casamento entre homossexuais.

Expressaorondonia – Com todo o respeito que a CNBB mereça, como repórter acostumado a ler nas entrelinhas, pareceu-me que a CNBB não leu com atenção ou fez como quando o ex-presidente Lula se sentiu acuado pela reação pública a um projeto que violaria inclusive a Constituição, disse que não havia lido o documento que assinara. Será possível?

Dom Roque – O senhor tem o direito de pensar e fazer suas deduções. Eu pessoalmente não comungo com a sua tese.

Expressaorondonia – Discordar desses itens do documento e da CNBB pode gerar algum tipo de punição ao católico?

Dom Roque – O Concílio de Jerusalém no ano 49 D.C. mostrou que a Igreja vive uma unidade na pluralidade. Santo Agostinho também nos ensinou: “unidade nas coisas essenciais, liberdade nas coisas secundárias e em tudo que fizermos a caridade”. Aqui não se trata de “punição”, mas sim de busca da comunhão, pois, Nosso Senhor Jesus Cristo rezou para que todos fossem um: que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste”. (Jo 17, 21)

NOTA DA REDAÇÃO: Com relação à resposta à pergunta número 3, a pessoa que chama a secretária-geral do Conic de “cérebro” da CF 2021 é o padre José Ocar Beozzo, em live sobre a CF 2021 – ver em https://youtu.be/Uc8SIv0hvJU.

Entrevista ao repórter Lúcio Albuquerque

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