Pistolagem e jaguncismo ditam a lei no campo, no Sul do Amazonas

É um quadro terrível nesta região. Os ramais do Seringal Entre Rios continuam fechados pelos grileiros

PORTO VELHO – A situação do sul do Amazonas, Boca do Acre, Lábrea e as confluências da Amacro, região também cortada pela BR-317, trazendo os produtos da Ásia para a América do Sul e levando as riquezas deste continente latinoamericano, através do Porto de Chancay, no Peru, para o mundo asiático, cria uma nova rota que não é mais a Rota da Seda, mas sim a Rota da Soja. Este caminho, infelizmente, escorre sangue em suas encostas.

Este é um cenário de violência e criminalidade no campo contra as pessoas, a terra, a água e a floresta, que remonta aos tempos anteriores e se alargou a partir de 2018. Todos estes conflitos vêm sendo registrados no caderno de Conflitos no Campo da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Somente neste ano de 2026, em Boca do Acre/AM, ocorreram os seguintes assassinatos:

No dia 23.03.2026, numa praça na cidade de Boca do Acre, o trabalhador rural, posseiro, Luciano Machado, de 43 anos. A causa foi um conflito de terra no Bom Lugar. As suspeitas de acusações pairam sobre policiais aposentados, parceiros do capitão que por muito tempo comandou a Polícia Militar em Boca do Acre, e era jagunço a serviço da grilagem de terras no Sul do Amazonas. O capitão, inclusive, saiu do município preso pela Polícia Federal. Outro suspeito desde assassinato é um homem chamado de “Malandro”, além de um vaqueiro que teria levado os criminosos ao encontro de Luciano;

No dia 25.04.2026, Josias Albuquerque de Oliveira (45 anos), Antônio Renato (32 anos), e Artur Farias Said (14 anos). Os suspeitos foram presos, mas os mandantes continuam soltos, mesmo revelados os seus nomes;

No dia 04.06.2026, o trabalhador rural Márcio Rogério Barbosa, de 57 anos, conhecido como Paulistão. Outros três trabalhadores ficaram gravemente feridos, mas conseguiram sobreviver.

A grilagem de terras públicas no PA Monte

Trecho da BR-317 na divisa do Acre com o Amazonas: pistolagem e jaguncismo impõem a lei dos fazendeiros em região marcada pela violência no campo na Amazônia (Foto: Acervo Varadouro)

Estas terras do Projeto de Assentamento (PA) Monte, em Boca do Acre e Lábrea – Sul do Amazonas, onde estão ocorrendo esses conflitos com mortes, foram arrecadadas pelo Incra para Reforma Agrária, mas uma parte não foi destinada e são palco de disputa pelos grileiros fazendeiros e posseiros que não foram assentados.

O que é uma terra arrecadada pelo Incra? É uma terra que o Incra solicita ao governo do estado ou governo federal para fins de Reforma Agrária, se abre um edital, cria-se o assentamento para assentar os trabalhadores rurais, que estão precisando de terra com direito ao módulo de terra estabelecido para um determinado assentamento.

Acontece que só uma parte dessas terras do PA Monte foi destinada e assentaram os trabalhadores rurais, outra parte não foi destinada. E aí o que aconteceu? Os grileiros, vindos de fora, de Minas Gerais, do Nordeste, da própria região do entorno, grandes fazendeiros, entraram na terra pública da União e se apossaram, grilaram essas terras de forma ilegal, uma vez que eles não eram trabalhadores rurais.

O que quer dizer entrar e grilar uma terra pública? Para vocês entenderem, é a mesma coisa que uma instituição ou uma empresa adentrar em uma escola pública fechada numa cidade, e se apossar dela em busca de benefícios próprios, que não beneficiam o público. A mesma coisa é a terra pública, seja da União, ou do Estado, é um bem público. Aí os grileiros entram, se apossam, vão cortando a mata, tirando minério e colocando gado.

