
Colheita de soja no Rio Grande do Sul.
Reuters
Os leilões de propriedades rurais retomadas por credores estão crescendo rapidamente em todo o Brasil, segundo dados compilados para a Reuters, à medida que a inadimplência no campo chegou a quase um quinto dos empréstimos em circulação.
A queda nos preços dos grãos, os juros elevados e o aumento dos custos dos insumos, somados aos impactos de um clima cada vez mais imprevisível, têm levado a falências e à perda de propriedades rurais no país, disseram produtores e analistas à Reuters.
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Para agravar a situação, agricultores brasileiros se preparam para a possível ocorrência de um “super El Niño”, que pode prejudicar a produtividade das safras e reduzir ainda mais a renda no campo.
Além disso, a alta nos preços dos fertilizantes durante a guerra no Irã levou muitos agricultores a reduzir os planos de novos plantios.
Agora no g1
O Rio Grande do Sul é um dos estados mais afetados pela inadimplência, após as enchentes catastróficas de 2024, associadas ao fenômeno El Niño e às mudanças climáticas, segundo estudo publicado em janeiro na revista “NPJ Natural Hazards”, da editora Nature.
As dívidas com problemas de pagamento no crédito rural mais que quadruplicaram em dois anos, chegando a R$ 171,2 bilhões no início deste ano, segundo dados do Banco Central. Já a parcela de empréstimos em atraso no crédito rural subiu para 19,6%, ante 5,5% dois anos antes.
“Este momento de endividamento no campo é um momento extremamente delicado”, disse o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura do Brasil, Guilherme Campos, à Reuters.
Venda de propriedades rurais
Os credores têm intensificado a execução de garantias e tomado mais terras agrícolas em caso de inadimplência, o que elevou o número de propriedades levadas a leilão, segundo dados do site Leilão Imóvel obtidos pela Reuters.
O volume desses leilões chegou a 14.219 propriedades rurais em 2025, um aumento de 30% em relação ao ano anterior.
As propriedades retomadas e leiloadas por meio de processos extrajudiciais — mais rápidos — quase dobraram, chegando a 2.398 no ano passado.
O Leilão Imóvel passou a acompanhar cerca de 7% mais leiloeiras em 2025, o que significa que os dados não são totalmente comparáveis, explicou o cofundador André Figueiredo, à Reuters.
Ainda assim, as maiores leiloeiras compartilham dados desde 2019, o que indica uma tendência clara de piora nas condições financeiras dos produtores, afirmou.
“O volume de imóveis rurais aumentou bastante”, disse ele, acrescentando que as regiões voltadas para a produção de soja e outros grãos foram as mais afetadas.
Os pedidos de recuperação judicial do setor agrícola cresceram 56% em 2025, após mais que dobrarem em 2024, segundo dados da Serasa Experian.
Clima turbulento
Os produtores ainda enfrentam dificuldades para se recuperar de uma série de choques recentes, disse o responsável pelo setor de agronegócio da Serasa Experian, Marcelo Pimenta, à Reuters.
Segundo ele, fatores como o clima adverso, a queda nos preços das exportações agrícolas — especialmente da soja — e a taxa básica de juros, que subiu de 2% para 15% em cinco anos, têm dificultado o pagamento das dívidas.
“A perspectiva para frente não é boa”, acrescentou ele. “Os juros ficaram muito altos e não sabe onde vão ficar os preços das commodities. A chance de choques por problemas climáticos é muito alta.”
Um agricultor do Rio Grande do Sul, que pediu para não ser identificado, afirmou que tem dificuldade para lidar com juros “impagáveis” após perdas causadas por eventos climáticos extremos. Segundo ele, um credor já tomou posse de mais da metade da fazenda da família.
“A mudança climática, ela é expressiva, ela é evidente. Nós não estamos conseguindo produzir uma hora por muita chuva e outra hora por muito sol. Então eu te digo assim: o fator clima é o fator que nos colocou nessa posição.”









