
MANAUS – No caso das empresas importadoras do Polo Industrial de Manaus, a variação cambial é decisiva, uma vez que parte significativa da produção depende de insumos, partes, peças, componentes eletrônicos, placas, semicondutores, motores, módulos e equipamentos provenientes da China. Ou seja, a empresa produz em Manaus, vende majoritariamente no mercado brasileiro em reais, mas adquire parte essencial de seus insumos em moeda estrangeira. A relevância econômica do PIM é evidenciada pelos dados oficiais da Superintendência da Zona Franca de Manaus. Segundo a Suframa (2026), os indicadores do Polo Industrial de Manaus referentes ao primeiro bimestre de 2026 confirmam a importância do complexo industrial para a economia regional e nacional, especialmente nos setores de duas rodas, eletroeletrônico e bens de informática, segmentos fortemente dependentes de insumos importados.
A importância do câmbio, neste estudo, expressa-se a partir de um ponto central: o impacto da variação cambial sobre o custo final das importações expresso em reais. Não se discutem aqui os custos bancários associados a tarifas, spreads ou outros encargos operacionais do fechamento de câmbio. Segundo informação fornecida pela carteira de câmbio do Banco Itaú, a tarifa aplicada é padrão para ambas as moedas, sem alteração relevante entre operações realizadas em dólares norte-americanos e operações realizadas em renminbi. Além disso, a recomendação do banco é simular ambas as moedas antes do fechamento de câmbio, o que reforça a importância de comparar previamente o valor final da operação em cada moeda.
Portanto, o eixo analítico não reside no custo bancário da operação, mas no comportamento relativo das taxas USD/BRL e RMB/BRL. Em outros termos, se as condições bancárias são equivalentes, a variável relevante para as empresas importadoras do PIM passa a ser a variação do tipo de câmbio e seu impacto direto sobre o valor final da importação.

Essa perspectiva está em consonância com a literatura econômica sobre câmbio e preços. Dornbusch (1987) demonstrou que as variações cambiais alteram preços relativos e afetam a formação de preços em mercados industriais. Goldberg e Knetter (1997), por sua vez, destacam que o chamado repasse cambial aos preços, ou exchange rate pass-through, não ocorre de forma automática ou integral, pois depende da estrutura de mercado, da moeda de faturamento, da capacidade de absorção de margens e das estratégias de precificação das empresas. Campa e Goldberg (2005) também mostram que variações cambiais tendem a ser transmitidas, ainda que parcialmente, aos preços de importação, afetando diretamente os custos das empresas que dependem de insumos estrangeiros.
- O câmbio define o custo real da importação
Quando uma empresa do PIM compra da China em dólares, ela não está adquirindo apenas o componente chinês. Também está assumindo o risco decorrente da variação real/dólar. Da mesma forma, se a operação for realizada em renminbi, a empresa passa a estar exposta à variação real/renminbi.
Exemplo simples:
Tabela 1
Exemplo simples de impacto cambial
Situação| Compra de US$ 1 milhão| Taxa de câmbio| Custo em reais
Dólar a R$ 5,00| US$ 1.000.000| R$ 5,00| R$ 5.000.000
Dólar a R$ 5,40| US$ 1.000.000| R$ 5,40| R$ 5.400.000
Nota. Elaboração própria com fins ilustrativos.
A mercadoria é a mesma. O fornecedor é o mesmo. Entretanto, a empresa paga R$ 400 mil adicionais apenas em razão da variação cambial. Esse exemplo mostra que o elemento decisivo não é a tarifa bancária, mas a taxa de câmbio utilizada no momento da liquidação da operação.
Esse efeito incide diretamente sobre o custo de produção, o preço final, a margem de lucro e a competitividade. Pereira e Carvalho (2000), ao analisarem a desvalorização cambial no Brasil, demonstram que a alteração da taxa de câmbio pode afetar os custos industriais por meio dos insumos importados e de seus efeitos de encadeamento sobre os setores produtivos. Isso significa que a variação cambial não atinge apenas a empresa que importa diretamente, mas também pode se disseminar por toda a cadeia produtiva, alcançando fornecedores, distribuidores e consumidores finais.
- A comparação relevante é USD/BRL frente a RMB/BRL
O ponto mais relevante desta discussão é o seguinte: muitas empresas do PIM compram da China, mas continuam pagando em dólares norte-americanos, e não em renminbi/yuan, que é a moeda chinesa.