No exemplo que demos anteriormente, se grupos de pessoas, empresários, entram numa escola pública na cidade, o que vai acontecer para eles saírem? A polícia vai lá, o Ministério Público, a Defensoria, todos os órgãos públicos, especialmente os da área da Educação, vão tirar os que entraram na escola. Chamam isso de manutenção de posse ou reintegração de posse dependendo da situação. A mesma coisa acontece com a terra pública.

A omissão e a conivência dos órgãos governamentais

E aí, você pergunta: por que o Incra que arrecadou essas terras do PA Monte, deixou que esses fazendeiros entrassem no PA Monte? Isso se chama omissão, porque era papel do Incra recorrer à Defensoria Pública da União, à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal. Pois ele não fez, fez vista grossa. Por quê?

Há suspeitas de mancomunação da autarquia com políticos corruptos e muitos deles são, também, grileiros, fazendo vista grossa, adentrando ou deixando outros invasores avançarem. Nessas terras, tinha gente há mais de 20 anos morando. E esses grileiros, o que eles fazem? Eles mancomunam-se, também, com os órgãos de segurança pública, Judiciário e políticos da mesma máfia. E muitas vezes vão aos cartórios das cidades e conseguem documentos falsos. Tudo com a conivência de governos e órgãos públicos municipais, estaduais e federais.

Com documentos falsos, eles vão e pedem a reintegração de posse ou a manutenção de posse que nunca tiveram. Mais uma vez mancomunados com juízes da área, eles pedem ao Judiciário, conseguindo a reintegração ou manutenção de posse. As forças de segurança, os órgãos da justiças, que deveriam não ter permitido a grilagem de terra ou ter retirado os grileiros, agora vão retirar os trabalhadores que já estavam na terra antes delas serem arrecadadas ou entram na terra pública não destinada porque não conseguiram terras no assentamento nas terras destinados. Foi o que aconteceu com muitos trabalhadores e trabalhadoras rurais daquela região do PA Monte.

Essas grilagens também ocorreram nas terras do Seringal Entre Rios, no município de Boca do Acre e no sul de Lábrea. Eles levaram as polícias civil e militar, retiraram os trabalhadores rurais, fecharam os ramais, ficaram com as pequenas propriedades, gado entre 40, 30 e 20 vacas e com casas de madeiras boas e bonitas, motos, carros que os trabalhadores tinham. Isso vem acontecendo desde 2018.

Por outro lado, os órgãos públicos, que eram para defender a população, se tornaram aliados desses grileiros, desses fazendeiros. Isto vem acontecendo em toda a Amazônia: Acre, Roraima, Rondônia, Amazonas, Pará, Maranhão, Tocantins e Mato Grosso. Nesse caso do PA Monte, a CPT Acre vem sempre atuando, denunciando, registrando nos Cadernos de Conflitos, defendendo através dos órgãos públicos, Defensoria, Ministério Público Estadual, Ministério Público Federal, Defensoria Pública da União.

Os trabalhadores do Seringal entre Rios e das comunidades Marielle Franco e Irmã Dorothy, fizeram pedidos oficiais de acompanhamento ao MPF, DPE, MPE, Incra e Ibama, e também de regularização fundiária. Quanto ao PA Monte, brevemente serão feitos os devidos pedidos oficiais. Apesar de todos esses pedidos realizados, a situação de violência continua. O trabalho dessas instituições ainda é muito lento.

Visita da Defensoria Pública do Estado do Amazonas, INCRA e MDA à comunidade Marielle Franco, quando foi comunicada às famílias a arrecadação, pelo Incra, de 28 mil hectares da fazenda Palotina. Foto: Divulgação DPE/AM

Da parte do Amazonas, juntamente, com a CPT Acre e outras instituições, associações de trabalhadores e trabalhadoras rurais do sul do Amazonas e Acre, entre elas a FACEASA, desde 2023, a CPT Regional Amazonas, CDDHPA e outras instituições vem somando forças pela defesas dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do Sul do Amazonas. Nos últimos três anos na ocupação Irmã Dorothy, grileiros atacaram e atiraram em quatro pessoas. Na Ocupação Comunidade Marielle Franco, esfaquearam mais 4 e no início de 2025 mataram o Jacozinho.

