PORTO VELHO – Desde que decidiu não renunciar ao governo, em abril, Marcos Rocha permaneceu no cargo. Mas, politicamente, parece ter abandonado o governo. A máquina administrativa segue funcionando por inércia. Secretários administram conforme suas próprias conveniências e prioridades. Falta uma orientação política clara. Falta comando. Falta a impressão de que existe alguém segurando o leme. É nesse vazio que ganha força a atuação institucional do presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Alexandre Miguel, terceiro na linha sucessória. O segundo, o vice-governador, rompido com Rocha, decidiu não assumir o governo. A fotografia é quase surrealista: o governador está no Palácio, mas o poder parece ter adquirido vida própria.
VIAGEM
Há uma diferença fundamental entre ocupar o governo e governar. A primeira é uma condição administrativa. A segunda exige autoridade, articulação, liderança e capacidade de produzir convergências. Sem isso, o cargo vira apenas uma cadeira muito cara. E chegamos às viagens.

RESULTADO
Se politicamente o governador se encontra cada vez mais só, existe uma atividade na qual sua disposição permanece absolutamente intacta: viajar para o exterior. Quase toda semana aparece uma nova incursão internacional, normalmente acompanhada de assessores, diárias, passagens e uma narrativa oficial sobre os grandes interesses de Rondônia. O problema não é viajar. Governadores precisam viajar. Relações comerciais, investimentos, tecnologia e abertura de mercados podem justificar deslocamentos internacionais.
CARIMBO
O problema é o resultado. Qual investimento veio? Qual contrato foi assinado? Qual empresa decidiu produzir em Rondônia? Qual mercado novo foi efetivamente aberto? Qual empreendimento nasceu dessas missões? Até aqui, o saldo parece muito mais próximo do álbum de fotografias do que da prestação de contas. A viagem oficial precisa ter interesse público demonstrável. Não basta o carimbo burocrático de uma justificativa protocolar. É preciso demonstrar por que aquela missão era necessária, qual benefício coletivo se buscava e quais resultados foram obtidos.
PODCAST
Resenha Política recebe, nesta semana, dois dos principais personagens da eleição de Rondônia. Nesta quinta-feira, gravamos com o deputado estadual Delegado Camargo, eleito vice-governador. Na sexta-feira, será a vez do governador eleito Marcos Rogério. Os dois confirmaram presença e falarão pela primeira vez ao podcast depois das urnas, já na condição de eleitos. As entrevistas vão ao ar na próxima semana: Marcos, na terça-feira; Camargo, na quinta-feira. Agora não é mais campanha. É hora de falar sobre o resultado das urnas, os próximos passos, a formação do governo e os compromissos assumidos com Rondônia.
DESORIENTADO
Ainda não está suficientemente clara qual foi a jogada de genialidade que levou o governador Marcos Rocha, a pouco mais de setenta dias do fim do governo, a entregar ao deputado federal Maurício Carvalho, do União Brasil, dezenas de cargos na administração estadual, entre eles secretarias e o próprio DER. Pode haver uma estratégia que os comuns mortais não alcançaram. Pode haver uma engenharia política subterrânea. Ou pode ser apenas mais um daqueles movimentos de um governo que, há algum tempo, parece andar sem bússola, sem comandante e, principalmente, sem tropa.
SAXÃO
Desde que retirou o apoio ao candidato do próprio partido, Adailton Fúria, durante a campanha, Marcos Rocha passou a viver uma curiosa condição política: a de uma espécie de rei da Inglaterra. Tem a coroa, o palácio e a faixa, mas o poder real parece circular por outros corredores.
PRESTÍGIO
O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, que deveria ser seu interlocutor natural, tornou-se praticamente uma entidade metafísica. Rocha telefonou algumas vezes e, segundo o que se sabe, sequer conseguiu ser atendido. O fundo partidário, que o governador imaginava poder administrar e repartir entre seus candidatos, passou longe de suas mãos. Não veio um centavo para aquilo que ele pretendia comandar.
REFLEXO
E assim o PSD, que ainda ostenta no papel, parece ter se transformado em uma casa onde o proprietário continua com a escritura, mas já não recebe as visitas. Os dias de Marcos Rocha no partido parecem contados. O mais curioso é que o isolamento não nasceu de uma conspiração. Foi sendo construído pelo próprio governador. Política é uma ciência curiosa: quem passa tempo demais olhando para o próprio espelho termina confundindo reflexo com liderança.
RENCOR
Rocha revelou-se, ao longo do tempo, um político rancoroso, vaidoso e cada vez mais isolado. Não construiu uma bancada fiel. Não deixou uma tropa organizada nos Legislativos. Não conseguiu eleger sob seus auspícios um único parlamentar na eleição deste ano. Muitos daqueles que estimulou a disputar cargos eletivos saíram das urnas com votações decepcionantes. Não lidera, embora pessoalmente seja gente boa.
ABANDO
Um exemplo emblemático foi o ex-secretário de Fazenda, Luís Fernando, técnico competente e homem de trato gentil, lançado à disputa pelo Senado. Teve direito até à participação de Marcos Rocha em sua propaganda eleitoral. A televisão entrou em cena. Os votos, não. A matemática das urnas costuma ser cruel porque não aceita maquiagem. O PSD o abandou e abraçou Mariana Carvalho mesmo Rocha presidindo a legenda.
ENDEREÇO
Os prefeitos que chegaram ao poder em palanques onde Marcos Rocha esteve já perceberam para que lado sopra o vento. Muitos se aproximaram do governador eleito. É a velha liturgia da política brasileira: quando o poder muda de endereço, as amizades descobrem rapidamente o novo CEP.
ILUSÃO
O princípio republicano é simples: o dinheiro público não financia experiências privadas travestidas de agenda oficial. E há ainda o tambaqui, transformado em espécie de personagem recorrente das viagens internacionais do governador. É perfeitamente possível que Rondônia se transforme, nos próximos anos, em grande produtor de pescado e conquiste mercados externos. Tomara. Seria excelente para o Estado. Mas uma coisa é a promessa de um futuro possível. Outra é vender como realidade aquilo que ainda é projeto.
PERFIL
Machado de Assis talvez tivesse encontrado uma maneira ainda mais precisa de descrever esse espetáculo. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, seu personagem observa, com a ironia cirúrgica que só Machado dominava: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” A frase, deslocada de seu contexto original, serve aqui como uma provocação política: todo governante deveria perguntar, antes de deixar o cargo, não quantas fotografias produziu, quantas viagens realizou ou quantas alianças montou no fim da estrada, mas qual legado efetivamente entrega ao Estado. Porque poder sem liderança vira vaidade. Viagem sem resultado vira despesa. Cargo sem comando vira decoração. E os problemas apenas vão começar pós-governo.
PONTES
E, na política, a decoração mais cara costuma ser aquela paga pelo contribuinte. Essa talvez seja a maior fotografia de Marcos Rocha neste fim de governo: um homem que ainda possui a caneta, mas já não possui a política. E, na política, a caneta sem aliados escreve muito pouco. Quanto à entrega de uma parcela relevante da máquina estadual a Maurício Carvalho, resta a pergunta que ninguém conseguiu responder: qual é a genialidade escondida nessa última jogada? Pode ser brilhante. Pode ser estratégica. Pode ser uma tentativa tardia de reconstruir pontes. Ou pode ser simplesmente o último movimento de um governo que percebeu tarde demais que, quando a partida está terminando, até o rei pode descobrir que o tabuleiro já não lhe pertence.








