PORTO VELHO – Conhecido como um dos maiores peixes de água doce do mundo e símbolo da biodiversidade amazônica, elevado ao panteão de ‘rei dos rios amazônicos’ o pirarucu (Arapaima gigas) passou a ser visto, em algumas regiões, como uma ameaça ao equilíbrio ambiental. Em áreas onde não ocorria naturalmente, o animal tem provocado mudanças significativas na dinâmica dos ecossistemas.
No Rio Madeira, por exemplo, a situação já mobiliza órgãos ambientais. O Ibama classificou o pirarucu como espécie invasora no trecho acima da barragem da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, em Porto Velho. A medida, publicada por meio de instrução normativa em março de 2026, liberou a pesca e o abate do animal sem limites de tamanho, quantidade ou período.

A decisão faz parte de uma estratégia de controle populacional diante do avanço da espécie em áreas onde antes não era comum. Nesse trecho do rio, pescadores profissionais e artesanais estão autorizados a capturar o peixe, sendo proibida a devolução ao ambiente. Todo exemplar capturado deve ser abatido e destinado à comercialização dentro do próprio estado.
Embora seja nativo da Amazônia, o pirarucu passa a ser considerado invasor quando é introduzido em ambientes onde não fazia parte da fauna original. Segundo o professor da Estácio e médico veterinário Mozarth Vieira Junior, o problema está diretamente ligado ao impacto ecológico causado pela espécie.
“O status de invasor não depende apenas da origem, mas do efeito que o animal provoca no novo ambiente. Ao ultrapassar barreiras geográficas, muitas vezes por ação humana ou alterações ambientais, ele encontra vantagens competitivas e passa a desequilibrar o ecossistema”, explica.
No caso do Rio Madeira, mudanças provocadas pela intervenção humana, como a construção de barragens, facilitaram a expansão do pirarucu para áreas onde sua presença não era comum. Nessas condições, o animal encontra um ambiente favorável para se estabelecer e se reproduzir.
Predador de topo, o pirarucu exerce forte pressão sobre outras espécies. De grande porte e com elevado consumo alimentar, ele se alimenta de uma ampla variedade de organismos, desde peixes menores até espécies maiores em fase juvenil, além de crustáceos, moluscos e até pequenos vertebrados. Esse comportamento impacta diretamente a cadeia alimentar local.

Com o tempo, os efeitos podem levar à redução da biodiversidade. Embora a extinção imediata de espécies seja considerada improvável, o docente alerta para o risco de simplificação do ecossistema, fenômeno conhecido como exclusão competitiva. “O ambiente perde diversidade e se torna mais frágil, com menos espécies conseguindo coexistir”, afirma.
Diante desse cenário, o controle da população do pirarucu se torna essencial. A medida adotada pelo Ibama em Rondônia, com validade inicial de três anos, busca conter o avanço da espécie e reduzir seus impactos ambientais.
Especialistas defendem que o enfrentamento do problema deve ir além de ações pontuais e considerar soluções sustentáveis em diferentes frentes. Segundo Mozarth Vieira Junior, qualquer estratégia eficaz precisa ser “triplamente viável”, equilibrando preservação ambiental, retorno econômico e impacto social positivo.
Na prática, isso significa adotar medidas que não apenas reduzam os danos ao ecossistema, mas que também gerem renda e envolvam as comunidades locais no processo de manejo.
Entre as principais estratégias está o manejo participativo de pesca de controle. Diferente da pesca tradicional, essa abordagem prevê a retirada planejada de indivíduos da natureza, com o objetivo de diminuir a pressão sobre as espécies nativas. Ao mesmo tempo, envolve pescadores e comunidades ribeirinhas, transformando o controle ambiental em uma atividade organizada e economicamente viável.
Outra frente importante é a certificação do produto. A criação de selos que identifiquem o pirarucu como resultado de ações de controle ambiental pode agregar valor ao pescado e estimular o consumo consciente. Nesse modelo, o consumidor passa a contribuir diretamente para a preservação ao escolher um produto que ajuda a proteger o bioma.
O aproveitamento integral do animal também se destaca como estratégia. Além da carne, o uso do couro e das escamas amplia as possibilidades de comercialização e aumenta a rentabilidade da cadeia produtiva. Com isso, é possível gerar mais valor com a captura de menos exemplares, reduzindo a pressão sobre o ambiente.

Além da pesca de controle, o uso econômico do pirarucu aparece como parte da solução. A comercialização e o aproveitamento de subprodutos ajudam a transformar o problema em uma alternativa sustentável, ao mesmo tempo em que contribuem para a retirada do animal do ambiente.
Outras medidas incluem o fortalecimento da piscicultura com maior controle de biossegurança, evitando novos escapes, e o envolvimento de comunidades locais no monitoramento da espécie.
Mais do que uma curiosidade biológica, a presença do pirarucu fora de sua área original já é tratada como um desafio ambiental concreto. Em regiões como o Rio Madeira, o avanço da espécie evidencia os impactos das intervenções humanas nos ecossistemas e reforça a necessidade de respostas rápidas e coordenadas.
Nesse contexto, o controle populacional aliado ao uso sustentável surge como uma das principais estratégias para conter os danos e, ao mesmo tempo, gerar oportunidades econômicas para as comunidades locais. A combinação entre ciência, políticas públicas e participação dos pescadores será decisiva para o sucesso dessas ações.
O caso acende um alerta não apenas para Rondônia, mas para toda a região amazônica: o equilíbrio dos rios depende de monitoramento constante e de medidas eficazes para evitar que mudanças ambientais transformem espécies emblemáticas em ameaças à própria biodiversidade que representam.
Por: Rafael Fonseca - jornalista Agencia Eko www.expressaorondonia.com.br