É um quadro terrível nesta região. Os ramais do Seringal Entre Rios continuam fechados pelos grileiros. O mesmo acontece na Ocupação Marielle Franco: a Fazenda Palotina fechou os ramais em terra pública, não deixando as pessoas passarem. A Fazenda Palotina entrou, também, na Flona do Iquiri, derrubou a floresta, retirou madeira e fez um ramal.

Os órgãos públicos como o Ministério Público Estadual, a Defensoria Pública do Estado, o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública da União, a Polícia Federal, ICMBio, Ibama e IPAAM já tomaram conhecimento. Mas, cadê as devidas medidas tomadas?

Os grileiros munidos de advogados apadrinhados por políticos corruptos, pedem a saída dos posseiros trabalhadores das terras públicas roubadas por esses grileiros. Esses caras estão em terra pública acusados de possuírem documentos falsos porque grilaram a terra, especialmente no PA Monte, não tem como eles tirarem o documento porque na área de reforma agrária o módulo de terra por trabalhador é limitado. Você diz: o que é isso? Omissão do Incra desde 2018.

Outra pergunta: por que o Ipam não vai e não multa, mas ao contrário, ainda dá licença para desmatamento em terra pública grilada? E por que o Ibama não se faz presente nessa região do PA Monte, Marielle Franco, Irmã Dorothy, Entre Rios, para punir esses fazendeiros? Isso não é omissão?

Nos relatos e cópias de multas, o Ibama pune os pequenos, como é o caso do ecologista e trabalhador rural Paulo Sérgio, acusado de ter desmatado terra, numa área que não tem nada a ver com a área da Ocupação Marielle Franco. As informações dão conta que, nas áreas próximas à fazenda, na Flona Iquiri, quem fez as derrubadas foi a própria acusadora, a Fazenda Palotina. E o Ibama aceitou a acusação e puniu Paulo Sérgio com diversas multas, em área que não está dentro da Ocupação Mariele Franco.

Trabalhadoras e trabalhadores rurais da comunidade Marielle Franco só derrubaram pequenas áreas de seus lotes para fazer suas roças e plantar milho, mandioca, macaxeira, cana-de-açúcar, banana, arroz, abacaxi, macaxeira e fazer suas casas. Eles só querem viver com dignidade. Mas acabaram recebendo multas, e a culpa maior caiu em Paulo Sérgio, com suspeita de armação da própria acusada Fazenda Palotina, enquanto que o fazendeiro continuou impune.

Mudanças de conjuntura a partir de 2023

As informações dos posseiros e trabalhadores rurais dão conta que entre 2018 até o início de 2023, os diversos órgãos ambientais e de segurança estavam mancomunados com grileiros, fazendeiros e maus políticos. A partir de 2023, houve prisões como o caso do Tenente Bruno, que foi alçado à patente de capitão, como homenagem pela atuação em apoio aos fazendeiros grileiros de Boca do Acre e Sul de Lábrea, além da prisão de um policial civil de Boca do Acre e saída do delegado de polícia desse município. Já o ambientalista Paulo Sérgio ficou preso quase 3 meses, mas conseguiu sair e continua lutando, juntamente, com os companheiros. Atualmente, os órgãos públicos que atuam na região mudaram um pouco essa situação, contudo a lentidão das apurações pode estar provocando essas violências com mortes.

Parte das terras do entorno da ocupação Mariele Franco foi arrecadada pelo Incra, mas ainda não destinada para a Reforma Agrária. Embora a questão continue na Justiça Federal, antes era conduzida pela Justiça Estadual. O fato é que os crimes continuam, demonstrando que a situação melhorou, mas não foi superada. Esses órgãos de Justiça deveriam atuar buscando a Cadeia Dominial de cada imóvel, para ver como grileiros e fazendeiros conseguiram tirar os documentos. Essa é a melhor forma de comprovar se os documentos são verdadeiros ou falsos.