Isso gera uma operação estruturada tradicionalmente em torno do dólar:
Real → Dólar → China
Quando, em determinadas operações, poderia ser avaliada a possibilidade de realizar a operação em moeda chinesa:
Real → Renminbi → China
Neste estudo, entretanto, não se afirma que o renminbi seja sempre mais vantajoso que o dólar. Também não se sustenta que as empresas devam substituir automaticamente o dólar pela moeda chinesa. A questão central consiste em comparar, em cada operação ou período analisado, qual das duas trajetórias cambiais produz menor custo final em reais.
Se as tarifas bancárias são equivalentes para ambas as moedas, conforme informado pela carteira de câmbio do Banco Itaú, a diferença relevante encontra-se no comportamento das taxas de câmbio. Por essa razão, a comparação deve concentrar-se na relação entre o real brasileiro e o dólar norte-americano, de um lado, e entre o real brasileiro e o renminbi chinês, de outro.
A literatura sobre moeda de faturamento no comércio internacional reforça esse ponto. Krugman (1980) mostrou que determinadas moedas assumem papel de moeda-veículo nas transações internacionais, não necessariamente por corresponderem à moeda do país fornecedor, mas por sua liquidez, tradição contratual e aceitação no sistema financeiro internacional. Assim, a permanência do dólar nas importações do PIM não decorre apenas de uma escolha técnica imediata, mas também de uma prática historicamente consolidada nas operações internacionais.
- A variação cambial pode alterar significativamente o custo da importação
Se a empresa compra da China em dólares, o custo final dependerá da cotação USD/BRL no momento do fechamento de câmbio. Se a empresa compra em renminbi, o custo final dependerá da cotação RMB/BRL ou CNY/BRL. Em ambos os casos, a variável decisiva é a quantidade de reais necessária para liquidar a operação.
Como resultado, a empresa brasileira pode enfrentar diferentes impactos cambiais conforme a moeda utilizada.
Tabela 2
Impacto cambial segundo a moeda de liquidação
Operação| Variável cambial relevante
Compra em dólares| Variação USD/BRL
Compra em renminbi| Variação RMB/BRL ou CNY/BRL
Comparação entre moedas| Diferença relativa entre USD/BRL e RMB/BRL
Decisão antes do fechamento| Simulação do valor final em ambas as moedas
Nota. Elaboração própria.
Portanto, o problema não consiste simplesmente em escolher entre “dólar ou renminbi” como uma preferência política ou simbólica. A questão central é verificar qual moeda, em determinado momento, produz menor impacto cambial sobre o valor final da importação expresso em reais.
Os estudos sobre volatilidade cambial e comércio exterior também reforçam essa preocupação. Hooper e Kohlhagen (1978) destacam que a incerteza cambial pode afetar preços e volumes de comércio internacional. Arize, Osang e Slottje (2000) e Bahmani-Oskooee e Hegerty (2007) mostram que a volatilidade cambial pode influenciar fluxos comerciais, especialmente quando empresas e setores dependem de transações internacionais recorrentes. No caso brasileiro, Bittencourt e Campos (2014) analisam os efeitos da instabilidade da taxa de câmbio no comércio setorial entre o Brasil e seus principais parceiros comerciais, reforçando que a variação cambial não é neutra para empresas importadoras e exportadoras.
- O câmbio incide sobre a margem de lucro das empresas
As empresas do PIM enfrentam uma situação clássica: adquirem parte de seus insumos em moeda estrangeira, mas vendem seus produtos no Brasil em reais.
Quando o dólar ou o renminbi se valorizam frente ao real, a importação se encarece. A empresa tem três alternativas:
- transferir o aumento para o preço final, com o risco de perder mercado;
- absorver o aumento, reduzindo sua margem de lucro;
- renegociar contratos, prazos ou condições comerciais, o que nem sempre é possível.
Por essa razão, a variação cambial não é uma variável secundária. Ela está no centro da formação do preço de televisores, motocicletas, telefones celulares, aparelhos de ar-condicionado, placas eletrônicas e diversos produtos fabricados no PIM.
A própria lógica de importação do Polo Industrial de Manaus exige uma gestão cambial ativa. Se a empresa compra insumos em moeda estrangeira e vende em reais, qualquer alteração relevante na relação entre o real e a moeda de liquidação da importação pode modificar o custo de produção, a margem operacional e a competitividade empresarial.
Esse ponto também é tratado por Amiti, Itskhoki e Konings (2014), ao demonstrarem que muitas empresas exportadoras relevantes são, ao mesmo tempo, grandes importadoras. Isso significa que uma desvalorização cambial pode, em determinados casos, aumentar a competitividade das exportações, mas também elevar o custo dos insumos importados. No caso do PIM, esse aspecto é ainda mais relevante, pois muitas empresas operam predominantemente como importadoras líquidas, dependendo de componentes estrangeiros para produzir bens destinados ao mercado interno brasileiro.
