Entre o céu e o inferno, há sempre uma decisão! – Por Jefferson Ryan*

Se não há uma instância transcendental a organizar o mundo, somos nós que erguemos — ou arruinamos — as estruturas éticas que nos sustentam

Jefferson Ryan*

PORTO VELHO – Criamos nosso céu e nosso inferno cada vez que provocamos alegria ou dor nas outras pessoas. A frase, simples na forma, é densa no conteúdo. Ela desloca o debate moral do campo abstrato para o terreno concreto das relações humanas. Não se trata de metafísica religiosa, mas de responsabilidade ética. Em tempos de polarização, cultura do cancelamento e discursos de ódio amplificados pelas redes sociais, a ideia de que somos corresponsáveis pelo ambiente moral que habitamos torna-se urgente. Cada palavra publicada, cada decisão administrativa, cada gesto no espaço público tem potência de construção ou destruição simbólica.

A dimensão filosófica da responsabilidade

Sob a lente de Friedrich Nietzsche, o ser humano é criador de valores. Ao proclamar a “morte de Deus”, o filósofo não celebrou o caos, mas denunciou a necessidade de assumirmos a autoria de nossos próprios critérios morais. Se não há uma instância transcendental a organizar o mundo, somos nós que erguemos — ou arruinamos — as estruturas éticas que nos sustentam.

Já Michel Foucault desloca o eixo para as relações de poder. Para ele, o poder não é apenas repressivo; é produtivo. Ele produz discursos, verdades, subjetividades. Quando causamos dor por meio da humilhação pública, da exclusão ou do silenciamento, participamos ativamente de um sistema que fabrica sofrimentos. Quando promovemos inclusão, escuta e justiça, também exercemos poder — mas em direção emancipatória.

Assim, céu e inferno não são lugares distantes. São efeitos discursivos e sociais produzidos por práticas cotidianas.

O impacto social das pequenas ações

A ética não se resume a grandes decisões políticas ou jurídicas. Ela se manifesta no trato diário: no ambiente escolar, no serviço público, na gestão de recursos, na convivência familiar. Um gestor que age com transparência cria confiança institucional — um “céu” cívico. Um agente público que atua com negligência ou má-fé instala desconfiança e descrédito — um “inferno” social.

Se não há uma instância transcendental a organizar o mundo, somos nós que erguemos — ou arruinamos — as estruturas éticas que nos sustentam

O mesmo vale para o plano individual. A palavra que encoraja pode redefinir trajetórias; a palavra que humilha pode marcar vidas. A responsabilidade não é retórica: é concreta.

Escolha e consequência

A tradição jurídica ensina que toda ação gera consequência. O Direito estrutura-se sobre o princípio da imputação: quem age responde. No campo moral, o mecanismo é semelhante, ainda que menos formalizado. Cada ato produz efeitos no tecido social e na própria consciência do agente.

Criamos nosso céu quando cultivamos relações pautadas pela dignidade humana. Criamos nosso inferno quando naturalizamos a violência simbólica, a indiferença ou a injustiça.
Não somos espectadores passivos do mundo moral que habitamos. Somos arquitetos dele. Em cada escolha, desenhamos o ambiente ético que nos envolve.

A frase inicial, portanto, não é apenas um aforismo poético — é um chamado à responsabilidade.

Entre o céu e o inferno, há sempre uma decisão!

*É jornalista-articulista e colaborador


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