‘Caixa-preta da terra’ gravará ‘passo a passo’ da humanidade em direção à catástrofe

Projeto enfrenta desafios de financiamento e cronograma, mas espera-se que esteja funcionando até dezembro

TASMÂNIA – Um aeroporto desativado na acidentada Costa Oeste da Tasmânia logo será o lar de uma estrutura de aço angular com um propósito assombroso: registrar “cada passo” que a humanidade der em direção à “catástrofe”.

O impressionante monólito, conhecido como “caixa-preta da Terra”, ficará empoleirado na paisagem de granito do oeste da Tasmânia — uma ilha a cerca de 241 quilômetros da costa australiana — e estará funcionando até o final do ano, se tudo correr como planejado.

É tudo para proteger e alimentar o que está acontecendo lá dentro. A caixa registrará centenas de pontos de dados climáticos e informações contextuais, desde temperaturas e aumento do nível do mar até discursos políticos e relatórios climáticos.

É “essencialmente um dispositivo de gravação de dados indestrutível e autossuficiente”, disse Rob Beamish, fundador e diretor criativo da agência de comunicação ambiental Rouser Lab, uma das organizações por trás do projeto.

No futuro imediato, a caixa estará “falando com o mundo, comunicando conjuntos de dados e descobertas atuais”, disse Beamish.

As pessoas poderão visualizar os dados online e os visitantes do local poderão se conectar à caixa por meio de seus telefones celulares.

Mas, a longo prazo, a ideia é criar um registro para civilizações futuras, caso as mudanças climáticas eliminem a humanidade. Ela “fornecerá um relato imparcial dos eventos que levaram ao fim do planeta”, de acordo com o site do projeto.

A caixa é parte instalação artística, parte repositório de dados, parte cápsula do tempo à moda antiga e parte geradora de medo.

Para aqueles por trás dela — incluindo a agência de publicidade Clemenger e o coletivo de arte Glue Society —, a caixa tem o objetivo de ser um apelo à ação, atraindo a atenção das pessoas para a crescente crise climática.

Alguns especialistas em clima, no entanto, questionam a capacidade do projeto de causar um impacto a longo prazo e de motivar a ação.

Há também a parte complicada de descobrir como os descendentes da humanidade conseguirão acessar os dados da caixa. “Como será a tecnologia do futuro em uma sociedade devastada pelo clima? Nós realmente não sabemos”, disse Beamish.

A caixa-preta da Terra recebeu esse nome em homenagem ao gravador de voo da caixa-preta, um dispositivo quase indestrutível em aviões que armazena dados de voo, incluindo as decisões dos pilotos, e ajuda os investigadores a reconstruir acidentes.

Para os propósitos deste projeto, o planeta é o avião e a humanidade é o piloto.

A caixa visa provocar o medo — que Beamish chama de “um motivador massivo para a ação climática” — mas também a esperança. “O avião ainda está no ar… ainda há esperança de realmente evitar o pior das mudanças climáticas”, disse ele.

A conclusão da caixa marcaria o fim de um longo processo. Ela foi anunciada pela primeira vez em 2021, na época das negociações climáticas da COP26 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) da ONU (Organização das Nações Unidas) em Glasgow, gerando imediatamente manchetes barulhentas e até aparecendo no monólogo de abertura de Stephen Colbert no Late Show. “Estamos condenados”, disse Colbert, aproximando o rosto da câmera.

Na época, os líderes do projeto disseram que a caixa seria concluída em 2022. Quatro anos depois, a construção ainda não começou, embora seus componentes estejam sendo montados atualmente.

“Olha, é um projeto realmente audacioso”, disse Beamish, citando a necessidade de planos de design e engenharia corretos, aprovações de construção e, fundamentalmente, financiamento, a maior parte do qual veio de doadores. Os cronogramas são sempre “escorregadios”, disse ele, mas a esperança é que tudo esteja funcionando até dezembro.

Na Tasmânia, as autoridades locais parecem saudar o projeto. Shane Pitt, o prefeito da região da Costa Oeste, disse que a ilha foi escolhida porque é “uma das regiões geológica e politicamente mais estáveis do mundo”.

Ele acredita que a caixa pode ter o benefício adicional de atrair mais turistas para esta área remota da ilha, que abriga cerca de 4.600 pessoas.

Katharine Hayhoe, cientista atmosférica da Texas Tech University e cientista-chefe da Nature Conservancy, disse que a caixa poderia “servir como um validador para os registros já preservados pela Terra”.

O planeta mantém sua própria história climática, conservada em características naturais como anéis de árvores, testemunhos de gelo e corais, que permitem aos cientistas reconstruir uma imagem do clima que remonta a milênios. A caixa-preta poderia ajudar a preservar registros em escalas de tempo mais precisas, disse Hayhoe.

Mas ela questionou a ideia de que o medo impulsionará a ação. O medo é um motivador para a conscientização climática e o compartilhamento de informações, mas não para a ação, disse ela: “Por que não? Porque, se você não sabe o que fazer, não fará nada”.

Anthony Leiserowitz, professor de comunicação climática na Yale School of the Environment, disse que o medo geralmente provoca uma resposta de lutar ou fugir, o que é excelente para motivar o comportamento quando alguém enfrenta uma ameaça imediata, por exemplo, um tigre dente-de-sabre prestes a atacar.

Mas não é uma emoção sustentável, acrescentou ele, “e a mudança climática não é como um tigre dente-de-sabre; a mudança climática é um problema crônico que piora progressivamente ao longo de décadas”.

Mesmo que o projeto seja eficaz em despertar a conscientização, acrescentou Leiserowitz, seriam necessárias histórias repetidas ao longo dos anos para permanecer na mente das pessoas, disse ele.

Beamish espera que a caixa continue a provocar e mostrar às pessoas que ainda há tempo para influenciar os resultados climáticos.

“Ela existe para forçar a realidade climática e o risco existencial da mudança climática na consciência pública”, disse ele. “É realmente para isso que ela serve.”

Por: Laura Paddison, da CNN Internacional
Fonte: R7.com.br


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