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domingo 28 novembro 2021

ENTREVISTA – A jovem Surui que encantou o mundo na COP 26 é filha da luta e da esperança, diz sua mãe Neide Bandeira

"Vendo Txai falando na ONU, me deu esperança de que a luta continue. Nós aqui em Rondônia vivemos um momento gravíssimo quando o governo está acabando com os parques, com as reservas"

Carlos Araújo

PORTO VELHO – O assunto da semana nestes páramos amazônicos, nas redes sociais e, porque não dizer, no mundo inteiro foi a aparição de uma jovem indígena com vestimenta típica que irrompeu a cena na Conferência Mundial sobre Meio Ambiente, a COP26, falando em inglês fluente, advertindo que muito se fala sobre mudanças climáticas, mas não se considera que os indígenas estão na linha de frente dos efeitos dessas mudanças. Essa jovem é  Txai Surui.

Indígena rondoniense nascida na Terra Indígena 7 de Setembro, no município de Cacoal, Txai é filha de uma filha da floresta, neta de indígena, nascida na floresta e com uma vida inteira dedicada à defesa do meio ambiente – a professora Ivaneide Bandeira Cardoso, e do cacique Almir Surui, com quem se casou em 1991, depois de se aproximarem durante um fórum de ONGs que trabalhavam a questão da defesa do meio ambiente, dos povos indígenas, dos ribeirinhos.

No mundo de tanta gente mesquinha em que vivemos, Txai foi muito aplaudido e representou muita gente, mas muitos partiram para o ataque contra a bela jovem, tentando politicar seu discurso e tentando denegrir a imagem de alguém que representa bem o país em um evento internacional da maior grandeza, com a COP26.

Com a curiosidade aguçada, o editor de o expressaorondonia lembrou de uma velha amizade com a mãe de Txai, do início dos anos 1980, quando ela era professora no colégio Rio Branco, em Porto Velho, e ele repórter iniciante no então jornal O Estadão do Norte, e atuavam juntos em grupos de teatros e em outros agitos culturais da época, como a criação da Federação de Teatro Amador do estado de Rondônia (Fetear).

Um encontro de velhos amigos entre o jornalista Carlos Araújo e as ativista Neide Bandeira

Foi também um encontro nostálgico.

Aos 62 anos, aposentada como professora e muita enérgica na luta em defesa da natureza, essa filha de seringueiros que nasce em um seringal em Plácido de Castro, no Acre, e, aos seis meses de vida foi trazida para Rondônia com os pais, que foram morar no então seringal Ricardo Franco, na região onde hoje é o município de Campo Novo de Rondônia. “Naquele tempo era tudo região de Ariquemes”, ela lembra.

Neide tem duas filhas do casamento com Almir Surui: Txai e Kin e mais três só do Almir, ‘mas que considero meus’.

Txai Surui agora deixa de ser uma indígena que brigou para entrar na universidade sem utilizar as cotas agora é uma personalidade do mundo

Ela lamenta os sórdidos ataques de que a filha tem sido vítima nas redes sociais. “Como não encontram algo de ruim para falar, falando até da vestimenta dela, afirmando que foi produzido por alguma grife internacional. Que gente sem criatividade e sem coração para atacar uma menina que está começando a luta em favor de seu povo”, lamenta Neide.

E acrescenta a mãe de Txai: “no momento em que ela fala na COP 26, ela usava um cocar e adornos que foram confeccionados na aldeia pelos tios paternos Mopiri, Agamenon Surui e Rubens Surui, que é tio primo da Txai. O vestido ela ganhou do pai dela, que ganhou de um grande líder indígena”, explica Neide.

Quer saber mais sobre que é a mãe desta jovem que agora é uma celebridade internacional?

Então acompanhe esta entrevista:

Expressaorondônia – Neide, antes de começarmos a entrevista, você poderia falar um pouco da sua trajetória, onde nasceu, quando veio para Rondônia?

Ivaneide Bandeira – Nasci em Plácido de Castro, em um seringal, e com seis meses de idade meu pai nos trouxe para Rondônia e trabalhar no seringal Porto Franco, na região da grande Ariquemes e que hoje é terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau, e ao completar doze anos vim estudar em Porto Velho e aqui fiz teatro, participei de grupo de canto, de música,(inclusive fizemos juntos). Fui professora aqui na escola Rio Branco. Um dia, saindo de uma farmácia, um homem me reconheceu e disse que tinha sido meu aluno. Ele disse que hoje é arquiteto porque eu a incentivei. Fiquei muito feliz. Também fiz pintura e estive sempre engajada na causa socioambiental e nas questões dos direitos humanos, do meio ambiente. Trabalhei na Funai, fui a primeira mulher a procurar índio isolado em Rondônia.

