Cientistas anunciam descoberta de 396 geoglifos, rastros de civilização Aquiry, que habitou o Acre

Povo Aquiry, que ocupou região antes da chegada dos europeus, tinha até 3 milhões de habitantes e criou os 396 recém encontrados 'geoglifos': grandes construções de terraplanagem; apenas outros 36 do tipo eram conhecidos até agora

RIO RANCO (AC) – Um grupo de cientistas brasileiros e finlandeses anunciou hoje a descoberta de 396 geoglifos: as grandes estruturas de terra construídas pela civilização Aquiry, que habitou o sudeste da Amazônia antes da chegada dos portugueses e espanhóis.

Usando aviões com aparelhos de lidar, um tecnologia de radar a laser para mapeamento 3D, os pesquisadores conseguiram achar essas grandes valas e barreiras de terraplanagem em formas geométricas em diversas áreas na região de fronteira entre Brasil e Bolívia, sobretudo no Acre.

As construções encontradas são similares a outras já conhecidas e têm tamanho variado. Algumas possuem poucos metros de largura, outras são maiores que 15 campos de futebol.

Mapa topológico criado por lidar mostra geoglifos escondidos embaixo da floresta Amazônica no Acre — Foto: Pärssinen et al./Nature

O novo trabalho ampliou em mais de dez vezes o número de geoglifos conhecidos na região, que eram apenas 36 até agora. Arqueólogos acreditam que essas estruturas tinham fins rituais e de reuniões sociais para os Aquiry, que não tinham nenhuma forma de escrita.

Anteriormente, as únicas formações do tipo conhecidas estavam em áreas que haviam sido desmatadas, expondo o relevo em imagens de avião e satélite. Com o lidar, operado pelos cientistas finlandeses da colaboração, foi possível enxergar os geoglifos abaixo das copas das árvores, o que ampliou a capacidade de descobertas dos cientistas.

Em estudo publicado hoje na revista científica Nature, os pesquisadores, liderados por Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinki, revelam o mapa dos novos geoglifos e revisam a estimativa sobre o tamanho da população que os construiu. Em seu apogeu, por volta do ano 200 d.C, os Aquiry eram uma civilização com algo entre 1,25 milhão e 3 milhões de indivíduos, dizem os pesquisadores.

Os 432 geoglifos Aquiry mapeados até agora, segundo os cientistas, devem ser uma pequena proporção de mais de 20 mil outros que devem existir no território, em áreas não cobertas pela pesquisa.

Ciclo do bambu

Pärssinen afirma que suas estimativas de população e extensão do domínio Aquiry se baseiam na quantidade de pessoas que eles acreditam ter sido necessária para erguer essas grandes obras de terraplanagem. Os cientistas levam em conta que aquelas pessoas não tinham à disposição ferramentas de metal ou animais de carga, que só apareceram na Amazônia com a chegada dos europeus.

— Nós estimamos que uma comunidade de aproximadamente 300 pessoas, incluindo cerca de 60 homens adultos aptos para o trabalho, daria conta de criar uma dessas estruturas no prazo de um ano, sem abdicar das suas outras atividades de subsistência — diz. — Arqueólogos demonstraram que a maioria dos geoglifos permaneceu em uso contínuo por mais de 200 anos e alguns por mais de mil anos.

Depois da construção, ainda era necessário um trabalho de manutenção, para remover detritos e podar a vegetação que insistia em rebrotar.

Segundo Evandro Ferreira, botânico da Universidade Federal do Acre que coordenou uma equipe brasileira no trabalho, o próprio preparo do trabalho de construção exigia uma certa expertise. Os Aquiry, ele conta, tinham um conhecimento sofisticado da vegetação local para fazer a limpeza das áreas antes da terraplanagem.

— No sul da Amazônia existem muitas florestas dominadas por bambu, uma planta que tem um ciclo de vida de 28 anos. Os Aquiry provavelmente tinham esse conhecimento e identificavam populações de bambu que já estavam a um ou dois anos de morrer — explica. — Para essas pessoas foi relativamente fácil fazer uma limpeza do terreno incendiando aquela área, porque as grandes árvores não resistiam ao fogo e o bambu já estava morrendo.

Geoglifo descoberto em área desmatada de Tequinho, no Acre — Foto: Martti Pärssinen

Quando os primeiros espanhóis chegaram à região, no século XVI, os Aquiry já tinham abandonado a maioria dos geoglifos e se dispersado em povoados indígenas menores, como os dos Apurinãs e dos Manchineri, que hoje habitam o sudoeste da Amazônia. Grupos dessas etnias, conta Ferreira, poucos séculos atrás ainda tinham a prática de abrir campos com a mesma técnica de seus ancestrais.

El Dorado acreano

Antes da comprovação que o estudo de Pärssinen e Ferreira ofereceu a partir de mais 4.000 km de sobrevoo com lidar, alguns cientistas já postulavam que a civilização Aquiry deveria ser muito maior do que o que sugeriam os dados anteriores. Um desses pioneiros é Alceu Ranzi, professor aposentado pela UFAC, que também é coautor no trabalho publicado na Nature.

Não está totalmente clara ainda a razão pela qual os Aquiry deixaram de existir como uma civilização unificada ainda no período pré-colombiano depois de manter viva sua cultura por cerca de 1.500 anos, diz Ferreira. Possivelmente uma nova onda de trabalhos com escavações e análises dos geoglifos recém encontrados deve ajudar arqueólogos a entender melhor a história e a relevância daquele povo, que chegou a ter um quarto do tamanho da civilização Inca.

Povos como os Aquiry podem ter sido, inclusive, parte do imaginário que alimentou o mito de El Dorado, a lenda de que uma grande civilização escondida na América do Sul teria centros do tamanho de cidades europeias, e construções repletas de ouro. A riqueza da cultura Aquiry, porém, não estava na posse de metais ou edificações de rocha como a dos maias, mas sim no domínio da terraplanagem para os geoglifos.

— Quando os portugueses e espanhóis adentraram a Amazônia e subiram os rios, eles encontravam aqueles grupos indígenas isolados, muitos deles vagando pela floresta de um lugar para outro, mas eles não tinham a menor ideia de que, no passado, os ancestrais daquelas pessoas tinham construído um legado absurdamente fantástico — afirma. — Graças ao que eles fizeram, que foi cavar essas grandes valas que são visíveis pelo lidar e também pelo satélite, hoje temos uma prova de que eles estavam aqui e prosperaram muito bem.

Por Rafael Garcia — São Paulo
Fonte: O Globo.com.br


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