- A simulação prévia confirma a necessidade de gestão cambial ativa
A informação fornecida pela carteira de câmbio do Banco Itaú reforça um aspecto central desta análise: se todas as moedas estrangeiras são elegíveis para câmbio e se a tarifa é padrão para ambas as moedas, a decisão empresarial deve apoiar-se na comparação do valor final da operação antes do fechamento.
A recomendação de simular ambas as moedas antes do fechamento de câmbio é, portanto, especialmente relevante. Ela confirma que a escolha entre dólar e renminbi pode produzir resultados distintos não em razão de tarifas bancárias diferenciadas, mas em função do comportamento específico de cada taxa de câmbio frente ao real.
Nesse sentido, a comparação técnica não deve começar por uma preferência automática pelo dólar nem por uma substituição automática pelo renminbi. Deve começar pela simulação do impacto cambial efetivo de cada alternativa monetária.
Tabela 3
Comparação técnica centrada na variação cambial
Questão| Operação em dólares| Operação em renminbi
Moeda de liquidação| USD| RMB/CNY
Relação cambial relevante| USD/BRL| RMB/BRL ou CNY/BRL
Custo bancário informado| Tarifa padrão| Tarifa padrão
Elemento decisivo| Valor final em reais| Valor final em reais
Procedimento recomendado| Simular antes do fechamento| Simular antes do fechamento
Critério de decisão| Menor impacto cambial| Menor impacto cambial
Nota. Elaboração própria com base em informação fornecida pela carteira de câmbio do Banco Itaú.
Na pesquisa realizada por Coêlho (2026), o dado mais relevante é que 93,3% das empresas analisadas continuam utilizando exclusivamente o dólar em suas importações, enquanto apenas 6,7% utilizam simultaneamente o dólar e o renminbi. O estudo também identificou que 73% das empresas pesquisadas importam mais de 60% de seus insumos da China.

No plano quantitativo, a análise comparativa das variações USD/BRL e RMB/BRL indicou que, no triênio 2023–2025, a utilização do RMB teria produzido um resultado líquido acumulado favorável estimado em US$ 86,17 milhões para os importadores do Polo Industrial de Manaus. Esses resultados revelam uma contradição central: elevada dependência produtiva em relação à China, vantagem cambial líquida favorável ao RMB no período analisado, mas baixa diversificação monetária nas operações de importação.
Esses resultados reforçam a importância da simulação cambial. Se as empresas não comparam formalmente o impacto de USD/BRL e RMB/BRL antes do fechamento de câmbio, podem manter uma prática monetária tradicional sem verificar se ela é efetivamente a mais conveniente em termos de custo final expresso em reais. O achado de Coêlho (2026) não significa que o renminbi deva substituir automaticamente o dólar, mas demonstra que a escolha da moeda de liquidação deve ser objeto de análise técnica periódica, sobretudo em empresas fortemente dependentes de insumos chineses.
Síntese
Para as empresas importadoras do Polo Industrial de Manaus, o câmbio é importante porque define o custo dos insumos, a margem de lucro, o preço final, a competitividade, o risco financeiro e a exposição monetária associada às importações provenientes da China.
A grande contradição é que o PIM compra intensamente da China, mas continua atado ao dólar norte-americano como moeda dominante. Isso revela aquilo que Coêlho (2026) denomina inércia cambial organizacional: as empresas mantêm a prática histórica de pagar em dólares mesmo quando existem alternativas que mereceriam uma comparação técnica mais rigorosa. O achado empírico de um resultado líquido favorável ao RMB de US$ 86,17 milhões no triênio 2023–2025 reforça a necessidade de simulação cambial periódica, sem que isso signifique defender a substituição automática do dólar pela moeda chinesa.
A conclusão mais equilibrada é a seguinte: não se trata de substituir automaticamente o dólar pelo renminbi, mas de superar a inércia cambial. Se as tarifas bancárias são equivalentes, conforme informado pela carteira de câmbio do Banco Itaú, a variável decisiva passa a ser a variação cambial comparada. Por isso, as empresas do PIM devem simular, antes do fechamento de câmbio, o valor final de cada operação em dólares e em renminbi, verificando qual das duas moedas produz menor impacto sobre o custo final da importação expresso em reais.
*É economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.