Expressão Rondônia – Vimos em você a própria identidade da causa indígena. Você se considera uma filha legítima da natureza?

Ivaneide Bandeira – Sim, me sinto filha legítima da floresta Amazônica, eu sou a floresta.

Neidinha Bandeira é homenageada como guerreira pelo maior líder do povo Gaviao, Catarino Gavião, que faleceu recentemente

Expressão Rondônia – Quando acabou a missão da professora Neide e começou a luta em favor das aldeias dos índios, como foi esse início?

Ivaneide Bandeira – Não acabou de nenhuma coisa nem outra. Deixei de ensinar apenas na rede pública e mesmo lá já falava sobre a causa indígena. Tudo isso caminha junto. Fiz o curso de História na Universidade Federal de Rondônia (Unir) porque queria contar a história a partir do povo, dando visibilidade para as pessoas invisíveis. Os indígenas eram invisíveis em Rondônia, assim como os pretos. Fiz um trabalho sobre os barbadianos, pois era importante contar essa história e tirar estas pessoas da invisibilidade, da mesma forma a questão ambiental. Queria defender os direitos dos seringueiros, dos ribeirinhos, são pessoas sofridas. Digo que nós que somos de Rondônia somos beradeiros. Tenho 62 anos e vim para cá com seis meses, então sou beradeira, falo a língua daqui e não consigo ser diferente.

Expressão Rondônia – essa defesa da causa indígena e o seu envolvimento mais pessoal?

Ivaneide Bandeira –  Sempre tive envolvimento com os indígenas desde que morava na mata, no seringal Itaperi, os indígenas apareciam, nós os víamos, mas nunca tivemos contato. Aprendi a ler com aquelas revistas Grande Hotel Cruzeiro, Sétimo Céu e livrinhos de bolso, dentro do seringal. Naquela época não tínhamos como sair, não havia estrada, ou você saia andando 60 dias no meio do mato ou esperava o avião monomotor, que pousava apenas duas vezes no ano trazendo comida e os livros e revistas. Nestes livros de bang-bang, os indígenas eram expulsos e prometi a mim mesma que se um dia pudesse sair dali, lutaria para que isso nunca mais acontecesse. Como é que se expulsa o dono da terra? Como se matava os indígenas para se apropriar da terra? Essa leitura me deu esta consciência. Já queria fazer essa defesa. Quando pintava somente retratava os indígenas, a natureza, ou seja, estava sempre voltada para o meio ambiente, a Amazônia. Era o período pós ditadura militar e não dava para fazer muito. Lembro que ouvíamos Geraldo Vandré às escondidas. Passamos a fazer algo mais organizado na faculdade. Havia nosso envolvimento com o meio cultural de Porto Velho e todos cantavam à natureza. Lembro os poemas do Binho, do Bado, voltados para o regional. Luca, Flávio Carneiro, o Bahia, Bubu, o movimento Grito dos Cantadores. Teve ainda a época da Casa do Artista, doada pelo jornalista Mário Calixto. São histórias de Porto Velho de luta cultural e de defesa do meio ambiente.

Expressão Rondônia – E a relação com o Almir Suruí quando começou?

Ivaneide Bandeira – Começa nos anos 1990 quando tínhamos o Fórum das ONGs, um fórum de organizações que trabalhavam a questão do meio ambiente, dos povos indígenas, dos ribeirinhos. Nos conhecemos nesta luta para defender as terras indígenas e nos casamos em 1991 e tivemos duas filhas, Txai Suruí e a Kim que faz medicina. A Txai estuda direito e deve se formar ano que vem. Ela revoluciona há muito tempo. Com 17 anos foi aprovada em Direito na Unir e ainda estava no terceiro ano. A universidade não aceitou a matrícula e tivemos de entrar na justiça, ganhamos a ação e o juiz Dimas da Fonseca que deferiu fez uma das peças jurídicas mais lindas, um poema em defesa dos indígenas, falando contra o racismo, de não deixarem o indígena entrar na faculdade. Ele deu a liminar e ela foi matriculada, a primeira indígena a entrar com essa questão de direito. Passou muito bem colada, não entrou na vaga de cotas. Ela tem uma trajetória muito bonita e rica.

Expressão Rondônia – Como está a sua relação com a Txai?

Ivaneide Bandeira – Trabalho com vários povos na Amazônia, então viajo muito para as aldeias. Quando ela era criança viaja comigo, mas precisou estudar. Estamos um pouco distantes, mas o tempo que temos juntas ficamos agarradas e nos falamos todos os dias.

