A festa esquecida de 1911 e a origem da história de Vilhena, que faz 115 anos hoje – Júlio Olivar*

Álvaro Vilhena morreu no Rio de Janeiro, aos 48 anos, vítima de câncer, sem conhecer a cidade que leva seu nome

Júlio Olivar*

VILHENA – Nesta segunda-feira, feriado de 12 de outubro, Dia das Crianças e de Nossa Senhora Aparecida, Vilhena celebra uma efeméride que quase ninguém lembra: há 115 anos, a localidade era fundada pela Comissão Rondon. No início da tarde daquela quinta-feira de 1911, foi inaugurado o que seria o marco zero da futura povoação: o Posto Telegráfico Álvaro Vilhena.

 

A fundação foi uma festa. Ao som de violões e de músicas tocadas num gramofone, com danças improvisadas, gente morena vinda de toda parte – dos seringais, das aldeias – chegou para celebrar. Descalços, misturavam-se aos guarda-fios, telegrafistas, civis e militares da Comissão Rondon, unidos pela inauguração do telégrafo. Foi o primeiro erguido no que é hoje o território de Rondônia, ainda então parte de Mato Grosso.

Imagem do dia em que o Posto Vilhena foi fundado

Foi ali que nasceu o termo “vilhenense”. O nome Vilhena foi uma homenagem feita por Rondon ao engenheiro maranhense Álvaro de Melo Coutinho de Vilhena, ex-diretor-geral da Repartição dos Telégrafos Nacionais, morto em 1904 e sepultado no Rio de Janeiro, então capital do país.

Curiosamente, o engenheiro Vilhena nunca conheceu ou ouviu dizer da cidade que leva seu nome. Alguns historiadores se equivocam na afirmação de que ele foi “chefe” de Rondon, a quem não chegou a conhecer, pois a Comissão Rondon só foi instituída em 1907, ou seja, três anos após a morte de Álvaro Vilhena, aos 48 anos, vítima de câncer.

A região, território indígena Nambiquara, antes conhecida como Serra do Norte, Campos de Floriano ou Campos da Comemoração, passou então a se chamar Vilhena.

Em 1915, em Santo Antônio do Rio Madeira, o coronel Cândido Rondon instalou a sede do 3º Distrito Telegráfico de Mato Grosso, responsável por coordenar uma vasta rede na região. O Posto Vilhena ficava no meio do caminho, estrategicamente localizado a cerca de 700 km tanto de Cuiabá quanto do Rio Madeira.

De Posto a município

Em 1929, Vilhena foi desmembrada de Santo Antônio do Rio Madeira e incorporada a Guajará-Mirim. Em 1931, a Repartição Geral dos Telégrafos foi extinta e incorporada à Diretoria-Geral dos Correios, que depois se tornaria a ECT.

Em 1943, com a criação do Território Federal do Guaporé, Vilhena deixou de pertencer a Mato Grosso e foi anexada a Porto Velho – que, curiosamente, até então era parte do Amazonas e tornou-se capital do novo território, formado em sua maior parte por terras mato-grossenses.

O engenheiro vilhenense Álvaro Vilhena, a razão do nome da cidade que, hoje, é o 2º IDH e 3º PIB de Rondônia

Em 1960, no governo Juscelino Kubitschek, foi inaugurada a BR-29, hoje BR-364, seguindo aproximadamente o traçado da linha telegráfica da Comissão Rondon. A estrada impulsionou a migração e fez surgir a Vila de Vilhena, a cerca de cinco quilômetros do antigo posto.

Em 1969, a Vila foi elevada a distrito de Porto Velho. No mesmo ano, o Posto Telegráfico foi definitivamente fechado e abandonado, entrando em ruínas na década seguinte.

Em 1977, Vilhena foi emancipada e elevada a município. Em 1980, o antigo posto foi revitalizado pela prefeitura por iniciativa de Roberto Scalercio Pires – oficial da reserva do 5º BEC e então secretário municipal – e rebatizado como Museu Casa de Rondon. Fechado em 1996, só voltaria a ser reaberto à visitação pública em 2024, após revitalização com recursos do Governo Federal.

Tombado pelo Iphan, em 2015, o Posto Telegráfico Álvaro Vilhena é o marco zero e a certidão de nascimento de Vilhena.

Simbolismo

O posto telegráfico foi inaugurado em 12 de outubro de 1911. A data foi escolhida de caso pensado, porque era o Dia de Colombo, o “descobridor” da América em 1492, ao qual Rondon se referiu como “aquele que mostrava ser a natureza humana capaz de esforços incomparavelmente maiores [do que o habitual]”.

Cristóvão Colombo estava a caminho da Índia quando chegou, segundo a história oficial, por engano, à América Central – razão pela qual chamou os nativos de “índios”. Hoje, o navegador é chamado por alguns de “genocida de indígenas” e, por esse motivo, sua estátua foi retirada de Los Angeles, em 2018, e da Colômbia, em 2021, em meio a protestos.

Contraditoriamente, Rondon dizia que não admirava navegadores, a quem sempre rotulava de “invasores”. Ele enfatizava que se emocionava, isso sim, quando imaginava “a vida misteriosa dos indígenas nas selvas, sua natureza altiva e corajosa”.

Além de Colombo ser lembrado durante a fundação de Vilhena, houve outro detalhe: o posto telegráfico foi batizado com o nome de um não indígena, Álvaro Vilhena. Poderia ter havido alguma referência aos nativos do território, mas eles foram esquecidos na toponímia vilhenense, que exaltou apenas pessoas de origem europeia. Se houvesse coerência entre o pensamento e a ação afirmativa, o nome de Vilhena seria Nambiquara ou Parecis.

Nomes como Álvaro Vilhena, José Bonifácio, Roosevelt, Tenente Marques e Pimenta Bueno foram escolhidos – e todos são merecedores e contextualizados, não é o que se discute aqui – pelo próprio Rondon na toponímia local. Contudo, na região há nomes de origem indígena dados a cidades criadas a partir do território de Vilhena, a exemplo de Cabixi, Chupinguaia e Corumbiara, mas que não têm relação com Rondon.

Esse progresso teve um alto custo para ambos os lados. Dezenas de expedicionários morreram e aldeamentos foram dizimados pelo contato, que trouxe doenças, vícios e violência. O que consola é que, cedo ou tarde, esse encontro iria acontecer – e foi uma bênção que tenha ocorrido sob a égide de Rondon, um humanista reconhecido internacionalmente e três vezes indicado ao Nobel da Paz.

Pacifista, ele já previa os desdobramentos. Em 1907, ao presidente Afonso Pena, questionou, reflexivo: “O que as estradas trariam?”. Nem todos que o acompanhavam compartilhavam de seus propósitos e nem tudo foi registrado. Muitos fatos se perderam no tempo, com aqueles que morreram levando suas verdades secretas.

Por não ser socialista, mas sim comtista, ou seja, seguidor de Augusto Comte – “a ciência transforma o mundo”, dizia -, Rondon jamais pregou “igualdade”, mas sim, unidade. Não só de indígenas, mas de proletários às margens da civilização. É preciso, dizia ele, “ideal comum de fraternidade universal” para que houvesse justiça social de verdade.

Nem todos que acompanhavam Rondon compartilhavam de seus propósitos comtistas – havia ateus, católicos e evangélicos fervorosos entre eles, e alguns eugenistas militantes – e nem tudo o que aconteceu está formalmente registrado. Muitos fatos devem ter se perdido no emaranhado do tempo, desaparecendo junto com aqueles envolvidos. Todos morreram levando algumas verdades

*É jornalista e historiador

www.expressaorondonia.com.br

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