
PORTO VELHO – Era uma pauta da TV-Rondônia, das tantas de cobertura de operações contra crimes ambientais em Rondônia, mas nela vivi uma das experiências mais assustadoras da minha vida. A imensidão da floresta, com suas unidades de conservação, parques e áreas de desmatamento, sempre reservou desafios para quem trabalha com jornalismo. Na ocasião, o desafio foi muito além de registrar imagens.
Comigo o cinegrafista Clenio Amorim, em um helicóptero com uma equipe do Ibama, para produzir imagens aéreas que mostrassem a dimensão do desmatamento na região próxima a Ariquemes. Na época, ainda não tínhamos drones à disposição. Daí ser essencial o helicóptero para conseguir imagens mais amplas e mostrar ao público o tamanho do problema.
Passamos o dia inteiro trabalhando. Registramos o material e, no fim da tarde, nos preparamos para voltar a Porto Velho. O tempo já estava fechado quando decolamos, mas não imaginávamos o que viria pela frente.

Pouco depois de levantarmos voo, a chuva caiu com força. Era uma tempestade daquelas que parecem não ter fim. Do lado de fora, não conseguíamos enxergar absolutamente nada. A água cobria a paisagem, e a visibilidade era praticamente zero.
Dentro do helicóptero, o silêncio era assustador.
Éramos seis pessoas: eu, o Clenio, o piloto, o copiloto e mais dois, se não me falha a memória, agentes da Polícia Federal. Ninguém falava. Parecíamos presos à mesma apreensão, tentando entender o que aconteceria em seguida.
Os pilotos conversavam, mas, mesmo sem participar da conversa, nós ouvíamos os comentários. A situação estava complicada. Não havia condições de continuar o voo. Precisávamos pousar.
Foram minutos intermináveis. O medo crescia a cada instante, enquanto aguardávamos uma decisão que nos tirasse daquela situação.
Até que o piloto encontrou um local para pousar às margens da BR-364, próximo à entrada de Cujubim. Havia um pequeno espaço entre a rodovia e a vegetação. Foi ali que descemos, em meio à chuva intensa.
Durante a aproximação, ainda conseguíamos ver os carros passando pela rodovia. Alguns motoristas olhavam assustados para o helicóptero, talvez se perguntando o que aquela aeronave fazia ali, tentando pousar em meio à tempestade.
Nós também devíamos estar com uma expressão parecida.
Graças à habilidade do piloto, chegamos ao chão em segurança. Mas o pouso não significou que o perigo havia passado. A chuva continuava tão forte que não podíamos sair do helicóptero. Ficamos ali, esperando, ainda presos àquela tensão.
Aos poucos, a chuva foi diminuindo. E, com ela, o medo também começou a ceder. Respirávamos mais tranquilos, tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer.
Quando saímos do helicóptero o Clenio, ao pôr pés no chão começou a bater os pés, como quem precisava confirmar que estava mesmo em terra firme.

— Ah, eu estou pisando no chão! Graças a Deus, estou pisando no chão!
A cena ficou gravada em minha memória. Depois de tantos minutos sem saber o que aconteceria, sentir o chão sob os pés parecia a melhor coisa do mundo.
Aquela foi uma das ocasiões em que senti que poderia não voltar para casa. Era uma reportagem para registrar imagens e mostrar à população a dimensão dos crimes ambientais, mas, por alguns instantes, a notícia que quase tivemos de contar era a nossa própria história.
O jornalismo nos leva a lugares que poucos conhecem e nos coloca diante de situações que nem sempre conseguimos prever. Com o tempo, aprendemos a conviver com os riscos, mas isso não significa que deixamos de sentir medo.
Naquele dia, entre a floresta, a tempestade e o silêncio no helicóptero, aprendi mais uma vez o valor de algo que muitas vezes parece simples: estar vivo, pisar em terra firme e ter a chance de voltar para casa.
E, enquanto Clenio comemorava cada passo no chão, eu agradecia em silêncio. Porque, naquela viagem, o registro mais marcante não ficou nas imagens da floresta, mas na lembrança do momento em que acreditamos que poderíamos não sobreviver.
(*) Marindia Moura, jornalista, atual gerente de comunicação do MPRO