Se pergunta: como eles conseguiram esses documentos? Em parte do documento da Fazenda Palotina, se constatou que havia suspeita de falsificação no Cartório de Lábrea, sendo necessária a presença do Tribunal de Justiça, com o corregedor de justiça do Tribunal do Amazonas.

Diante de tudo isto, é necessário maior agilidade para conter essa onda de violência no Sul do Amazonas. Não se poderia incluir o Exército neste trabalho, na retirada desses grileiros fazendeiros. O Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) poderia fazer uma varredura para evitar essa situação de grilagem devastadora da Amazônia, detectando onde estão esses grileiros realizando esses crimes. É necessário haver melhor atuação como está acontecendo contra o garimpo ilegal.

Atuação da maioria dos parlamentares da Amazônia acaba sendo ineficaz diante da violência no campo

Infelizmente, os parlamentares da Amazônia presentes no Congresso Nacional, representantes de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Maranhão e Pará, com raras exceções, têm a menina dos olhos voltada para os cifrões de dólar de exportação das riquezas da Amazônia, e isto inclui os parlamentos estaduais e as câmaras de vereadores.

Esta omissão favorece a grilagem de terra, a devastação ambiental, o latifúndio com criação de gado, plantio da soja e mineração. Se investe no crescimento econômico do Produto Interno Bruto (PIB), chamando de desenvolvimento econômico para o capital, mas a qualidade de vida das populações está muito mal. Tanto é que o agronegócio, nessas regiões, não traz benefício para os seres humanos que continuam pobres, vendo destruídas a natureza, água e floresta.

A necessidade de providências, também por parte da Igreja e sociedade civil

Está na hora de tomar providências urgentes, principalmente pelas pessoas que ocupam cargos públicos, para pensarem em soluções que levam em conta o bem comum e não só em querer se eleger politicamente para fazer riqueza própria com seus aliados desse sistema financeiro exportador.

A Igreja Católica precisa atuar mais a partir das práticas da Igreja Primitiva, dos Padres da Igreja, da iluminação teológica de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, na exigência da Destinação dos Bens para Todos. É necessário entender que a Teologia da Libertação, com suas mediações socio-analiticas e agora com as Ciências da Natureza, abre o diálogo com a sociedade, com a Ética e com a Ciência.

É preciso fazer valer a vivência da Doutrina Social da Igreja nas bases, especialmente com os ensinamentos das encíclicas Laudato Si’, do Papa Francisco, e Magnifica Humanitas, de Leão XIV. Neste contexto atual, é possível continuar com todo o aparato do incenso, a elegância das vestimentas na liturgia, desde que isso promova a vida humana e da biodiversidade na Amazônia.

Muito empenho nesse trabalho deve haver pelas instituições da sociedade civil, sindicatos, associações dos povos originários, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas, pescadores, defesa dos rios-igarapés-lagos e do meio ambiente. Os trabalhos empenhados da Comissão Pastoral da Terra, Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, Movimento de Trabalhadores Cristãos, Cáritas, e outras ONGs que desenvolvem belíssimos trabalhos em defesa da natureza e dos Povos da Floresta, devem continuar. É necessário denunciar, apertar, para que o poder público invista muito mais na defesa dos Povos da Amazônia.

A exploração da mineração que empobrece as populações amazônicas

Vejamos quatro exemplos do caso das riquezas minerais, que só fazem exportar, e não melhoram a qualidade de vida de suas populações: nos municípios de Presidente Figueiredo, Oriximiná e Juruti – que contam com mineradoras explorando recursos naturais há longos períodos, chegando a 40 anos -, além de Coari (que tem exploração de petróleo e gás), são menos desenvolvidos do que o município de Parintins, que não conta com nenhum destes empreendimentos minerários.

Fonte: Assessoria de Imprensa


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