
PORTO VELHO – Uma das constatações que a idade nos traz é de que, às vezes, nos deparamos com a posteridade, como costumávamos avisar que a turma se junta para fazer uma foto, a tal foto para a posteridade. Há ocasiões em que registramos um momento sem saber que mais adiante aquilo nos fará tanta falta. No final dos anos 80 e início da década de 90 a redação do Alto Madeira era uma grande família, pelo menos para mim.
Aquele lugar era a minha casa, o meu mundo e o meu sonho. Como todo trabalhador assalariado eu também reclamava, especialmente quando o que restava do salário não era suficiente para pagar as contas e olha que sempre fui cautelosa com meus gastos, mas às vezes não dava mesmo para acertar débito e crédito.

Redação do jornal Alto Madeira no início dos anos 1990
O primeiro sempre ficava maior. Por mais que fizesse contas, os números não batiam. Mas fazer o quê? Não nasci rica, nasci inteligente.
Sempre acabava o dinheiro e sobrava mês…
Mas não trocava aquilo por nada.
Raísa nasceu praticamente na redação do jornal. E passou os primeiros anos de vida convivendo diariamente naquele ambiente, que pra mim então, era quase um santuário. E assim, a menina crescia naquele grande salão. Ora agitando as teclas das máquinas de escrever, que por acaso estivessem desocupadas, ora correndo ou se distraindo com o maquinário antigo, que fazia do pátio do Alto Madeira um verdadeiro museu.
Trabalhar naquela redação era uma benção.
O tempo corria rapidamente. As ideias se amontoavam na cabeça e, às vezes, a noite chegava e o texto não estava finalizado. Da mesa dele o chefe cobrava: falta muito? Tem quantas linhas? Tem foto? Naquela altura do campeonato, não adiantava inventar. Afinal, o diário estava quase todo preenchido e só tinha espaço para aquela matéria. Se houvesse outras informações importantes elas deveriam ser trabalhadas e atualizadas para o dia seguinte. Certo é que a cada questionamento do chefe, o tempo passava mais rápido e eu me atrapalhava um pouco mais ou um pouco menos, dependendo do que era a prioridade daquela edição.
À medida que a Raísa ia crescendo, já não exigia tanta atenção. Ela se envolvia com uma coisa ali outra acolá e assim eu, com um olho no padre e outro na missa, ia construindo meu trabalho.
Finalmente
Jornal fechado e cada um pegava seu rumo ou não.
Tinha uns que gostavam de tomar uma para desestressar, e eu pensava: mas tem que desestressar todo santo dia?
Pior que tinha!
E lá iam eles.
Outros, como eu, caçavam o rumo de casa. Afinal, uma outra jornada me esperava.
Pegar o ônibus era um desafio. Ir da redação até em casa eram duas linhas, ambas demoradas. Quem reclama dos nossos ônibus hoje, não tem ideia do que era antes. E até chegar ao ‘4 de Janeiro’, a menina já estava apagando, quase que sem gás. E eu também. Mas tinha que carregá-la no colo do ponto do ônibus até em casa.

Gente, tudo isso brotou na minha mente no momento em que visualizei no WhatsApp a foto dos anos 90 restaurada e colorida pelo João Luiz Kerdy, um profissional dedicado à imagem.
Tempo sofrido, mas muito especial.
A redação abria entre sete e oito da manhã. Então tinha gente que chegava cedinho, cumpria a missão do dia e ia embora. Outros precisavam passar o dia todo. Outra turma só assumia o posto depois do almoço.
Então era complicado fazer uma foto com todos juntos e pra variar ainda tinha a turma que fugia das fotografias.
Este era um dia comum, como tantos outros, mas para atender algum fim específico, talvez uma edição especial – realmente não estou lembrando – nos juntamos para a célebre foto.
De vez em quando alguém da velha guarda faz uma republicação.
Mas, desta vez, a primeira colorida.
Hoje, alguns já nos deixaram, mas ainda temos alguns que resistem.
Vamos identificar a todos.
Primeiro o autor da obra de arte: J. Gomes.
A partir da esquerda: Zezinho Nascimento – diagramador, Ivan Marrocos, o guru da redação – nosso editor-chefe – in memorian, Ciro Pinheiro – então colunista social,
Juliano – nosso operacional corria as ruas esburacadas o dia todo nos levando de um lado para o outro.
Seu Cruz – também diagramador, Alice Thomaz – esta relatora, Raísa Thomaz – aquela que quase virou repórter, mas acordou cedo, em tempo de seguir um novo rumo.
Áureo Ribeiro – in memoriam e o filho Aurinho.
Nilton Salinas, Willian Jorge, Carlos Neves – in memoriam e José Carlos Sá.
*É jornalista