Expressão Rondônia – Como é a inserção internacional da Txai, que se transformou numa personalidade para o mundo, de Rondônia para o mundo?

Ivaneide Bandeira – Estamos nos adaptando. Ela já fazia palestras, já ia para a Coop, no Peru, no Rio de Janeiro. A diferença é que hoje, a Txai está muito exposta e ao mesmo tempo que acho ótimo para causa indígena, vai ajudar a defender os direitos dos povos indígenas, o direito de a floresta continuar em pé, mas fico um pouco preocupada com o risco de ataque de pessoas sem noção. Na Amazônia, a vida de ativista é arriscada.

Expressão Rondônia – Aproveitando o ensejo, queria saber se você já foi ameaçada?

Ivaneide Bandeira – Estou ameaçada de morte.

Expressão Rondônia – Já pediu proteção para a Polícia Federal?

Ivaneide Bandeira – Em 2010, 2011 até 2014 recebemos muitas ameaças de morte e a Secretaria de Direitos Humanos colocou a Força Nacional à nossa disposição. Mas as crianças não aguentaram 24 horas com a polícia nos acompanhando. Elas iam para a escola com escolta policial. Era muito difícil e então pedimos para que a proteção fosse retirada e disseram que iriam colocar uma proteção disfarçada. E neste ano recebi mais ameaças sérias dizendo que tinham matador de aluguel e por isso tive de sair daqui. Passei um tempo trabalhando online, por causa da pandemia. Isso me preocupa, pois sei que pode acontecer comigo, fico imaginando que pode também acontece com ela, ainda mais com toda a visibilidade. Isso sem falar nos ataques racistas na internet. Sempre soube que no Brasil havia racismo e preconceito, mas não imaginava que fosse em tão larga escala.

Neidinha e o ‘filho do coroação’ Rubens Surui que é tio primo da Txai

Expressão Rondônia – Vocês conseguiram identificar de onde vem as ameaças?

Ivaneide Bandeira – As ameaças vêm dos invasores das terras indígenas. Agora as ameaças racistas não escondem e até deixam o nome na internet. É muito triste saber que um povo considerado alegre e feliz, ser um povo tão preconceituoso. Antes era mais velado, mas agora parece que abriram a caixinha e todos os preconceituosas e racistas saíram e se sentem à vontade para emanar seu racismo e preconceito.

Expressão Rondônia – O que você vislumbra para o futuro da Txai?

Ivaneide Bandeira – Espero que ela conquiste os sonhos de ter um Brasil com todas as terras indígenas demarcadas, sem invasores e que eles sejam retirados e que tenham muito sucesso. Que tenha realizado o sonho de ter um planeta com clima melhor. A Txai é uma ativista jovem pela questão do clima, dos direitos humanos. Espero que ela tenha um mundo melhor.

Expressão Rondônia – A Txai se espelha na sua luta e na sua trajetória?

Ivaneide Bandeira – Creio que sim. Como diz uma amiga, “o fruto não cai longe da árvore”.

Expressão Rondônia – E o que a Neide Carneiro espera para o futuro da sua luta em favor da natureza e em defesa dos povos indígenas?

Ivaneide Bandeira – Vendo Txai falando na ONU, me deu esperança de que a luta continue. Nós aqui em Rondônia vivemos um momento gravíssimo quando o governo está acabando com os parques, com as reservas. O governo federal enfraqueceu a Funai, o Ibama, e a fiscalização é mínima, não funciona e vimos desmatamento aumentando. Pior que nós em desmatamento apenas o Pará. Vendo a Txai discursar e todos os indígenas que estão lá, renova minha esperança de que consigamos manter a floresta amazônica em pé, de manter os direitos indígenas, dos quilombolas, dos ribeirinhos, da população amazônica porque parece que para o resto do mundo nós da Amazônia somos invisíveis. A Txai conseguiu fazer na ONU algo inédito no maior palco político da humanidade, temos uma jovem indígena, uma mulher do Norte do Brasil falando a língua deles. Quando se pensou que alguém de Rondônia estaria num palco como este e falando e sendo aplaudida pelos maiores líderes do mundo.  Minha mensagem final é não ao marco temporal. Não ao PL 490 e que a sociedade brasileira nos ajude a manter a floresta amazônica em pé, a manter os direitos indígenas, a manter os direitos das populações tradicionais.

Entrevista a Carlos Araújo

Decupagem e organização: Humberto Oliveira

Texto e edição final: Carlos Araújo

www.expressaorondonia.com.br

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